Capítulo 18
Não foi difícil convencer Sara e Michael que eu e Kyle tínhamos nos resolvido com aquela conversa, e que eu apenas precisava de um tempo absorvendo tudo até que voltássemos ao que éramos antes - ou pelo menos o mais próximo disso. Mas convencer Jenny do mesmo... ah, isso sim foi difícil. Para ela eu tinha que ter dado um pé na bunda dele, quebrado os vidros do seu carro e jurar nunca mais olhar em sua cara. E eu até achei graça naquilo.
Jenny podia ser uma menina muito inteligente e de certa forma até meio "avançada" para sua idade, mas ainda tinha muito que aprender, principalmente em como a vida pode ser e é muito injusta. Eu sentia falta dessa inocência, de achar que um relacionamento era algo que envolvia apenas duas pessoas e o amor entre elas. Mas às vezes entra um pai alcóolatra no meio e a gente tem que aprender a lidar com isso pelo bem dos dois.
Eu achei que seria fácil chegar em casa e simplesmente seguir o dia normalmente, já que Kyle tinha se explicado e na minha percepção eu não tinha motivos para não acreditar nele. Mas ainda doía. Convencer meu coração que aquilo tudo tinha sido um engano e que meu namorado ainda era a pessoa boa e incrível que conheci demorou um pouco mais do que eu achava. Em poucas horas eu passei por todo o êxtase do meu aniversário, de estar com as pessoas que amo e de ser pedida em namoro, e caí como numa montanha russa por uma das piores sensações que já senti: a dúvida.
Mas, segundo Sara e até mesmo Michael: não tinha álcool que não curasse essa angústia. E o que eu podia fazer se não aceitar seus convites de me deixarem bêbada? Dessa vez não tinha bem um motivo como último dia de aula ou pré-aniversário, mas ser verão e estarmos livres de obrigações por mais um mês e meio já era o bastante.
Depois do jantar só avisei para minha mãe que iria até a casa de Michael e pedalei a todo vapor, o que não era algo muito fácil de se fazer usando saia. Dei sorte pela casa do meu amigo não ser tão longe, mas a mesma não durou muito. Não sei bem o que aconteceu, talvez fosse a euforia de estar indo ver meus amigos, mas na hora que fui descer da bicicleta enganchei o pé em um dos pedais e caímos as duas no chão. Daisy devia estar com algum prego solto e eu só percebi isso quando o senti rasgando a pele fina do meu tornozelo, por pouco não pegando na minha tatuagem recém feita.
Levantei do chão dando pulinhos e resmungando por ter manchando meu tênis de sangue na mesma hora que a mãe de Michael abriu a porta, provavelmente o gritinho que eu dei quando caí deve ter chamado mais atenção do que um simples toque na sua campainha.
— Ai, Summer, coitadinha! — ela correu ainda com luvas de cozinha nas mãos e ergueu minha perna para ver o corte. Não tinha sido muito fundo, mas o sangue deixava a situação bem mais dramática. — Eu preciso ver o bolo no forno, mas você pode ir lá no meu banheiro lavar isso. Coloque um... — seus olhos se focaram em algo atrás de mim e ela sorriu com todo o rosto. — Ah, que ótimo! Pronto, o Kyle vai lá te ajudar.
Meu coração deu um salto ao escutar o seu nome e quase parou de bater quando senti suas mãos compridas nos meus braços. Seu perfume logo invadiu meus pulmões e por um instante até esqueci a dor chata no meu tornozelo. Como eu senti falta dele...
— Michael me chamou pra vir. Tem problema? — a sra. Lancaster entrou correndo para ver o bolo e Kyle me virou de frente para ele. Se passaram apenas três dias desde que nos vimos na Cali's, mas foi o suficiente para que eu me desse conta de como eu estava com saudades dele. Com saudade de nós.
— Nenhum. — poderia até mentir e tentar me fazer difícil, mas o sorriso que apenas crescia no meu rosto a cada segundo me entregaria logo.
Ele me fez apoiar em seu ombro para me levar até o banheiro, mesmo depois de eu insistir que estava perfeitamente bem para a andar, e quando chegamos Kyle me pegou no colo e me colocou sentada na pia. Tinha sido apenas um corte bobo, mas eu estava disposta a fazer um drama muito maior se ele continuasse me mimando daquele jeito.
Fechei um pouco mais as pernas para que minha calcinha de bolinhas não ficasse a mostra - maldito dia que escolhi usá-la - por causa da saia curta e esperei que isso tivesse passado despercebido por Kyle enquanto pegava o kit de curativos na gaveta, mas esse garoto parecia ter olhos nas costas. E ainda soltou uma risada que só me fez ficar mais vermelha.
— Acho que já passamos dessa parte, meu amor. — ignorei a parte do meu amor que fez meu estômago dar mil cambalhotas e dei um tapinha em seu braço, fazendo-o rir ainda mais. — Acho que bolinhas te deixam ainda mais sexy.
Ele sussurrou antes de descer até meu tornozelo e limpar meu machucado com a maior naturalidade do mundo. Kyle conseguia acender um fogo dentro de mim, o mesmo que nos esquentou no meio de uma tempestade, e agir como se nada tivesse acontecido. Eu queria enforcá-lo por isso. E beijá-lo até meu fôlego acabar.
Então eu fiz o qualquer jovem com hormônios a flor da pele faria nessa situação. Assim que ele colocou um band-aid em cima do corte eu o puxei pelo colarinho da blusa e o beijei como não fazia há tantos dias. Ele se segurou por um segundo, talvez por estarmos no banheiro da casa do meu melhor amigo e com a mãe dele a alguns metros quadrados de distância de nós, mas num piscar de olhos Kyle já segurava minha cintura e me colava mais em seu corpo. Não era como se já não tivéssemos um histórico de dar uns amassos na casa de outras pessoas.
Eu me rendi ao meu desejo de beijá-lo até que o fôlego começasse a falhar, mas assim que me separei para respirar Kyle desceu com os beijos até meu pescoço, me obrigando a morder os lábios com força para não suspirar tão alto. Ele agora deslizava as mãos pela minha coxa e até ameaçava chegar na parte interna delas, e eu sinceramente não sei onde iríamos parar se a imagem de um Michael claramente enojado na porta não me tivesse feito dar um gritinho, bem semelhante ao que dei quando caí da bicicleta.
— Ah, qual é, gente. Eu chamei vocês para beber, não para fazer bebês. — ele revirou os olhos e abriu mais porta, como se para impedir que voltássemos a fazer o que estávamos fazendo. — Desçam logo, não aguento mais ficar sozinho com a Sara.
Ele saiu antes que pudéssemos responder qualquer coisa, parecendo um filho que tinha acabado de pegar os pais transando. Kyle e eu nos olhámos e automaticamente começamos a gargalhar.
Kyle fazia com quem eu me sentisse uma adolescente descobrindo as coisas boas da vida, como poder sair sozinha ou como da primeira vez que tomei um gole de cerveja. Eu odiei, mas a sensação de estar fazendo algo tão "adulto" era incrível, quase extasiante. E ele me dava essa sensação sempre que estávamos juntos, não só pelo fato de fazermos esse tipo de loucura quase toda vez que nos víamos, mas por eu me sentir como se pudesse fazer essas coisas e não me sentir culpada por isso.
Não demoramos para descer porque eu sabia como Sara conseguia ser bem irritante quando queria. Antes de conhecer Michael, porões me davam um medo absurdo, porque nos filmes de terror sempre acontecia algo no porão. Podia ter acontecido um assassinato e o corpo foi escondido lá, e o espírito nunca teve paz, ou era um local em que algum maníaco torturava criancinhas. Eu nunca descia no porão de casa sozinha e sem ter um motivo muito importante, mas o de Michael era completamente diferente. Ele fazia daquele lugar quase um santuário, era seu cantinho de paz, ainda mais que o seu quarto. Passamos longas noites ali embaixo, eles bebendo e todos nós agindo como loucos, ou apenas nos escondendo dos nossos pais ou dos problemas da vida, como se ali no subsolo nada pudesse nos pegar.
Lá embaixo já encontramos Sara virando sua terceira ou quarta garrafa de cerveja e tocava Elvis Presley no toca-discos antigo dos Lancaster. Assim que nos viu, minha amiga correu para me abraçar como se fizesse meses que não nos víamos. E para minha surpresa ela abraçou Kyle do mesmo jeito, então se separou e o encarou com os olhos semicerrados.
— Eu ainda quero te socar. Mas te perdoo. Você é muito lindo para ficar com um olho roxo.
E se afastou enquanto dançava deslizando em suas meias coloridas. Michael apenas gargalhou enquanto pegava mais cerveja no frigobar.
— Devo me preocupar com isso? — Kyle apontou discretamente para Sara depois que nos sentamos no tapete.
— Não, isso foi apenas Sara bêbada. Depois você se acostuma. Já até perdi as contas de quantas vezes ela tentou me beijar depois de três cervejas. — Michael concordou comigo e disse que a situação era a mesma com ele.
Nós quatro brindamos e tomamos um gole cada, até que Sara começou a discutir com Michael por ele ter derramado algo "desconhecido" em uma de suas meias verde neon. Murmurei um "boa sorte" para meu amigo e ele apenas revirou os olhos, reconhecendo que até ela se ligar que ela tinha apenas pisado numa poça de água demoraria uns bons minutos.
Nesse meio tempo olhei para Kyle e a cerveja em sua mão, até acompanhei algumas vezes o movimento de levar a garrafa até a boca, tomar alguns mililitros e então voltar a apoiá-la em seu joelho. Pelo visto eu era péssima em encarar as pessoas porque na terceira vez ele apenas soltou uma risada e passou a me olhar também.
— Pode perguntar, Summer, não vou ficar irritado.
— É que... como você consegue beber tendo, sabe... seu pai? Não te dá medo?
— Um pouco. — ele admitiu, mas apenas deu de ombros e tomou mais um gole. — Eu sei que ele tem uma doença, que não é algo comum ficar daquele jeito. Mas eu também conheço meus limites e nunca passo deles. Eu bebo porque gosto do sabor e não para ficar bêbado. Eu tomo duas ou três no máximo e paro por aí mesmo. — sua mão livre procurou a minha e entrelaçamos nossos dedos. Kyle sorriu e mesmo sem saber o motivo, sorri de volta. — Mas se sinta livre para ficar tão louca quanto a Sara na minha frente.
Ri sabendo que isso raramente acontecia, mas concordei mesmo assim. Nunca tinha parado para pensar que quando nos encontramos na festa dos Greenie eu estava sob efeitos alucinógenos e Kyle poderia muito bem desistir de mim ali mesmo. Ele poderia ter pensado que aquilo era algo rotineiro pra mim e ter escolhido não aceitar meu convite de caminharmos na praia. Aquela noite poderia ter tido um fim bem diferente, mas mesmo assim estamos aqui. Talvez fosse coisa do destino mesmo.
Não sei quanto tempo se passou, mas em um dado momento estávamos dançando Jailhouse Rock como se todo o mundo dependesse daquilo. Michael me girava de um lado para o outro fazendo minha saia rodopiar como as das meninas da década passada e Kyle tentava imitar os passos loucos que Sara criava na hora. Nós riamos até a barriga doer e nem o mesmo calor que tinha se instalado no porão foi capaz de nos desanimar, mas mesmo assim agradecemos quando a próxima música era uma mais calma, perfeita para acalmar nossos corações acelerados.
Can't Help Falling In Love começou a rodar e não paramos de dançar, apenas trocamos os casais e diminuímos o ritmo dos passos. Kyle descansava os braços atrás das minhas costas e fiz o mesmo enlaçando os meus em seu pescoço. Nós cantávamos baixinho acompanhando a voz do rei, e aquela canção que meu pai tanto gostava de cantar para a minha mãe, nunca fez tanto sentido.
— Like a river flows surely to the sea, darling, so it goes
(Como um rio que corre certamente para o mar, querida, é assim)
Ele cantava depois de me rodopiar e volta a colar nossos corpos.
— Some things are meant to be
(Algumas coisas estão destinadas a acontecer)
Eu completei como se a música tivesse sido escrita por nós dois.
Minha vontade era de congelar aquele momento ou gravá-lo para que eu pudesse repetir inúmeras vezes sem nunca me cansar. Já considerava ligar para a minha mãe e avisar que iria dormir ali, para tentar fazer aquela noite durar o máximo possível. Talvez Kyle pudesse fazer o mesmo e nós compensaríamos os últimos dias que foram tão desgastantes para nós.
Mas no momento que Isaac desceu as escadas do porão cambaleando e cheirando a cigarro, com Cassidy tentando segurá-lo, e trocou olhares com meu namorado, eu sabia que aquela noite não terminaria tão bem como eu imaginava.
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