Gula
Do latim gula. Desejo insaciável, além do necessário. Querer ter sempre mais e mais, não se contentando com o que já tem.
***
Acordei sem saber exatamente onde estava. Passa por volta das 6:45 da manhã, quando acordo e me deparo em um quarto onde não reconheci. Olhei para os lados à procura de alguma figura reconhecida. Mais foi em vão.
Ainda tonta e meio desnorteada, saio de dentro do quarto. Um corredor à minha frente me leva direto a uma sala que aparentava ser a sala de estar. Dei uma boa olhada no ambiente. A sala era clara, com paredes enmassadas, e uma decoração meio rústica, com quadros desproporcionais ao resto de toda a decoração.
–Você estar melhor Elizabeth? - Ouço a pergunta vindo do meu lado esquerdo.
Me viro e faço esforço para tentar me relembrar quem era aquela mulher à minha frente.
–Sou a Bárbara. A namorada de seu tio Ricardo. Você está dopada há exatamente, dois dias e algumas horas. - Ela me falou enquanto se aproximava de mim.
Fechei os olhos e vi alguns flashes de imagens voltando à minha memória.
Rapidamente e tão inevitável as lágrimas começaram a rolar. Como em uma cena de terror, vejo a casa dos meus pais pegar fogo. Grito desesperada chamando por socorro. Vizinhos vêm e tentam ajudar, porém o fogo estava muito alto e já não tinha como apagar. Chorava desesperada, pois era noite e meus pais já idosos estavam dormindo àquela hora.
–Minha mãe... Meu pai...! - Falo aos choros a me lembrar de tudo.
–Calma meu amor.Tudo já passou. Eles agora estão bem. Estão em um lugar melhor.
Meus pais já haviam sido enterrados e eu nem tive a oportunidade de dar meu último adeus. Estava a mais de 48 horas, completamente dopada, pois estava em um desespero total. Chorando a cada segundo, lamentando toda aquela tragédia. Chorei muito tentando me lembrar quando foi a última vez que eu os abracei e falei que os amava.
《10 Anos Mas Tarde》
–Mamãe! Mamãe!... - Gritos invadem a casa. - Mamãe eu fui a melhor na aula de ballet hoje! - Ela falou feliz da vida.
Minha vida agora era ótima!Tinha um marido maravilhoso, uma família harmoniosa, duas filhas dedicadas e obedientes. Um bom emprego que me rendia uma vida financeira bem sucedida e eu era agora a colunista mais famosa de uma das melhores revistas de publicidade de todo os tempos. Não poderia desejar tanta felicidade e ser tão feliz como já era...
"Ou simplesmente, sim, eu poderia!"
[...]
As coisas iam super bem na minha vida. Fazia alguns anos que tudo só dava certo. Tudo só ia para frente. Eu me sentia feliz. Me sentia bem. Mais sentia que algo faltava. Eu trabalhava praticamente de segunda a sexta. As vezes até os sábados. Sempre das 8:00 da manhã as 22:00 horas da noite. Sempre trazia trabalhos para casa. Sempre procurava me dedicar, me empenhando no meu trabalho para obter mais sucesso do que já tinha. Ser a melhor colunista de uma das mais famosa revistas de São Paulo era bom. Mas eu queria mais. Eu precisava de mais. Não parecia muito bom apenas ter reconhecimento em todo o Brasil. Eu queria reconhecimento no mundo todo! Sempre gastava mais do que eu precisava, sempre comprava muitas coisas para apenas demonstrar que estava bem. Que estava feliz.
"Como se tudo aquilo fosse felicidade."
Lembro-me de uma vez que comprei mais de uma dúzia de blusas de grifes pelo simples fato de ter ficado na dúvida qual eu usaria. Porém ao final das contas, nem uma eu cheguei de fato a usar. Todas eram terríveis! Mais eu havia comprando porque uma fulaninha famosa tinha uma. E eu queria ter uma também! A essa altura de minha vida, eu já tinha credibilidade entre vários famosos e colunas sociais. Até bem mais, que essa tal "fulaninha". Mas eu queria mais. Precisava de mais. Eu queria ser o assunto entre as seguidoras da grife. Eu queria ser o centro das atenções.
Não demorou muito e a minha desproporção por bens materiais, fama, e dinheiro começaram a desfazer meu mundinho feliz!
De tanto que eu trabalhava e me esforçava para ser bem mais sucedida do que já era em meu emprego, eu cheguei a perder os melhores momentos da vida de minhas filhas. Como passe de mágica, elas já haviam crescido. Não perdi só isso, como também o amor do meu marido. Pois sempre sem tempo para minha vida amorosa fiz, mesmo sem querer, com que ele se distanciasse cada vez mais de mim. O prestígio e a vida de status social que tanto exibia ter. Que tanto corria atrás para conseguir. Que tanto eu devorava como uma gula sem fim, querendo sempre mais e mais de tudo! De coisas que muitas e muitas vezes eu nem precisava ter, ou até mesmo nem gostava, mais comprava para exibir uma vida luxuosa e feliz, se foi junto com a falência de minha conta bancária. Separada e endividada até o pescoço, nada mais eu tinha. Gastava sempre mais do que poderia. Sempre mais do que precisava. Estava perdida, hipnotizada pelo prazer de ter além do que já possuía. Todos foram se afastando. Todos foram esquecendo de mim. Até mesmo as notícias trágicas, de agora minha vida triste e solitária, de até antes de alguns tempos atrás, feliz e perfeita, não era mais o Centro das atenções. Simplesmente tudo se foi. Tudo se acabou. E eu parei para pensar: Desde quando me tornei tão materialista, tão apegada aos bens materiais, a status social e a fama? Eu teria me modificado com a morte de meus pais usando o consumismo e a gula pela minha dita "felicidade", para fugir da dor que sentia ou ocupar a falta deles com isso...?
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"Muitas pessoas só vem a gula pelo fato de comida. Apenas relacionamos o pecado da gula quando vemos alguém comendo exageradamente. Mas nós esquecemos que cometemos o pecado da gula toda vez que queremos sempre mais daquilo que já temos, ou desejamos ter sempre além daquilo que precisamos ter."
A felicidade não está no dinheiro, fama ou materialismo e sim nas simples coisas que nos motivam a viver! - Lady Lucy's
Um conto de
PepynhaSilva
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