Capítulo 7 - Outra Surpresa dos Idealizadores

Faço esforço mentalmente para entender o que está acontecendo aqui, mas é em vão. Meu corpo está travado e parece que minha mente pretende seguir o exemplo.

Será que a capital conseguiu revivê-lo de alguma forma? Não acho que alguém seria capaz disso, nem mesmo a capital com sua alta tecnologia. É claro, ele só pode ser um bestante¹ criado pelos idealizadores. Isso faria mais sentido. Ou seria uma mistura dos dois casos?

— 1,2,3... Peter vai te matar. — Ele não para de repetir vorazmente enquanto sobe.

Idealizadores filhos da puta. Isso está parecendo a musiquinha do Freddy Krueger. Eu morro de medo desse fodido.

O som do canhão disparando me tira da inércia a qual eu estava.

— Solta porra de corda. — Bufo irritado.

"1,2,3..."

Pego uma faca e começo a esfregá-la desesperadamente na corda até que ela rompa.

Olho para baixo e encontro o olhar de Peter. É mesmo o seu olhar e todas as características físicas, porém em uma versão mais sombria. Sua blusa ainda contém os rasgos tanto da minha faca quanto da lança da ruiva, porém os cortes estão fechados.

"1,2,3..."

Uso a corda como um chicote, tentando impedí-lo de subir mais alguns galhos. Ele contorna, tentando encontrar outros meios para subir e eu continuo o impedindo. Pego minha mochila e a coloco nas costas, decido deixar a lança para trás, pois n iria conseguir carregá-la juntamente com a lâmina enquanto me movimento pelos galhos. Encontro uma brecha e rapidamente estou no chão. Peter cai por cima de mim, mas meu impacto com o chão é minimizado pela mochila.

Não tenho tempo para me recuperar, pois ele rapidamente consegue se livrar de minha arma e distribuir golpes. Mesmo assim eu me defendo com os punhos e até mesmo consigo jogar sua flecha para longe. Um de seus socos acerta minha face. Com isso, sinto um pouco de dificuldade em abrir o olho. Peter, ou seja lá o que for, pega outra flecha na aljava em suas costas. A nossa luta fica mais intensa quando começamos a rolar pelo chão, roçando as costas em galhos, batendo com o ombro e a cabeça em pedras e eu quase tendo uma flecha atravessando meu corpo...

— 1,2,3... Peter vai te matar. — Parece um disco arranhado repetindo a mesma coisa, incansavelmente.

O bestante posiciona a flecha sobre minha barriga enquanto eu seguro seu braço, tentando impedí-lo de perfurar meu umbigo. Sinto meu corpo inclinar, é quando rolamos morro abaixo novamente. Seu corpo cai por cima do meu e percebo que a flecha está cravada em seu peito após sangue jorrar em cima de mim.

Novamente sinto como se meus ossos estivessem todos quebrados.

Ele se levanta e puxa o objeto de dentro do seu corpo, sem nem mesmo esboçar uma mísera reação de dor. Não sei nem mesmo como conseguiu se levantar.

— Por favor, saia daqui. Eu não quero te machucar — sibila enquanto mantém o olhar fixado em algum ponto distante.

Lágrimas surgem sem permissão em meus olhos.

— Peter? É você mesmo, meu amigo? —Encaro intensamente sua íris verde

— É alguma parte do que sobrou de mim. — Seus olhos transbordam de lágrimas também. — SAI DAQUI. — Seu grito revela um misto de raiva e medo.

Ele continua imóvel e com o olhar fixado em algum lugar.

Levanto com muita dificuldade e corro extremamente abalado, esbarrando em pedras, galhos e folhas. Conseguir manter somente um olho aberto não está ajudando muito. Acredito que a parte esquerda do meu rosto inchou, prejudicando minha visão. Já um pouco distante, giro o pescoço para trás e vejo que Peter está tendo algum tipo de colapso. Ele treme, se debate e acerta a cabeça diversas vezes na árvore. Por um momento para novamente, até que seu pescoço gira de uma forma muito rápida e sinistra em minha direção. Seus passos acelerados vêm ao meu encontro.

Como algum tipo sinistro de bicho.

— 1,2,3... Peter vai te matar. — Ouço cada vez mais alto enquanto corro desnorteado mata adentro.

Acho que consegui despistá-lo, já que não o vejo mais atrás de mim. Me escondo em uma árvore para respirar um pouco e levo um puta susto com um boom do canhão.

"1,2,3... Peter vai te matar."

Merda. Ele está por aqui.

Não consigo vê-lo em lugar algum, mas ouço sua voz. De onde está vindo esse som? Prefiro não ficar para conferir. Corro novamente ziguezagueando pelas árvores e só paro quando um campo de força impede minha passagem. Estou no limite da arena.

— Puta merda!

Agacho atrás de uma moita afim de me esconder. Não consigo vê-lo e saber que ele pode estar nesse momento apontando uma flecha em minha direção é perturbador. Tiro a mochila das costas e a posiciono como um escudo.

— Aparece seu fodido— sussurro.

O impacto de uma flecha ao ser cravada na mochila faz com que eu me desequilibre. Graças a Deus eu tive a ideia de me proteger. Olho na direção de onde o objeto veio e vejo em qual árvore o bestante estava se escondendo. Corro novamente. Não sei o que fazer, pois ele pode me atingir de longe. Não posso correr o risco, por isso preciso pensar rápido...

Após despistá-lo, me escondo entre alguns galhos sobre uma árvore. Com uma faca em mãos, espero que o bestante passe por baixo de mim para que eu possa pular nele, exatamente como havia feito comigo. Porém, agora estou preparado para acabar com ele.

Peter se aproxima, cantarolando sua canção perturbadora. Consigo visualizar seus movimentos estranhos. Parece que a todo tempo briga consigo mesmo, pois, a cada passo, balança a cabeça como se algo estivesse errado e distribui socos no próprio rosto.

"1,2,3..."

Dessa vez, não consegue terminar sua frase, pois caio sobre seu corpo, cravando uma faca em seu ombro esquerdo.

Me levanto e o observo. Pensei que estava desacordado mas abre os olhos e retira a faca do ombro sem mudar a expressão facial.

"1,2,3... Peter vai te matar."

Sua frase me assusta ainda mais. Ele parece não sentir dor. Piso em seu braço, retiro o objeto de suas mãos, ajoelho ao seu lado e o atinjo na barriga. O bestante se debate tentando me afastar e não para de cantarolar.

— Cala essa boca. Já chega...

Porém, não para.

Enlouquecido, retiro a faca de sua barriga e o esfaqueio novamente.

"1,2,3..."

Repito o movimento.

"Peter vai..."

O esfaqueio mais uma vez.

"Te matar!"

Olho em seus olhos e sua expressão continua a mesma engessada de antes. É como se eu o golpeasse com uma pena e não uma faca. E ainda não parou de cantarolar, mesmo que já não tente mais impedir meus movimentos.

Numa última tentativa, alucinado por essa cantoria, o golpeio novamente na barriga, só que com mais força.

Sua cabeça gira para o lado, agora completamente sem vida.

Ele já não cantarola mais.

Desço meu olhar e vejo seu corpo dilacerado e uma poça de sangue ao redor. Minhas mãos, meus braços e pernas estão totalmente avermelhados.

— Peter?

Ele não responde. Estou mais uma vez ao lado do corpo sem vida de meu aliado. Um ataque de pânico se instaura. Me afasto um pouco de seu corpo e me jogo no chão ao lado da poça de sangue. Começo a cuspir nas minhas mãos, esfregando uma na outra para retirar esse líquido vermelho, mas é em vão. Meu olho inchado dói mais ainda após tantas lágrimas passarem por ele.

— Me desculpe, amigo. — Esfrego sem parar as mãos na camiseta também já suja. — Me desculpe, pequena Lorelay. Seu irmão não merecia isso.

Mesmo me engasgando no próprio choro, pego minha mochila e corro.

Sem um destino certo. Apenas quero sair daqui.

Tropeço em algo e caio, mesmo assim, isso não impede minha corrida. Folhas batem em meu corpo, matos afiados roçam em minhas pernas, porém eu estou abalado demais para pensar em sentir alguma dor. Tudo que eu quero é esquecer a cena de Peter dilacerado por mim. Tudo que eu quero é sair dessa porra de arena.

Tudo o que eu quero é sobreviver.

Em um de meus tropeços, bato com a cabeça em algo e desmaio.


Uma discussão me desperta e o som parece vir de perto.

O canhão dispara.

Agacho rapidamente para me esconder e vejo três rapazes.

— Por que você fez isso, otário? — Um dos garotos empurra o outro.

— Por que eu fiz isso? — O outro revida o empurrão. — Preferia que isso aqui fosse cravado nas suas costas ao invés da dele? — Levanta a lâmina arredondada que está em suas mãos. — Ele ia nos trair.

— Eu o tinha sobre controle e você não me ouviu. — O rapaz enforca o outro com as mãos após falar.

O terceiro garoto tenta apartar a briga.

— Vocês estão malucos? Não era pra ter matado aquele merda, mas matou. Então, acabou. Vamos sair daqui.

— Eu não vou mais a lugar nenhum com vocês — diz o garoto que iniciou a discussão por não aceitar a morte do aliado. Ele puxa a lâmina arredondada das mãos do outro. O objeto está sujo de sangue. — Vocês não vão matar mais ninguém com isso aqui, somente eu vou. Saiam daqui antes que eu comece por vocês.

— Você é um babaca, Jonas — aponta o dedo na cara do companheiro ao falar.

O tal Jonas, usa a lâmina ensanguentada para arrancar o dedo do rapaz.

— Você nunca mais vai apontar esse dedo imundo pra ninguém.

— Que isso, cara? Ficou maluco? — diz o terceiro integrante completamente assustado.

— Sai daqui antes que eu arranque seu dedo também.

Ele até tenta ajudar o outro rapaz que está agonizando no chão, porém Jonas o impede. Por fim, o garoto corre, abandonando o aliado.

Não satisfeito somente em arrancar gritos do tributo por ter arrancado seu dedo, Jonas o tortura mais. Não consigo ver o que está acontecendo, pois tem muito mato em meu campo de visão.

Eu ponho a mão na boca com medo de soltar involuntariamente algum grunhido de nervoso ao ouvir os gritos.

Quando um silêncio estranho toma conta do lugar, percebo que acabou e o canhão dispara.

Jonas, aparentemente sem remorso algum, se afasta do tributo morto e caminha em minha direção.

Não posso ser visto por ele. Me agacho um pouco mais atrás da moita. Minha mochila está ao meu lado e eu me encolho cada vez mais em meio a esse verde.

Mas, e se eu tentasse alguma coisa? É melhor eu me arriscar para eliminá-lo ou continuar escondido e deixar com que alguém acabe com ele? Contudo, ele poderia me ver, ou ser o último tributo o qual eu teria que enfrentar. Ele parece ser bastante durão e louco. Tê-lo como um último oponente não seria nada legal, então é melhor acabar logo com isso.

Socorro! Não sei o que fazer.

O rapaz está se aproximando. Posso surpreendê-lo ao sair da moita, pulando em suas costas. Atacar alguém pelas costas não é legal, porém o que ele fez com o outro garoto é muito pior. Mesmo que não tenha aceitado que mataram seu aliado, se vingar arrancando um dedo e torturando de alguma outra forma é muito pesado. Infelizmente, qualquer mínima vantagem que temos deve ser aproveitada.

Espero que eu não tenha o mesmo resultado que o índio teve quando nos atacou.

O bestante de Peter e sua musiquinha invadem minha mente.

1,2,3... — conto mentalmente.

Jonas passa por mim e eu pulo em suas costas com a lâmina do ruivo em mãos.

Minha arma afunda em seu dorso. Ele cai de cara no chão, gemendo de dor.

— Quem é você? — Sua voz quase não sai, mas eu entendo sua pergunta.

— Desculpa ter te atacado pelas costas, cara, só que eu não aguento mais isso aqui. Quero acabar logo com isso.

Ele me olha e suplica pra que eu acabe com a sua dor.

— Você tem sorte que eu não sou tão sádico quanto você. Eu deveria te deixar sofrer pelo que você fez com aquele tributo.

— Por fav... Eu. Eu implo...

Retiro a lâmina de suas costas, ele vira o corpo, ficando de barriga pra cima. Vejo o corte de meu golpe em seu ombro, pois a lâmina o atravessou. Após mais uma súplica, o acerto no peito.

O canhão dispara.

— Meu Deus, como eu odeio ter que fazer isso.

Realmente eu odeio ser uma peça nesse jogo fodido da capital. Confesso que, para acertar Jonas pela segunda vez e ter certeza de que ele está morto, eu quase travei. Mas na adrenalina do momento, consegui finalizar esse segundo movimento. Porém, matar não está no meu sangue como muitos voluntários dos distritos um e dois. Muito pelo contrário, eu repudio isso. O problema é: o que seria de mim se eu não matasse? Infelizmente eu tenho que esquecer quem eu sou e me transformar em uma outra pessoa e pensar isso é horrível. Até porque aqui é matar ou morrer. Não há uma terceira opção.

Me aproximo do garoto morto por Jonas e me arrependo amargamente. Vomito todas as bananas que comi ao ver uma fenda no corpo do rapaz. Do peito ao umbigo foi feito um buraco e todos os seus órgãos estão à mostra. Sem mais substâncias em meu estômago para serem liberadas, sangue começa a sair no meu vômito.

Queria saber por que pessoas como Jonas e os ruivos são assim. O que passa na cabeça delas para fazer algo tão cruel? E pior, o que se passa na cabeça das milhões de pessoas que assistem algo tão cruel?

Essa Capital...

— Eu odeio vocês, seus fodidos — digo após conseguir me recompor um pouco.

Limpo minha arma, mas ao ver a arma de Jonas de perto, mudo de ideia. É super afiada e fácil de manipular; bem melhor que a minha. Mesmo assim, por garantia, ainda tenho uma faca e uma lâmina do ruivo na mochila, fora a minúscula faca no tênis. Colho umas maçãs e encontro um riacho. Uso a garrafa de água para me lavar, pois não quero entrar novamente na água depois de ser atacado por aquele tentáculo cabeludo. Encho as duas garrafas e subo em uma árvore.

Os rostos dos tributos mortos aparecem no céu. De acordo com minhas contas, só restam três, incluindo a mim. Não consigo acreditar que eu sou um dos finalistas. Eu nunca poderia imaginar isso.

Nunca.

Eu cheguei aqui com o único pensamento de sobreviver e eu estou bastante perto de conseguir.

O que vai ser a partir de agora?

Imagino as entrevistas maçantes que minha mãe e meus amigos estão tendo que fazer desde que eu fiquei entre os dez primeiros sobreviventes. E agora que sou um dos finalistas, eles já devem estar na capital. Todos os canais do país transmitem um pouco dos Jogos, fora o canal destinado só para ele nesses dias. E, como de costume, família e amigos dos últimos tributos vivos participam dessa programação. Muita das vezes, recebem ao vivo a notícia de que seu participante foi morto e isso é ótimo para a audiência.

Todos adoram um coitadinho. Um sofrimento e um drama são infalíveis.

Ouço um barulhinho como se alguma coisa estivesse apitando. Olho para cima e vejo um miniparaquedas vindo em minha direção. Ele pousa num galho ao meu lado. Em seu interior estão os mesmos medicamentos e pomadas da outra vez e um potinho com um tipo de sopa.

Eu acho que estão gostando de serem chamados de fodidos!

Começo a tomar a sopa.

— Nossa, isso está muito bom.

É apenas um caldo, mas é o melhor caldo que eu já tomei na vida. Quando acabo, tomo o medicamento e uso a pomada. Ótimo, já não sinto mais todas as partes doloridas do meu corpo.

Que puta alívio!

— Muito obrigado! Era o que eu estava precisando para encarar a final.

"Seus fodidos... " Penso soltando um sorrisinho.

Agora, preciso formular estratégias sobre o que farei. O jogo está acabando. Só resta o garoto que fugiu de Jonas, um outro tributo que não sei quem é, e eu.

Preciso estar atento por que tenho certeza de que os idealizadores farão alguma coisa. Já que estamos no grand finale!

Tudo o que eu espero é que não tenha mais nenhum bestante!

— Atenção tributos, atenção... — fico preocupado ao ouvir a voz do idealizador chefe.

Fecho os olhos e espero aflito o seu pronunciamento.

Glossário

¹(Bestante) - Criaturas criadas ou modificadas geneticamente pela capital afim de matar. São usadas nas arenas, principalmente em Massacres Quaternários e também foram usados contra os rebeldes na revolução.

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