Capítulo 3 - Ameaças

Esse é o primeiro ataque que sofremos. Não estou considerando a primeira vez que Peter e eu nos encontramos porque foi um puta desentendimento. Pelo menos ele diz que foi e eu tento me convencer de que é verdade! Sim, eu ainda desconfio dele.

Estávamos caminhando silenciosamente. Eu sou um pouco paranoico, confesso. Também, depois de assistir a dezessete edições, eu já vi gente morrendo das formas mais improváveis. Por isso fico alerta até mesmo a um simples e silencioso voo de uma mosca! Ainda mais considerando que nos Massacres Quaternários geralmente o que mata a maior parte dos tributos é a própria arena e não tributos em si. Está aí a erupção vulcânica, a avalanche e a inundação do lago que não me deixam mentir. Enfim, estávamos caminhando quando um filho da puta saiu de trás de uma árvore do nada e pulou nas costas de Peter.

O cara tinha apenas uma flecha na mão. E aí eu pergunto: o que se passa na cabeça de uma pessoa que com apenas uma flecha ataca dois tributos que possuem facas? Queria morrer mesmo, só pode! Peter, por puro reflexo, segura a mão do cara antes de ter uma flecha enfiada em seu pescoço e a joga longe, mas não conseguiu sustentar o peso do corpo sobre si e caiu. Os dois rolam no chão, até que meu aliado acerta um chute no adversário, fazendo com que o rapaz caia para o lado.

O índio — apelido que demos a ele — se levanta e fica entre nós dois. Percebo um roxo ao redor de seu olho esquerdo, sendo assim, acredito que não somos o primeiro que ele arruma confusão. O cara é forte, deve ter um metro e oitenta mais ou menos e por isso se garante sozinho. Devo admitir que seu ataque foi quase perfeito. Se não estivéssemos alertas o suficiente, meu aliado teria uma flecha entre a cabeça e o corpo. Peter pula no índio e perde sua faca depois de um golpe ter acertado seu braço, contudo, consegue imobilizar o oponente. É quando dou uma facada certeira na lateral de seu pescoço, fazendo seu sangue jorrar e o canhão disparar, anunciando sua morte.

Pego uma folha para limpar meu rosto e a faca, retirando todo o sangue respingado.

— Nossa, cara, eu tô com medo de você!

— Por quê? — Rio pelo seu tom de voz descontraído.

— Tá limpando o sangue da faca com a maior cara de psicopata.

Ele gargalha e eu também.

— Melhor eu estar limpando essa faca do que ele limpando a flecha suja com nosso sangue!

— É verdade. — Suspira alto. — Bem vindo aos Jogos Vorazes... —Para de falar propositalmente para que eu complete.

— E que a sorte esteja sempre ao seu favor!

Nossa caminhada não é tão cansativa, já que estamos em uma descida. Só paramos uma vez para "regar uma árvore". Estamos tentando racionar a água ao máximo, porém é um pouco complicado, pois o clima aqui é extremamente quente. Espero que no setor da mata não seja assim. Acabei de beber o último gole de uma das garrafas. Ainda tem outra cheia que deve durar pelo menos mais um dia.

Depois do ataque do índio não esbarramos com mais ninguém. O canhão até agora não sinalizou a morte de nenhum outro tributo e isso é preocupante. Quanto mais gente morrer, melhor. É sinistro pensar isso, mas é a realidade.

Estava tudo tranquilo até que mais um tremor de terra nos deixa alerta:

Puta que pariu, esse vulcão vai entrar em erupção de novo? Eles não estão economizando lava porque faz apenas algumas horas que aconteceu a primeira. Chegamos na arena pelo fim da tarde e não muito tempo depois aconteceram os "ataques": erupção, avalanche e inundação. E, agora, deve fazer apenas uma hora que amanheceu e o vulcão já está ativo de novo.

Corremos sem pensar duas vezes. Como na primeira vez, a montanha começa a cuspir lava. A diferença é que dessa vez estamos muito longe do buraco do vulcão e por isso estamos na mira das bolas de fogo que são arremessadas a certa distância.

Idealizadores desgraçados.

Uma das bolas de fogo vem em nossa direção. Me jogo para a direita e Peter para a esquerda fazendo com que apenas o chão sinta o impacto da chama que cai entre nós. Parece até cena de filme com os personagens se jogando ao chão em câmera lenta. A única diferença é que não tem um colchão ou qualquer outra coisa confortável para nos amparar e também não caímos em câmera lenta. Dou de cara com um montinho de folhas e rolo em seguida morro a baixo.

Eu já vi cenas de pessoas rolando em uma descida, só não sabia que doía tanto. A cada giro e batida, tenho a sensação de que meus ossos estão se partindo.

Há um disparo do canhão. Desesperado, me certifico de que Peter está bem.

Estou com os cotovelos e joelhos todos ralados e ele tem praticamente os mesmos ferimentos. Essa merda de roupa é tão fina que ao invés de nos proteger, rasgou, permitindo os ferimentos em nossa pele ao ter contato com o chão em alta velocidade. Contudo, não temos tempo para conferir se mais alguma parte do corpo está danificada. Continuamos nossa correria mata a baixo se esquivando das possíveis mortes que caem do céu.

Por sorte... Pera aí, eu pensei sorte? Fiquei com medo agora porque se tem uma coisa que não existe em minha vida, é sorte. Bom, por eventualidade do destino encontramos uma caverna. Uma parte do meu cérebro alerta que é arriscado entrar. Contudo, ignoro, pois é o local possivelmente mais seguro agora. Pelo menos é seguro em relação a erupção vulcânica. Só fico receoso por conta do tremor de terra; não quero morrer esmagado. Mesmo assim, ignoro.

Entramos na caverna com atenção redobrada. Nossas facas estão em posição de ataque nos nossos punhos.

Levo um susto com um novo disparo do canhão.

Imagino como ficará a floresta após essa nova erupção vulcânica. Será que sobrará alguma árvore intacta?

— Parece que estamos sozinhos — diz meu aliado prestes a sentar em uma rocha.

— Espera aí — sussurro e aponto para o canto do local depois de ver uma sombra. — Ei você aí. Pode aparecer.

O garoto sai de trás de uma parede de rochas com uma grande foice na mão. Sua pele morena contém alguns ferimentos e percebo que há um corte na lateral de seu crânio também. Consigo ver, pois é quase careca.

Engulo a seco. É como se estivesse escrito no objeto: eu vou matar vocês.

— Calma aí. Não queremos problemas. — Peter começa a interceder.

— Eu também não quero... — Sua voz é seca. Completamente ameaçadora. — É melhor vocês irem.

Ele direciona o objeto à saída da caverna.

— Tá maluco, cara? A gente não pode sair. Tem uma puta erupção vulcânica rolando lá fora. Lava pra tudo que é lado.

Porra, acho que eu poderia ter falado de uma maneira mais mansa. Ou melhor, tem essa de ser manso não... Se ele se mover em nossa direção eu arremesso uma de minhas facas nele.

— Vocês escolhem: a lava ou eu.

Filho da puta.

Acho que Peter percebe que eu me alterei por que move as mãos em minha direção como se dissesse "calma".

Calma é uma ova!

Enquanto estamos aqui na caverna, ouço os barulhos dos ataques da arena nos outros setores. O canhão soa mais uma vez. Só não sei em qual ataque que o tributo morreu — na avalanche ou na inundação — se é que foi em um desses ataques.

— Você tá achando que só porque tá fantasiado de morte com essa merda de foice na mão, vai me botar medo, seu fodido? — Puxo outra faca da mochila. — Vai se foder! A gente não vai sair daqui não.

— Você tá maluco, Tito? — Peter diz já em posição defensiva. — Você quer matar a gente.

— Então vocês querem brincar?

Como alguém tão novo e baixinho igual esse cara pode soar tão ameaçador? Deve ter uns quatorze anos no máximo e não deve passar da altura do meu ombro, mas suas olheiras e arma fazem dele um oponente terrível. Mesmo contra nós dois.

Ele perguntou sou queremos brincar... Isso me fez lembrar da infância. Meus amigos e eu fazíamos o quarteirão onde morávamos de arena. Nossas armas eram cabos de vassouras, frutinhas que encontrávamos na floresta unidas a estilingues, tocos de madeiras... Mas, é claro, tínhamos cuidado para não nos machucar de verdade.

Um de meus amigos usou essas nossas brincadeiras para me motivar quando veio se despedir depois da colheita. Disse que eu era experiente com os jogos e que já passei coisa muito pior, fazendo menção a períodos difíceis como fome por exemplo. E sobre ter experiência, somente em brincadeiras... Agora eu estou em uma arena de verdade e, pior, tenho um competidor de verdade.

Fodeu. Ele vai vir com tudo para cima da gente e vai arrancar nossas cabeças.

— Posição de ataque, parceiro.

Peter capita minha mensagem, porém antes de fazer o que eu disse, se aproxima e sussurra em meu ouvido:

— Eu só não me borro todo porque não como nada faz tempo! — Tento não rir de seu comentário.

Nos afastamos de maneira que o "foiceiro" terá que estar de costas para um de nós enquanto ataca o outro. E é essa a deixa para atacarmos. Infelizmente um vai servir de isca.

Esse cara é sinistro. Parece que não se abala, nos encarando de maneira provocadora. Seus olhos escuros, com olheiras profundas, o deixa ainda mais sombrio. Quando vira um pouco mais na direção de Peter, eu arremesso uma faca. Ele é mesmo bom, pois seu reflexo é rápido. A foice intercepta minha faca antes que se aproxime do meu alvo.

Trinco os dentes.

Peter não tenta arremessar sua faca, afinal ele só possui uma. Esqueci de entregar outra a ele.

Que burro!

— Então você quer ser o primeiro — diz me encarando.

Semicerro os olhos. Ele faz um movimento circular com sua arma, me atacando pela esquerda. Eu consigo pular para trás, esquivando o corpo. Sinto apenas um ventinho mórbido quando a foice passa cortando o ar a minha frente. Peter tenta ataca-lo por trás, porém o inimigo é mais rápido. Meu aliado para no chão e quando a foice é direcionada a seu corpo caído eu arremesso outra faca. Dessa vez a lâmina passa rasgando o braço esquerdo de nosso oponente. É o suficiente para evitar seu ataque.

Peter levanta e pega no chão uma faca que eu havia arremessado. Eu pego a outra que estava caída mais próxima e mais uma na mochila. Agora cada um de nós possui duas armas.

O foiceiro dá um giro trezentos e sessenta graus, fazendo com que sua arma impeça qualquer um de se aproximar. Seu próximo movimento é um golpe de cima para baixo em mim. Vejo sua arma vindo na direção de minha cabeça. Dou um pulo para o lado, deixando o objeto bater no chão. Rapidamente seguro sua foice, antes que ele levante a mesma. Peter aproveita para lançar um chute por trás de nosso adversário, fazendo com que tombe para trás depois de flexionar os joelhos e que solte a arma ao cair.

Chuto o objeto para longe de seu dono e sento sobre seu peito com Peter imobilizando os braços acima da cabeça do mesmo. Seguro minha faca em seu pescoço.

— Presta atenção, cara. Eu já matei um hoje e não tenho espírito de assassino. Não faço isso por prazer... — Aperto a faca quase o cortando. — Eu realmente não quero mais uma morte no meu histórico, pelo menos não hoje. E não tô nem aí para esses fodidos da capital que se divertem nos vendo morrer.

— Eu reconheço uma derrota — balbucia ele.

— Ótimo! Você é forte. Não quer se aliar a nós?

— Eu não vou me aliar a vocês seus bostas!

Ele cospe em meu rosto, fazendo meu sangue ferver.

— Mata logo esse cara, Tito — meu aliado se irrita pela primeira vez.

— Eu realmente não queria te matar, porra!

— Por que não faz isso logo, seu inútil? Eu já teria te matado há muito tempo — o inimigo insiste em me afrontar.

Dessa vez eu devo apertar a lâmina e fazer sua veia romper.

— Espera, Tito. — Peter segura minhas mãos. — Não precisa carregar mais uma morte na consciência.

Antes que eu antecipe seu movimento, ele me empurra e crava sua faca no peito do foiceiro.

Agora, não é mais um oponente; já está morto. Peter limpa a faca na roupa do cadáver enquanto o canhão dispara. Meu aliado quis me ajudar a lidar melhor com tudo isso. Percebeu que eu estava tentando contornar aquela situação sem precisar sujar minhas mãos de sangue. E ele sujou. Ele sujou no meu lugar. Um aliado que teve atitude de um amigo. Posso estar cavando minha própria cova, mas, talvez eu confie um pouco mais nele depois dessa atitude.

Iaí, tributos!

Tito e Peter conseguiram se livrar de alguns oponentes. Até que estão jogando bem, não é?

Acham que Tito está certo em confiar em Peter?

Me digam aí o que estão achando...

Até o próximo capítulo!

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