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Na manhã seguinte, chan tentou agir o mais normal possível.
Assim que ambos despertaram, seguiram em silêncio até a cozinha da residência, onde chris preparou um café para changbin. Pelo pouco que conviveu com o seo, sabia que ele adorava café, principalmente com torradas pela manhã, no entanto, seus armários estavam praticamente vazios, então se contentaram com um café instantâneo e alguns pães amanhecidos, indispostos o suficiente para não sair de casa e ir na padaria mais próxima comprar algo mais reforçado para acompanhá-lo no café da manhã.
A dupla não trocou muitas palavras ao decorrer do desjejum, ao contrário disso, se mantiveram em silêncio até changbin rir baixinho do desastre iminente que era o bang. Enquanto degustava do seu próprio café, se pegou observando o seo discretamente, notando como suas mãos eram bonitas e um pouco calejadas pelo manejo das baquetas, ou como seu rosto ainda inchado pelo sono era adorável. Tudo parecia mais consciente agora que aquele pensamento — muitíssimo — indesejado permanecia na sua mente. Beijar changbin estava o assombrando, como um fantasminha sem vergonha que adorava tirar sua paz. Por isso, enquanto ainda se maravilha com a bela imagem do baterista à deriva, deixou a caneca de café escorregar por meio segundo da boca, por pouco não queimando sua pele pela água do café estar praticamente fria, por escolha própria.
Changbin riu descaradamente da sua falta de atenção, o barulho nem um pouco sutil da sua risada inundando a residência, preenchendo aquela lacuna vazia que sempre estava presente pela manhã. Mesmo que quisesse ficar bravo e xingar o menor, não conseguiu levar tudo muito a sério, mesmo que aquela camiseta fosse sua preferida e estivesse agora manchada de café.
— ri mesmo, tomara que aconteça o mesmo com você. — chan disse fingindo indignação, embora fosse tudo uma ótima atuação.
— deixa de ser chorão, cabeça de beterraba. — o provocou mostrando a língua, como uma criança birrenta.
Chan revirou os olhos, as mãos indo até o começo da camiseta e a puxando para cima, se livrando da sensação melequenta da camisa suja de café grudando na sua barriga. Por mero costume da sua própria companhia, voltou a se sentar ao lado de changbin na ilha da cozinha e permaneceu tomando o café com pão amanhecido, ignorando o fato que estava sem camisa na frente do seo. Mas não durou nem dez segundos, pois um friozinho passou raspando nos pelinhos dourados que faziam um caminho do seu umbigo até sua intimidade, o obrigando a se encolher e notar o azulado ao seu lado com as orelhas tão vermelhas e a xícara de café que ele segurava quase tremendo. De frio, talvez.
— eu vou colocar uma camisa. — avisou, mesmo que não fosse necessário.
Chan praticamente correu até o andar de cima, vestindo a primeira roupa que apareceu no seu campo de visão. O coração martelava no peito como se tivesse acabado de sair de um sonho, daqueles que você acha que está pelado numa praça e acorda achando que foi real. Era desse jeito que ele se sentia. Ficou cerca de vinte segundos encostado na parede, metade da camiseta presa na cabeça e uma vergonha assombrosa tomando conta da sua dignidade. Queria entrar no armário e ficar lá até a próxima lua cheia, mas precisava descer e mostrar que levou a situação atual com leveza, igual uma pessoa equilibrada. Mas chan não era alguém equilibrado e ele realmente quis se trancar no armário, de novo.
Quando desceu, changbin ainda estava comendo em silêncio, e quando o bang pisou na cerâmica bonita da cozinha, ele o olhou de relance e aparentou suspirar, talvez aliviado ou algo parecido. Chan caminhou de volta até o banquinho e bebeu todo conteúdo da caneca num gole só, dessa vez o café estava frio, tão frio que o gosto amargo permaneceu na sua goela.
— vamos ensaiar hoje? — o azulado indagou, ainda sem coragem de olhá-lo. Chan não estava tão diferente, sentia uma mínima vontade de falecer toda vez que olhava pro seo, mas isso não tinha nada a ver com o incidente do café de agora a pouco, fita-lo era como lembrar da noite anterior e isso trazia aquele pensamento importuno de como seria ter a boca dele na sua.
— sim, nossa apresentação é amanhã, é melhor a gente ensaiar enquanto há tempo. — ele levou as duas xícaras de café a pia, as deixando lá até ter coragem de lava-las. — você quer tomar um banho? Posso te emprestar minhas roupas enquanto as suas ainda estão lavando.
— pode ser. — changbin ficou de pé, o pijama de christopher pendendo nas bordas do seu corpo. — quer tomar banho comigo? — o olhou da saída da cozinha, um sorrisinho ladino e zombeteiro desprendendo da sua boca.
— o que!? — chan tropeçou nos próprios pés enquanto caminhava até o azulado, a fim de mostrá-lo onde fica as toalhas.
— é brincadeira, homem. Calma. — o ajudou a ficar de pé, as mãos pequenas e habilidosas o segurando pelos ombros. — você tá muito em choque hoje. O que tá rolando?
— como assim? — fingiu de desentendido, incapaz de raciocinar bem pelo quão perto o baixinho estava.
— sei lá, você parece estranho. Tipo, você é estranho, isso é inegável, mas agora é diferente. É por que a gente dormiu junto? Você tá desconfortável comigo?
— não, não, isso não tem nada a ver. — balançou as mãos a fim de confirmar sua fala, confuso pela conclusão que o azulado chegou. — eu só não funciono bem de manhã, só isso. Não tem nada a ver com a gente ter dividido a "cama" no porão, tá? Não pensa muito nisso.
Embora desconfiado, o baterista assentiu, o acompanhando até o andar de cima, onde christopher entregou a ele uma nova muda de roupas e uma toalha limpa, deixando que ele pegasse o caminho até o banheiro.
Sentado sozinho no próprio quarto que raramente usava, o ruivo quis deitar e esquecer toda a confusão que sua mente decidiu formar desde a noite anterior. E decidido a esquecer isso de uma vez, ligou para os meninos a fim de marcar o horário do ensaio naquela tarde.
(...)
Quando deu as exatas três da tarde, todos os meninos — com exceção de seungmin — já tinham chegado à residência do bang, embora a hora certa que ele tinha passado fosse uma e meia, depois do almoço e quando minho estivesse livre do emprego de meio período que tinha pego toda sexta e sábado de manhã.
Eles arrumaram a bagunça no porão e ajustaram os instrumentos com aquela mesma barulheira de costume. Do seu canto, chan observou changbin conversando com jeongin, ele usava uma das suas bermudas pretas e uma regata da mesma forma, os braços malhados muito bem à mostra e os fios despenteados pela preguiça de enxugar com o secador que o ruivo possuía no banheiro. Queria saber que tatuagem ele escondia nas costas, parecia que era interligada com a clavícula, talvez fosse um pássaro ou algo semelhante, mas não conseguia dizer ao certo, a camiseta escondia boa parte da figura, que parecia minúscula e colorida. Era até um pouco semelhante a de liam pela escolhas de cores.
— você tá quase engolindo o azulão de tanto olhar. — minho, que tinha se aproximado sem o outro notar, declarou rente a seu ouvido direito, assustando o australiano que estava à deriva em pensamentos.
— vai cuidar da sua vida. — empurrou o rosto do loiro, embora fosse irrelevante. Logo, minho tinha voltado e jogado seu peso em cima do bang ao passar o braço por seu ombro, olhando na mesma direção que o mais velho.
— ele até que é bonitinho. — comentou de repente, olhando para changbin com um sorriso de lado. — bonitinho não, ele é gatão. Se eu não tivesse quase namorando com o seungmin, daria meu número pra ele.
— você já tem um, se contente com ele. — empurrou novamente o lee para longe. — e que história é essa que você tá quase namorando o seungmin? — chan pegou o baixo e se sentou nas almofadas grandes a fim de testar o som.
Minho ocupou o chão, encostando na parede enquanto acendia e apagava o isqueiro que carregava no bolso do shorts. Ele não fumava, mas continha aquilo como uma figura de conforto, sua mãe o deu antes de partir para o interior, a fim de cuidar dos avós do lee. Minho via como uma relíquia de família, afinal o isqueiro era prateado e custou um bom dinheiro na época em que seu pai comprou. Todos da família do loiro fumavam, era uma tradição passar o isqueiro adiante seguindo pela linhagem. Entretanto, minho não fumava e apenas guardava como lembrança dos pais.
— você sabe que a gente faz o mesmo curso, né? — o bang assentiu. — então, temos algumas aulas juntos e ele foi meu colega em um seminário, a gente começou a conversar nesse dia, mas não era nada muito significativo. Depois que o changbin entrou pra banda é que a gente se aproximou mesmo. Ele disse que gostava de mim depois do dia em que o felix apareceu todo fodido aqui e a gente tinha combinado de ver um filme. Desde então nós estamos ficando, nada sério por enquanto porque ele ainda não se sente seguro pra assumir um relacionamento agora.
— é a primeira vez que ele fica com um cara?
— é a primeira vez que ele quer levar um relacionamento a sério depois do último namoro, porque o rolo antigo dele foi uma porcaria. Coisa de envolver gente abusiva e tudo mais, meu doguinho ficou todo traumatizado, o bichinho. Mas a gente tá indo devagar, estamos nos conhecendo e eu prefiro que seja assim, não faz eu me sentir tão sobrecarregado. Você sabe como eu sou com relacionamentos, sempre acabo estragando tudo por conta de ir rápido demais, e o seungmin é alguém que eu quero manter por perto por um longo tempo. Ele é especial pra mim, entende? — olhou para chan, as íris dilatadas e um sorriso discreto.
— entendo, min. — disse com um sorriso pequeno. — espero que dê tudo certo entre vocês dois. Tô torcendo por isso.
— obrigado, hyung.
Assim que chan terminou de verificar o baixo, ele deu início ao ensaio, que durou cerca de uma hora e meia, e talvez tivesse durado mais se felix não tivesse arranjado uma festa pra ir e precisasse sair mais cedo. Quando entardeceu, o rosado os deixou e avisou que estaria cem por cento sóbrio na noite seguinte, mesmo que chan duvidasse da capacidade do seu companheiro de nacionalidade de se manter longe das bebidas numa festa.
Mesmo com um integrante da banda faltando, eles puderam ensaiar por mais alguns minutos por conta de jeongin, o platinado assumiu o teclado e os ajudou nas partes em que changbin não acertava na hora certa ou nos momentos em que jisung esquecia a letra. Às nove horas em ponto, os meninos ainda estavam na residência do bang por vontade própria, incapazes de sair por pura preguiça. No entanto, havia um certo baterista que já tinha reposto suas roupas da noite anterior e arrumado a mochila para ir embora, e chan quase não conseguiu vê-lo escapar por estar ocupado demais numa discussão boba com o han sobre gemas dupla em ovos serem pintinhos gêmeos que não foram fecundados.
— ei, gatinho. — conseguiu alcançá-lo na metade do caminho que levava até a saída do condomínio. — você nem se despediu.
— você parecia ocupado.
— pra você eu nunca tô ocupado. — piscou para ele de maneira brincalhona, porém changbin não riu ou esboçou uma cara de desgosto, ao contrário, ele parecia até um pouco chateado. O que deixou chan preocupado. — aconteceu algo? — se aproximou dele, porém mantendo uma distância segura para não deixá-lo desconfortável.
— não é nada. — ele sibilou, suspirando em seguida enquanto olhava para os sapatos. — eu só… acho que tô pensando demais.
— pensando no que? — indagou novamente, aflito com a situação do menor. — pode falar comigo, marrentinho. Sou seu amigo.
Changbin o olhou desta vez mirando em suas íris, o deixando até um pouco desconcertado. Ele vagou por todo seu rosto, e no fim, apenas suspirou de novo, seu semblante aparentando mais chateação. Chan queria entendê-lo, notou toda essa barreira desde de manhã, quando o azulado indagou se ele estava se sentindo desconfortável consigo, embora não fosse nada disso. Chan não tinha motivos para se sentir assim, não foi uma situação embaraçosa dormir nos mesmos travesseiros que o menino, longe disso, tinha sido ótimo acordar e ver changbin encolhidinho do seu lado, agarrado a seu bíceps igual dormia com aquela pelúcia estranha de polvo que ele tanto amava. Contudo, parecia que esse assunto estava deixando o baterista perturbado, e chan queria entender a raiz do problema, para tentar ajudá-lo.
— gatinho, me escuta. — dessa vez, em um ato de coragem e audácia, invadiu o espaço do menor, se aproximando até que eles estivessem a palmas de distância. — você não precisa me dizer agora o que tá acontecendo, mas eu vou tá aqui até você estiver pronto, okay? Não quero te forçar a nada, mas sou seu amigo, mesmo que você não me considere assim também. E não tem problema, leve o tempo que precisar até me ver assim. Mas eu quero te ouvir quando você sentir que quer falar comigo sobre o que tá te deixando assim.
Eles ficaram em silêncio por breves momentos, talvez mais do que segundos, e no final, o azulado apenas manuseio a cabeça num aceno e ajeitou a alça da mochila no ombro, pronto para partir. Chan decidiu não tocar mais no assunto, vendo que apenas tornaria a situação ainda mais aborrecente para o seo.
— não quer uma carona? — chris indagou, incapaz de deixar o menino ir embora sozinho à noite.
— pedi pro minho ligar pro seungmin vir me buscar. — ele dissertou, a voz calma e um pouco distante.
— e amanhã, quer carona até o bar da nossa apresentação? Vou buscar o jeongin, posso passar na sua casa antes.
— valeu ruivo, mas vou de carro com o seungmin. Pede pro minho passar o endereço que eu encontro vocês lá.
Chan assentiu, sem ter mais nada para dizer. Sentia que apenas queria adiar a ida do azulado, a presença dele se tornou cada vez mais indispensável no seu dia a dia, por mais breve que fosse o tempo em que eles tenham virado colegas de banda e possivelmente amigos. Changbin deu as costas e percorreu o percurso até os portões de entrada, indo embora sem nem olhar para trás, deixando chan para trás, imóvel no mesmo lugar, sem ter coragem de girar os calcanhares e pegar o caminho de volta. Queria que o outro voltasse e dissesse o que tanto o incomodava, mas não forçaria, sentia que já estava sendo invasivo o suficiente com aquele sentimento insistente em seu peito que tanto latejava seu coração.
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