My side
Jung HoSeok batucou a ponta da caneta devagar no papel sem saber direito o que fazer. Se sentia frustrado com o bloqueio criativo: não conseguia escrever, não conseguia dançar, até mesmo suas receitas ficavam medíocres se tentasse cozinhar alguma coisa. O estresse que estava sendo submetido nos últimos dias fizeram com que o dançarino estagnasse frente a um abismo terrível do nada criativo. Trancafiado pela sua própria mente, incapaz de riscar qualquer tarefa da lista que encarava desde cedo. Perdido e insuficiente, essas eram coisas que HoSeok não deveria ter inseguranças mais, uma vez que já era dançarino há muito tempo, mas ali estava ele, se questionando. Questionando suas habilidades. Seria capaz de continuar nos palcos daquela forma, e continuar construindo sua carreira em ascensão? Suspirou fundo, se debruçando sobre a mesa e afundando o rosto entre os braços.
— Ei. Você vai acabar colapsando assim. – A voz tão conhecida fez o Jung erguer os olhos para a silhueta que chegara silenciosa na sala de prática.
Park Jimin.
Mais conhecido, também, como o melhor amigo.
— Não consigo fazer nada. Me sinto parado no tempo e incapaz de aprender uma coreografia nova. – Resmungou, recebendo um aceno em compreensão. Jimin também já havia dançado, antes. Resolveu parar por conta da faculdade e do trabalho que lhe tomavam todo o tempo livre, mas HoSeok sabia que o Park teria sucesso em qualquer coisa que escolhesse para o futuro.
Dizia-lhe que ele seria um grande estilista.
E HoSeok, como o bom melhor amigo convencido que era, sempre dizia também que só usaria as roupas desenhadas por ele quando fosse um grande artista.
Agora, agora não. Agora, Jimin ainda era um estudante de moda, e HoSeok ainda era um dançarino frustrado.
— Deveria parar um pouco. Quer comer? – Talvez o Jung agora passasse a chamar o melhor amigo de "salvador da pátria", quando ele estendeu a mão que carregava até agora uma sacola com a logomarca de um restaurante que eles gostavam.
Se sentaram no canto da sala de prática, e HoSeok não queria olhar as horas na tela do celular, porque desceria os olhos automaticamente para a data, e não estava planejando ficar mais ansioso ainda. Quatro de março. Desviou o olhar para o Park, que comia, sereno, divagando nas próprias redes sociais sem prestar muita atenção.
Até ali, já faziam cinco anos que eles se conheciam. Jimin era mais velho por pouco mais de quatro anos, e agora que HoSeok estava na casa dos vinte, ele se pegava frequentemente pensando em todo esse tempo. E em cada um desses pensamentos, um mínimo pedido de desculpas mental pelo seu jeito estranho de lidar com o mundo. O modo como abandonava tudo sem nenhum planejamento e quase nunca levava algo até o final era um bom exemplo disso, mas esperava que Jimin entendesse que era porque sua mente vivia num constante turbilhão de pensamentos, planos e alternativas que ele não conseguia conciliar. A única coisa que permanecera firme e ancorada durante toda a sua vida era a vontade de estar no palco. De ser profissional. De ser reconhecido. E HoSeok não ligava nenhum pouco se esse desejo tornava as coisas instáveis, se passava fome ou voltava atrás em tantas decisões. Eles mesmos nunca haviam brigado, mas HoSeok sabia que era apenas pela enorme paciência do melhor amigo, que respirava muito fundo antes de qualquer coisa.
E mesmo assim, lá estava ele, sendo o primeiro a apoiar o Jung em tudo, o encorajando a continuar em prol de realizar o seu grande sonho de ter uma plateia e poder se sustentar com a dança. Park Jimin sempre estava lá. Ele sempre dava um jeito de estar lá, até a distância.
HoSeok não acreditava muito nesses papos de destino, almas gêmeas e tudo o mais, mas jurava que Jimin era o amor não-romântico da sua vida; a outra metade da sua alma que esteve faltando durante seus primeiros quinze anos.
— Por que 'tá me olhando tanto? – A pergunta risonha do mais velho o fez acordar. Sorriu de canto.
— Nada, só 'tava pensando. – Deu de ombros.
Ah, e foi Jimin quem foi seu maior pilar de sustentação. Porque era ele quem o acalmava na maioria das suas crises ansiosas ou de pânico, e ele também quem o incentivava a se levantar durante um longo período depressivo. HoSeok tinha muitos defeitos. Muitos defeitos que faziam com que ele se martirizasse noite após noite, quebrando a cabeça ao tentar pensar em alternativas que pudessem compensar a pessoa difícil que era. Em meios de consertar seus erros e se impedir de continuar falhando, porque ele tinha muito medo de perder Park Jimin.
— Pensando no que?
Um pouco mais de silêncio. Organizou as milhões de ideias na cabeça devagar para ser compreensível, no mínimo.
— Quando 'cê formar. Sabe que tu pode até não ser o melhor estilista do mundo, mas vai ser o melhor estilista pra mim, não sabe?
Jimin riu. Ele não sabia muito bem como reagir e HoSeok também não era bom se expressando verbalmente; preferia dançar. E dançar não era algo que estava dando certo no momento, então ele respirou fundo e umedeceu os lábios.
— Eu sei que eu não conquistei muita coisa ainda, né? Mas o pouco que eu tenho, eu tenho porque você 'tava lá pra mim. E quando eu for grande, Jimin, quando eu tiver um monte de coisas, tudo vai ser por você. – Ele deixou o par de hashis na beira do prato, já tinha terminado de comer, de toda forma. – Eu te devo muito mais do que parece. Eu te devo a minha vida e vou tentar consertar meus erros pra ser um bom melhor amigo. E começar a retribuir tudo que você já fez por mim.
Os olhares se cruzaram por um momento, e Jimin não respondeu. Não precisava, porque ele lhe direcionou um sorriso brilhante que aqueceu até o fundo da sua alma. Se aconchegou devagar mais pra perto do melhor amigo e encolheu as pernas, tateando os bolsos em busca dos fones de ouvido, que encaixou no celular e rodou pela tela inicial até achar a playlist. De lá, escolheu uma música e entregou o fone do lado direito. HoSeok nunca o usava, devido um dos piercings impossibilitar o encaixe.
— Música fala melhor do que eu, 'cê sabe.
O play inundou a audição com a melodia tão conhecida. Os dedos de HoSeok brincavam num dos inúmeros fiapos da calça rasgada, puxando-os um tanto inquieto. Enquanto ouviam, uma onda de amor e gratidão formou um pequeno dilúvio dentro do dançarino, subindo por todo seu âmago e enchendo até o último fio de cabelo. Ele realmente era muito grato.
— Ei. Eu amo você. Obrigado por ter paciência comigo e, sabe... Estar lá. Nesses últimos cinco anos.
— Eu te disse, não disse? – Jimin, então, puxou o mais novo num abraço lateral meio desajeitado, bagunçando seus cabelos com um riso baixo.
Ele tinha dito, de fato. E HoSeok não tinha nem palavras para responder. Park Jimin era demais e sim, o dançarino sabia disso. Ele sabia que Jimin merecia muito, e nem o mundo inteiro seria o suficiente.
— Eu sempre vou dar um jeito de estar lá.
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[07/01/2020 12:07:04] Unnie: Eu vou formar, pra ser estilista
[07/01/2020 12:07:18] Unnie: Criar roupas e marcas
[07/01/2020 12:07:29] Unnie: Montar desfiles
[07/01/2020 12:09:40] Jay: Eu vou escravizar a senhora pra fazer meus figurinos então
[07/01/2020 12:09:57] Jay: BOM DIA TOMA AQUI ESSE DINHEIRO E FAZ UMA ROUPA PRA MIM 😁✌🏻
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Ei, pabo. Que bom que chegou até aqui. Eu realmente espero poder melhorar. A gente não tem se falado tanto todos os dias, mas você continua sendo a pessoa mais importante da minha vida. A minha pessoa. A minha melhor amiga.
Estou correndo em busca de orgulhar você.
Eu te amo (de verde e roxo).
Obrigado pelos cinco anos.
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