Capítulos 22
Eu imploraria por mais noites como aquela, a graça das crianças é insubstituível, o que não faltou foi gargalhada e choro, seja porque arrumaram novos amigos engraçados ou porque acabou as batatas do prato , mas tudo terminou em alegria!
Barbara me fazia ser mais apaixonado por ela a cada dia que se passava, se era o seu jeito meigo e compreensivo, seu cheiro floral ou seus cachos hipnotizantes, eu não sei, mas só sei que valeu muito a pena sair de casa bravo naquele dia atrás de um psicólogo. E como valeu!
A noite durou mais que o esperado, Jonathan e Laura pareciam incansáveis, mas seus mais novos amigos foram embora um a um, a moleza bateu, foi uma boa noite, mas precisávamos ir embora, pois ficar correndo atrás de criança que se escondia entre as roupas, invadia a cozinha da praça de alimentação e empacava na piscina de bolinhas, não era fácil, eu e Barbara estávamos esgotados e como se não bastasse, Laurinha e Jonathan dormiram na volta pra casa. Precisei carregar o garoto no colo enquanto Barbara cuidava da minha pequenina. Foi um dia para não se esquecer mais!
***
Me perguntava porquê diabos o dia passava tão rápido! Já era fim da tarde de domingo e eu era pura ansiedade, domingo sempre fora um dia tedioso, nunca havia nada para fazer, era a velha ressaca de sábado, dia de engordar com gordurosas barras de chocolate, sorvete e filmes, no meu caso, infantis por causa de Laurinha; mas diferentemente de todos os domingos, lá estava eu diante de Laura dormindo ao meu lado e papéis espalhados ao meu redor, precisava preparar a aula do dia seguinte. Como era bom ter que preparar uma aula novamente!
Passei o restante do dia fazendo exercícios, flexão, abdominal, como se aquilo fosse resolver o meu corpo para o dia seguinte, não que eu tenha ganhado uma barriguinha extra, rosto arredondado ou algo do tipo, mas é que eu parei uma vida de atleta, para cuidar de Laura, tudo bem que cuidar de criança é tão cansativo quanto passar horas numa academia, porém, às vezes um pouco mais estressante.
- Calma, meu bem. O papai está aqui. -disse me levantando rápido para atender Laura que acordara chorando.
O meu suor fazia um caminho curto pelo meu rosto e logo caía sobre meu braço que balançava Laurinha para lá e para cá; enquanto eu estava exausto, louco para um banho e uma boa noite de sono, a pequenina estava acordando às nove da noite, me arrependi de ter a posto para dormir durante o dia no momento em que vi sua animação com a corda esticada no chão, que outrora eu usava para uma série de mais de cem pulos.
- Eu estou cansado, meu amor. Vamos brincar depois. -o depois significava o dia seguinte e ainda era um talvez.
***
Segunda-feira havia finalmente chegado, nunca vi alguém almejar tanto pela segunda, quanto eu. Acordei bem cedo para arrumar Laurinha que era o sono em pessoa, mas ela precisava ir à creche e eu ao trabalho.
- Vamos, minha pequena. -a peguei no colo. Ela resmungava de olhos fechados enquanto eu já caminhava para o banheiro. -Um banho e você logo acorda pra vida. -eu ri.
Enquanto eu arrumava Laura, fiquei pensando como o tempo estava passando, imaginei como ela seria na adolescência, como eu iria reagir ao seu primeiro encontro com um rapaz... Aqueles pensamentos estavam me deixando nervoso ou ansioso, não sei ao certo, era uma sensação que não dava para distinguir.
- Tem certeza que quer ir sem o arquinho? -perguntei voltando a atenção para ela que arrancava com tudo o acessório do cabelo.
Laura conseguiu tirá-lo do cabelo e atirou contra a porta, sem força.
- Ok, já entendi. -eu ri. Ela coçou os olhos e bocejou preguiçosa.
O toque do meu celular soou me fazendo descer um pouco mais rápido a escada.
-Alô? -era um número desconhecido.
- Professor Benjamin Alves? -uma voz formal e séria demais.
- Sim. -respondi ajeitando Laura na cadeirinha enquanto preparava seu achocolatado.
- Eu sou a diretora Maria, do Lair. Achei que o senhor estaria aqui hoje cedo. -falou um pouco rude.
- Estarei, sim. -falei fechando a mamadeira. -Mas a minha primeira aula é às dez da manhã, certo? -perguntei.
- Sim, porém os alunos chegam às sete e meia, achei que gostaria de chegar no horário pelo menos em seu primeiro dia. -imaginei a feição da diretora ao dizer isso.
- Olha, diretora, a senhora me desculpe, mas o meu horário é às dez, eu tenho uma filha pequena que preciso deixar na creche. -suspirei. -Se eu continuar a conversa com a senhora, não sei que horas chegarei aí. -temi em ter soado rude, mas ela estava me atrasando.
- Tudo bem, eu aguardo por você. -ela bufou.
- Até logo. -fiz cara de tédio.
Não ouvir sua despedida, apenas os bips da ligação encerrada.
- Então, Laurinha ... -suspirei vendo a mamadeira vazia. -Vamos? -sorri um pouco desanimado .
O dia seria longo, eu já podia prever.
Saí de casa com Laura, ela estava um pouquinho adiantada para sua aula, mas eu precisava chegar antes das dez ao trabalho.
-Bom dia... -falei para o porteiro e notei a escolinha um pouco vazia.
- Bom dia, seu Benjamin. -disse ele me surpreendendo por saber o meu nome. Eu sorri e entrei.
Laura desceu ágil do meu colo e correu desajeitada para perto de uma menina toda cacheada.
- É, ela vai ficar bem. -sorri.
Depois de falar com a cuidadora, saí de lá e peguei um táxi para o Lair de Almeida. No caminho eu fui pensando naquela diretora, o jeito que ela falou comigo, um calafrio percorreu a minha espinha e eu fiquei alerta.
- Não será tão difícil assim. -falei para mim mesmo.
- O que disse? -o taxista perguntou.
- Me desculpe, apenas pensei alto, estou meio destraído. -falei sem jeito.
-Está mesmo, afinal, já chegamos. -ele riu e em seguida emendou uma série sofrida de tosse.
- Oh verdade! O senhor está bem? -perguntei estendendo o dinheiro da corrida.
- Sim, meu filho, é a idade. - o velhinho disse despreocupado. -Aqui está o seu troco.
- Obrigado, tenha um bom dia. -falei.
Atravessei a rua e só então observei a frente do colégio, parecia uma construção antiga, com tijolos vinhos, e colunas cinzas, no meio, letras grandes e de cor prata escrito Centro Educacional Lair de Almeida. O muro baixo e grades verdes cercavam o espaço, uma rampa pequena dava entrada ao primeiro portão.
- Bom dia. -cumprimentei, tímido, ao porteiro.
- Bom dia, o senhor é...? -ele perguntou com os olhos semi serrados.
- O novo professor de Educação física, Benjamin Alves. -estendi a mão para ele.
- Ah sim! Seja bem vindo, professor. -ele apertou a minha mão, sorrindo, fazendo seu bigode alargar e finalmente pude enxergar sua boca, oculta pelo tufo acima.
- Obrigado, senhor...? -ri encabulado.
- George. -informou.
- Eu vou indo, Seu George, antes que a diretora puxe minha orelha pela segunda vez. - ri lembrando da rude dona Maria.
- Vá, rapaz. -ele tocou o meu ombro. -Maria é um pouco exigente, mas é boa pessoa. Não se intimide com ela. -aconselhou.
- Ah é bom saber disso. -sorri. - Muito obrigado.
Saber que a diretora não era tão monstro quanto demonstrou, me acalmou um pouco. Aquele colégio era imenso, pelo menos o caminho da diretoria eu já conhecia.
- Com licença? -disse da fresta da porta, depois de dar dois toques na porta da tão temida diretora.
- Toda. -ela sorriu pela primeira vez. Até porque eu só havia visto uma vez. -Bom dia, Professor.
- Bom dia... -eu entrei.
- Bom, a sua aula só começa às dez, como bem sabe... Aqui está o seu horário... -ela me entregou uma pasta com o horário, chamada das turmas e começou a tagarelar sobre tudo do colégio.
No fundo estava parecendo uma pessoa um tanto simpática.
Quando vi, já estávamos andando pelo colégio.
- Olhe, essa é a sala da 1006. -disse entrando numa sala enorme.
- É uma turma grande, certo? -perguntei.
- Sim, por sinal, é a sua primeira turma de hoje. -disse ela.
-E aonde está os alunos?
- No auditório, aula de Artes. Você vai adorar a professora Elza, é tão doidinha.. -disse mexendo as mãos no ar e sorrindo para o mesmo como se lembrasse de alguma situação engraçada.
Era isso mesmo? A diretora sorrindo e falando bem de uma professora? É, eu definitivamente não a conhecia e essa vai para o criador da teoria "a primeira impressão é que vale". Não! Não é por aí, meu caro.
- A com certeza irei gostar. -eu sorri sem jeito.
- Bom, Professor. Essa é a chave do local qual está tudo o que precisar para sua aula,essa é da quadra e essas dos vestiários. -ela me entregou num chaveiro.
- Hãm... E você pode me mostrar onde é?
-Mas é claro! É tudo ao entorno da quadra mesmo, vamos lá. -me chamou e eu a acompanhei boquiaberto com sua súbita simpatia.
Então eu pude conhecer meu real local de trabalho, era uma quadra grande, bem conservada. Na verdade eu não havia reparado muita coisa, estava ansioso para conhecer os meus alunos.
- Está quase na hora, Professor. Boa sorte. -ela disse em um tom brincalhão e eu me perguntei mentalmente porquê boa sorte e não boa aula.
- Obrigado, eu vou precisar? -perguntei rindo.
- Talvez... Essa turma não é muito fácil. -ela riu e me deixou alí sem saber o que esperar da 1006.
Verifiquei o relógio, faltavam dez minutos para a hora da aula. Me sentei na carteira e dei uma olhada na chamada, 47 alunos, eu fiquei surpreso!
- Tem professor novo... -uma voz masculina soou atrás de mim.
-Literalmente novo. -outra fina e irritante comentou rindo.
- Aposto que só vai passar futebol. -outro comentário de menina.
Então eu me dei conta que já estava na hora, uma multidão de alunos invadiam a quadra, falando alto, batendo na cabeça um do outro, quicando a bola sem nenhuma autorização...
- Bom, turma... -a minha voz sumia na multidão. -SILÊNCIO, POR FAVOR! -alterei um pouco a voz e nenhuma atenção.
O jeito foi pegar o apito, e apitar até que aqueles mal educados prestassem atenção em mim.
- Bom, vocês irão fazer silêncio ou eu vou ter que subir para a sala pra conseguir dar uma aula direito? -perguntei, eu sabia que os alunos odiavam ter aula de educação física na sala de aula .
O silêncio predominou a quadra. Respirei fundo.
- Obrigado. -falei já no meu tom normal. Todos me olharam já entortando o nariz. Eu não havia causado boa impressão. -Eu juro que sou um cara legal, mas é que vocês são uns tagarelas!-eu ri fraco. -Eu sei, eu sei, são os hormônios... Já tive a idade de vocês, pode não parecer, mas já tive. -falei causando umas risadinhas.
- Parece sim, Prof! -a voz fina novamente.
- Contenha-se Letícia! -um garoto falou e todos riram.
- Ok. Brincadeiras a parte. -eu ri. -Vamos todos fazer uma roda aqui no chão. -falei me sentando.
- Qual é professor, tá ligado que aqui é primeiro ano, né? Essa parada de rodinha é pra criança. -um garoto que me lembrava muito o Vina, falou rindo. Os outros concordaram.
- Calma, pessoal. -ri. -Vamos começar a aula. -Eu sou o novo professor de vocês, me chamo Benjamin. Percebi que o uniforme de vocês está tudo OK, sem roupa muito curta ou justa, e todos de tênis. Já é um ponto positivo. -ri. -Percebi também que vocês são uma turma enorme, bem ... -procurei uma palavra. -bem ativa, e... Eu preciso os conhecer . -finalizei.
- Ah então essa rodinha aqui é para a gente falar o nome, idade e o que queremos ser quando crescer.. Tipo aquelas rodinhas de jardim de infância? -o Vina 2 falou rindo arrastando toda a turma na zoeira.
- Na verdade iremos fazer outra coisa que parece bem infantil também. -falei sério.
- E o futebol, Fessô? -perguntou um menino entediado.
- Ah percebi também que vocês são acostumados com futebol toda aula. Comigo não é assim! E hoje não teremos futebol. -informei para desânimo de metade dos garotos.
Pensei por alguns segundos, se não fosse a onda de conversa, pensaria por mais tempo.
- Por favor, façam silêncio, nós iremos conversar bastante nessa aula. Então esperem.
- Professor, será que dá pra começar logo? -uma garota que tinha inúmeras presilhas no cabelo, falou.
- Tudo bem, qual o seu nome? -perguntei.
- Renata. -ela sorriu.
- Muito bem, Renata. Feche os olhos. -falei e ela me olhou confusa, encarou a amiga ao lado e voltou o olhar para mim. -Vamos, Renata e toda a turma, fechem os olhos. -falei de olhos fechados para dar segurança.
Eles demoraram um pouco para confiar, mas em alguns segundos, estavam todos de olhos fechados, eu sorri. Pois a brincadeira parecia mesmo infantil, mas tinha um objetivo.
- Muito bem, vamos começar. Por favor, não questione, apenas façam o que eu mandar, OK? -falei e eles se acostumaram com o silêncio, ninguém disse nada. -Vocês podem dizer OK. -eu ri
- Tá. -um coral me respondeu e algumas risadinhas soaram.
- Pois bem, nós a partir de agora, vamos nos preparar para um passeio à lua. -e mais risadas. -POR FAVOR!-repreendi.
E assim eu comecei a falar sobre a lua, de como é legal, das coisas que lá existe, sobre invenções que não chegaram à Terra. Eu falava com uma propriedade do assunto que até parecia verdade.
- Estão ansiosos para a viagem? -perguntei e eles me responderam confirmando com a cabeça. -Abram os olhos. -ordenei .
Aquilo era só para os deixar curiosos e muito a fim de "brincar".
Eles se olhavam sem acreditar que aquilo era uma aula, riam e cochichavam sem parar, eu dei trinta segundos para se recuperarem da surpresa.
- Então, Renata! Você sabe que não se pode levar muita coisa para a lua, certo? -ela assentiu. -Então, pense. O que você levaria?
- Hum... Acho que o meu celular! -ela falou.
- Tem certeza? Tenho uma leve impressão de que não terá sinal lá... Celular é o que mais importante pra você? -perguntei rindo.
- Tudo bem... Eu levaria ... Maquiagem! Claro, lá a pele deve ficar tão ressecada. -disse e foi o ponto para a zoeira.
E as minhas conclusões se formavam em minha mente, Renata era um pouco fútil, mas interessada na aula. Até porque que adolescente toparia sem questionar, dizer o que levar pra lua, sem pensar ser ridículo demais pra falar em público?
- Sinto muito, mas maquiagem não pode. -falei.
- Por que, Professor?! -protestou.
- Qual o seu nome? -apontei para um rapaz .
- João Lucas. -informou.
- Pois bem, o que você levaria na sua viagem para a lua?
- Ah claro que a bola de futebol, né? -ele riu.
- Ah sim, mas você não gostaria de fazer coisas diferentes lá?
- Talvez... -ele pensou.
- Ok, mas bola também não entra na lua! -eu gargalhei.
Era uma graça vê as expressões murchas dos rapazes depois de proibir o que queriam levar.
João era um rapaz que com certeza sonhava ser jogador de futebol.
E assim seguiu a brincadeira, era cada coisa que eu escutava que a aula se tornou uma grande piada.
O primeiro sinal tocou e a única coisa que tínhamos para a viagem, era alguns livros que Isabella quis levar. Era uma menina bonita, cabelos cacheados, não igual aos de Barbara, eram longos até demais. Seus olhos eram enormes e bem maquiados. Ela alegou amar ler e não sobreviver sem as obras de Nicholas Sparks.
Pelo menos teríamos garantido uma boa leitura na lua.
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Mais alguém fã do Nicholas?! Por que será que só Isabella pôde levar o que deseja pra lua?
No próximo capítulo irei desvendar o ''mistério'' da brincadeira!
Obs: Parei o capítulo por aqui porque achei que estava ficando muito grande e podia ficar cansativo. E também os meus dedos estavam dormentes hahah.
Outra coisa! Esse capítulo só foi para narrar o primeiro dia de Volta às Aulas do Ben, por isso, sem muitas emoções, Ok?
Obrigada por ler, votar e comentar! Até logo! *-*
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