Capítulo 1.3

AINDA atordoada com tudo que havia acontecido, Chloe empurrava lentamente a sua bicicleta no caminho de volta até sua casa.

Nathan constantemente lançava olhares apreensivos para a sua colega.

"Então deixe me entender" disse o rapaz.

"Você está agindo totalmente estranha desde que acordou..." ele levantou um dedo.

"Você está extremamente assustada" mais um dedo.

"Sua cabeça parece estar nas nuvens" outro dedo.

"E você quer que eu acredite que está tudo bem?" perguntou.

Chloe tentou inutilmente manter uma postura de confiança.

"Não foi nada, Nathan" respondeu a menina visivelmente abalada.

"Foram os seus pesadelos de novo?" questionou o garoto subindo em cima de sua bicicleta de cor roxa.

A menina demorou alguns segundos para responder pois parecia estar bastante interessada em observar o guidão de sua própria bicicleta.

"Não... foi um pesadelo" ela respondeu.

Nathan franziu a testa.

"Você dormiu o segundo período inteiro, Chloe".

A garota mordeu os lábios, seus olhos se desfocaram.

"Eu só... só estou cansada" garantiu.

Ainda totalmente desconfiado o amigo insiste.

"Acho que você deveria procurar alguém" aconselhou.

"Talvez a doutora- ".

Chloe parou.

"Não foi nada, está bem?" ela respondeu com uma entonação que assustou até ela mesma.

Nathan se calou.

Chloe se encolheu, envergonhada.

"Sinto muito".

O rapaz apenas assobiou.

"Nathan...".

O amigo levanta os braços.

"A culpa foi minha, relaxa" respondeu.

Chloe fechou a cara.

"Você fica brava até quando eu me desculpo?" perguntou confuso.

A garota apenas revira os olhos e continua a andar. A distância um barulho curioso começou a surgir.

"O que?" ela perguntou.

Nathan balançou os ombros.

"Acho que está vindo daqui!" gritou Chloe subindo na bicicleta.

"Ei!" chamou o amigo.

"Nossa casa fica..."

"Para o outro lado"

Mas a garota já havia disparado na direção do misterioso som.

"Você ainda vai acabar me matando do coração" disse Nathan antes de seguir a amiga rua abaixo.

O barulho foi aumentando na medida em que os dois adolescentes se aproximavam de sua origem. Uma enorme multidão marchava impacientemente pela rua. Era uma manifestação.

Inúmeras pessoas seguravam placas, cartazes e outros objetos chamativos em suas mãos. O barulho estava praticamente ensurdecedor enquanto os manifestantes seguiam caminho pelas ruas rumo ao coração da cidade, a praça.

Alguns carros passavam ali próximo buzinando alto e exageradamente. Nathan conseguiu identificar algumas crianças batendo algumas panelas em meio aos demais.

Um único policial tentava inutilmente manter a ordem na situação.

"O inspetor Harris já está chegando!" prometeu o oficial.

"Ele responderá todas as perguntas que vocês tiverem, só peço paciência..."

Um homem adulto lançou uma garrafa de plástico que passou voando poucos centímetros do braço esquerdo do policial.

"Paciência? Tem pessoas morrendo!" ele berrou.

O policial agora tinha uma expressão de receio, ele tentava gritar mais alto do que o barulho da multidão.

"Ainda não há vítimas confirmadas".

Um segundo homem gritou ainda mais alto.

"Ah é? Então onde os desaparecidos estão?"

A pergunta desnorteou o oficial.

"Estamos fazendo tudo que podemos, temos homens em todos os lugares o tempo todo...".

O policial, porém, foi interrompido com um estrondo alto que se assemelhava a explosão de uma bomba caseira.

"Ei!" ele berrou enquanto apontava o dedo indicador para uma pessoa que agora corria na direção oposta de onde a manifestação estava indo.

"Parado ai!".

"As pessoas estão começando a ficar nervosas" comentou Chloe.

Nathan fechou a cara ao entender o que estava de fato acontecendo.

"É... nem me fale".

Os jovens caminharam pela lateral da calçada, tentando ao máximo evitar contato direto com os manifestantes. Uma idosa de cara seria e bastante irritada, porém os interceptou.

"Vocês deveriam estar aqui ao nosso lado, sabia?" disse a mulher.

Chloe e Nathan se entreolharam.

"É..." a menina começou a se explicar.

"Vocês não leem jornal?" perguntou a idosa de maneira ríspida.

"Uma criança sumiu recentemente!".

"Uma criança!" ela berrou.

A expressão de Chloe ficou tempestuosa.

"Senhora, nós..." Nathan tentou dizer, porém a idosa estava imparável.

"A cidade precisa mais do que nunca de sangue novo" resmungou enquanto apontou o dedo enrugado para os dois amigos.

A mulher mediu Chloe com os olhos, desconfiada.

"Por que está tão abalada, querida?" perguntou.

"Não está escondendo nada, está?".

Chloe abriu a boca, mas não disse nada.

Nathan segurou a garota com força pelo pulso e a arrastou para longe da idosa. Pelo canto do olho o menino arriscou um olhar para trás. A mulher continuava a observar Chloe com extrema curiosidade.

"Esse povo está ficando doido" comentou o menino.

Chloe ficou em silêncio todo o percurso até finalmente conseguirem se afastar parcialmente da multidão.

"Você está legal?" perguntou Nathan.

A garota não parecia nada bem, porém mesmo assim tentou mentir.

"Estou".

Nathan cerrou os olhos.

"Chloe?" ele perguntou.

A menina o encarou. Seus olhos estavam vermelhos e brevemente úmidos.

Essa visão pegou o rapaz de surpresa. Ele nunca havia visto a amiga daquele jeito. Seus olhos pretos ficaram sombrios por trás dos óculos quadrados.

"Ei... está tudo bem" disse o menino enquanto acariciava os cabelos de Chloe na tentativa de acalmar a amiga.

Nathan correu o olhar pela rua. A multidão já estava desaparecendo no horizonte.

"Viu só?" perguntou.

"Eles já estão indo embora".

Ainda vacilando a menina levanta o rosto e encara a rua. Seus olhos se arregalaram e sua expressão demonstrou pavor puro.

No reflexo do vidro de uma papelaria, a menina viu algo que a aterrorizou. Um menininho a encarava com uma expressão vazia no rosto. Era Jackson novamente.

Chloe segurou o braço de Nathan com tanta força que o menino acabou gemendo de dor.

"Ai!".

Atordoada, a garota encara o amigo.

"Me desculpe!" disse a menina entendendo a situação.

Chloe se encolheu de vergonha.

"Você é forte, hein?" comentou Nathan.

O rosto da garota ficou vermelho.

"Eu estou ficando maluca, não estou?".

Nathan demorou um pouco para responder, como se estivesse escolhendo as melhores palavras para usar naquela ocasião.

"Você só está estressada" garantiu o amigo, porém sua voz não conseguiu passar a confiança desejada.

Chloe lançou um outro olhar para o vidro da papelaria. Não havia mais nada lá.

"O que eu fiz para merecer isso?" choramingou.

A menina se encolhe ainda mais, grudando o rosto nos joelhos.

Nathan se aproxima novamente e volta a acariciar os cabelos pretos de sua colega.

"Vem" disse erguendo uma das mãos na direção da garota.

"Eu vou te levar para sua casa".

Ainda com um certo receio a garota segura a mão do amigo.

O caminho de volta para a casa foi bastante silencioso e um tanto constrangedor. Nenhum dos dois tocou mais no assunto de pesadelos ou de manifestações da população.

"Obrigada por me acompanhar até aqui" agradeceu a menina.

Chloe ainda demonstrava sinais físicos de cansaço, medo e ansiedade.

"Por nada".

Nathan segurou a menina.

"Tem certeza de que está tudo bem agora?" insistiu.

Chloe abriu um sorriso fraco.

"Eu prometo, mas obrigada pela preocupação" garantiu.

Nathan lançou um olhar desconfiado para a amiga.

"Qualquer coisa você me avisa, entendeu?".

Chloe ficou em silêncio.

"Entendeu?" o garoto repetiu.

"Eu prometo que te chamo, está melhor assim?" perguntou a garota.

Nathan pareceu levemente mais tranquilo, porém sua expressão ainda estava rígida.

"Se cuide".

O garoto já havia subido novamente na bicicleta e começado a andar rumo a sua casa quando Chloe o chamou.

"O que foi?" questionou.

"Meu trabalho de história!" a menina berrou.

A situação foi tão inesperada que Nathan demorou alguns segundos para conseguir raciocinar uma resposta.

"O que?".

Mas Chloe agora tinha novamente a expressão de medo no rosto.

"Valia 5 pontos!".

A garota se aproximou do amigo com a cara fechada.

"Por que não me acordou?".

Nathan não conseguiu se explicar antes de levar uma sequência de tapas da garota.

"Você realmente é bem forte" lamentou o menino enquanto esfregava as costas com uma das mãos.

"Me desculpe, mas você mereceu" disse Chloe.

O rosto branco de Nathan agora estava rosa.

"Eu não merecia coisa alguma!" gritou - "Você que não quis me escutar".

Chloe ergueu uma das sobrancelhas e cruzou os braços.

"Está bem! Explique-se".

"E você diz isso só agora que já me bateu?" perguntou o jovem.

A menina não consegue evitar de soltar um sorriso envergonhado.

"Anda logo, antes que eu mude de ideia" apressou.

Nathan ainda com raiva das pancadas explicou tudo o que aconteceu.

"Ele faltou?" perguntou Chloe.

Nathan fez que sim com a cabeça.

"Mas o senhor Lewis nunca falta, tem certeza disso?"

"Apenas um de nós dois estava acordado, lembra?".

Chloe fechou a cara e começou a caminhar na direção do amigo.

"Brincadeira!" Nathan se apressou para se desculpar.

"Mas agora falando sério".

"Ele realmente faltou, o substituto disse que ele estava bastante doente e que não tinha possibilidade alguma de dar aula" terminou de explicar.

Chloe mordeu os lábios, pensativa.

"Isso é estranho".

Nathan fez uma careta.

"Não deveria agradecer? Você não perdeu nota".

E dito isso o jovem sobe uma última vez em sua bicicleta e dispara rumo a sua casa.

Chloe ficou parada na rua de sua casa por alguns minutos antes de finalmente entrar.


"É... acho que sim".

Outra das principais características dos habitantes de Sunlane são decididamente o seu impacto diante das situações (sendo elas positivas ou negativas) que ocorrem na cidade.

Os desaparecimentos estão começando a gerar mais estresse do que o esperado para as autoridades enquanto o medo se espalha sorrateiramente pelas paredes de Sunlane.

Peguem uma xícara de café ou chá e prossigam, caros forasteiros!

03 Dias

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