XIII - Ela conseguiu?
Azura
No dia seguinte, Nowa não compareceu no treino matinal e eu não sabia como deveria me sentir em relação a isso, aliviada? Provavelmente sim, evitaria constrangimento de ambas a parte. Todavia, eu estava na realidade decepcionada porque persistia a sensação que o demônio estava fugindo de mim e se sim, por que? Parecia que sempre dávamos um passo para frente, porém também andávamos três para trás, e a qualquer instante ele voltaria a ser o cara que conheci no meu primeiro dia em Adalasiah; arrogante, fechado e idiota. Mike por outro lado, estava na arena como de praxe, e talvez fosse impressão minha, mas naquela manhã parecia que de fato, ele queria socar algo, e por pouco, não foi minha cara.
Treinamos com afinco, sem tempo para intervalos ou gracejos, e pela primeira vez pude, dizer com firmeza, o caído precisava mais do treino, do que eu.
Encerramos somente quando ambos estávamos completamente encharcados de suor, os membros doloridos e com o estômago roncando. Ele se despediu rapidamente, parecendo absorto em seu próprio mundinho e decidi respeitar seu espaço, em outro momento conversaria com ele, quando estivesse mais receptivo. Logo em seguida, um assobio preencheu meus ouvidos e um sorriso involuntário surgiu em meus lábios enquanto virava na direção do anjo ao meu aguardo; Roy. Retribui o assobio instantaneamente e corri até o maior, lhe dando um beijo estalado na bochecha e ele não tardou em passar um braço em torno de mim e me trazer para junto do seu corpo. Confortável, familiar, era quase como estar em casa. O mancebo estava com os fios molhados, como se recém houvesse saído do banho, e juntos começamos a caminhar para a fora da arena. Eu precisava urgentemente de uma chuveirada e um prato enorme de proteína!
─۫─̸ Você quase acertou um golpe no caído, estou surpreendido... ─۫─̸ Gardier murmurou em um tom orgulhoso, fazendo - me corar. Desde o seu retorno, era a primeira vez que meu melhor amigo assistia um dos meus treinos.
─۫─̸ Seria melhor se eu tivesse de fato, acertado...─۫─̸ Resmunguei azeda, com um leve franzir de cenho e ele riu. Era estranho como tudo mudava tão constantemente, até pouco tempo atrás, caminhávamos juntos pelos os corredores da escola, desabafando sobre professores estridentes e notas baixas, éramos apenas dois adolescentes no último ano do ensino médio, agora estávamos em um reino mágico e cercados por criaturas sobrenaturais, Roy é um anjo de guarda com incontáveis anos na conta e eu a reencarnação de um cupido que morreu incontáveis vezes, com o poder de libertar os outros anjos da escravidão. É exatamente aquele ditado, o mundo não gira, ele capota.
─۫─̸ Azul, ele é um ex celestial sabia? Fluente em mil maneiras de te meter a porrada. E levando em conta que você está treinando há apenas um mês, você está ótima...─۫─̸ Dessa vez quem riu fui eu. Roy era o único que ainda me chamava pelo meu nome de adoção, era estranho em algumas partes e em outras, eu era grata, porque não me fazia esquecer de onde eu vim.
Os corredores de Adalasiah tornaram - se outra vez vazios depois da comemoração na noite anterior, não havia nenhuma fae voando em disparada, e muito menos fênix's patrulhando a área, era seguro conversar abertamente com meu melhor amigo. E provavelmente, ele era a única pessoa capaz de responder minha pergunta sem que relacionasse com o que ocorreu na noite passada; meu toque sobre as asas do demônio, e o quase beijo. Com as bochechas vermelhas, tentei parecer o mais neutra possível ao questiona - lo.
─۫─̸ Roy... ─۫─̸ O mancebo encarou - me com curiosidade assim que fiz ele parar de caminhar ─۫─̸ Eu tenho asas? Ou tinha?
Gardier engasgou - se com o próprio ar presente, os olhos arregalados em confusão.
─۫─̸ Por que essa pergunta agora???
─۫─̸ Curiosidade ─۫─̸ Dei de ombros e o rapaz pareceu relaxar, porém só um pouco, e esse relaxamento sumiu no instante que abri minha boca outra vez ─۫─̸ Você já as viu?
─۫─̸ Não! Óbvio que não Azul! ─۫─̸ O tom era desconcertante e desconfortável, quase como se houvesse perguntado se ele batia punheta no banho. Dessa vez, a confusa era eu ─۫─̸ Você tem, digo não na forma humana, mas na forma angelical elas ainda existem...─۫─̸ O maior suspirou passando a mão no rosto ─۫─̸ As asas de um anjo são um tópico complicado, ok?
─۫─̸ Por que? ─۫─̸ Perguntei com os braços cruzados. Eu já estava ali há um mês, todavia às vezes parecia que todos ali esqueciam disso, esqueciam que certas informações, eu simplesmente não tinha ideia!
─۫─̸ Asas são as nossas maiores honras, nosso bem mais preciosos e nosso instinto natural, é protegê - las acima de tudo. Mostra - las significa mais que uma simples demonstração de confiança, significa mostrar uma parte da sua alma, uma parte que ninguém conhece, exceto você... ─۫─̸ Roy continuou sua explicação coçando a nuca desconfortável Minha boca abriu - se em um perfeito O─۫─̸ É mais que uma questão de visualizar, é uma questão de companheirismo, não se mostra as asas para qualquer um Azul. Digo, antigamente eram vistas em campos de batalha, todavia era algo profissional, entende?
Acenei em concordância para que ele continuasse, meu queixo ao chão, e minha voz parecia ter sumido. Felizmente, Gardier não pareceu notar nada, tamanha era sua vergonha.
─۫─̸ Mostrar sua honra de forma proposital e íntima já é algo completamente diferente...─۫─̸ Roy balançou a cabeça, estalando a língua no céu da boca ─۫─̸ São poucos os que estabelecem uma conexão assim...
Recordei - me da noite passada, das mãos quentes sobre minha cintura, das palavras sussurradas, e de como ele pediu para que eu o tocasse. Será que as mesmas regras cabiam para príncipes demônios? Teria que permanecer com a dúvida, porque questionar esse termo em específico, me deixaria em maus lençóis.
─۫─̸ Então, anjos são sensíveis nesse quesito, entendi...─۫─̸ Murmurei tentando parecer desinteressada e voltei a caminhar, Roy em meu encalço. ─۫─̸ E tocar, é permitido tocar nas asas de um outro anjo?
Outra vez Roy engasgou.
─۫─̸ Céus Azul! Por que essas dúvidas agora? ─۫─̸ Dei de ombros outra vez e ele suspirou, caindo no meu teatro ─۫─̸ É raro, e requer muito do anjo, porém não é impossível, é uma honra para o agraciado... ─۫─̸ Meu rosto queimou fortemente e tentei disfarçar, encarando a paisagem de Adalasiah. Pelo menos Roy era lento o bastante para não notar nada ─۫─̸ Mas você entendeu, não é? Provavelmente as únicas pessoas que já viram suas asas, foram seu núcleo familiar, e somente eles podem te responderem sobre elas...─۫─̸ Tive vontade de questiona - lo sobre as suas, porque sabia que o guardião ainda as possuía. No entanto, se ele quisesse mostrar, ele mostraria, certo? E se era algo tão íntimo como havia sido explicado, eu não tornaria nada constrangedor entre Roy e eu. Todavia, a visão das asas de escuridão, tornava - se cada vez mais intensa e caótica conforme caminhávamos pelos os corredores, a explicação do anjo soando em minha mente a cada passo. E duas novas dúvidas, o que aquilo representou para Nowa? E o que aquilo representou para mim?
♡
Depois de me escoltar até meu quarto, Roy se despediu afirmando que de noite nos encontraríamos, finalmente ele havia dito o que aprontava quando não estava comigo. Desde a sua volta, ele estava encarregado de ajudar Brianna e Selene com as preparações do feitiço para me libertar da forma humana, como um dos únicos que não era perseguido no mundo afora, sua tarefa era conseguir todos os ingredientes, e de acordo com ele, nem todos eram fáceis, e o quarto crescente logo mudaria, e uma mistura de medo com ansiedade apoderaram - se de mim. Tomei um longo e relaxante banho, vesti um par de roupas confortáveis e me mantive descalça, até então não havia recuperado meu all star, e nem o vestido da noite passada e para o treino matutino, usei um par de tênis comuns, o que já era demais, não repetiria esse martírio outra vez, e dessa forma, segui para o treino na biblioteca, onde somente Lia esperava - me, sem o mínimo sinal de Mike e suas revistas pornôs. Ok, realmente havia algo errado.
─۫─̸ Onde está Mike? ─۫─̸ Perguntei ao me aproximar da manceba. Diferente dos outros dias, ela também não parecia ter a expressão mais amigável de todas, e no momento que o nome do caído deixou meus lábios, a vampira encarou - me como se quisesse me matar.
─۫─̸Provavelmente ocupado, talvez você não tenha percebido, mas o mundo não gira em torno da sua existência Luna...─۫─̸ A voz de Lia estava cortante e fria, pegando - me completamente distraída. Edward que estava aos fundos da biblioteca com Bethany, soltou uma risada. Apertei os dentes com raiva, porque se havia algo que eu odiava, era servir de chacota para os outros.
─۫─̸ Ok, assim como o mundo não gira em torno de mim... ─۫─̸ Observei ─۫─̸ Também não vou ser alvo do seu mal humor gratuitamente. Não fui eu que pisei no calo do seu pé...─۫─̸ Retruquei irritada, o bom humor finalmente sumindo, normalmente eu sequer sei lidar com a minha bipolaridade, quem dirá com a dos outros.
Lia pelo menos pareceu estar arrependida e envergonhada.
─۫─̸ Desculpe, eu...─۫─̸ A loira tentou justificar, contudo iniciei o projeto de retirar todos os livros da estante mais próxima usando a telecinesia, cortando-a quando um volume voou perigosamente próximo do seu rosto pegando - a desprevenida.
─۫─̸ Eu vim aqui para treinar, hum? Então, vamos fazer apenas isso...─۫─̸ Comuniquei sem humor algum, e pela primeira vez, eu odiei estar ali.
♡
Meu ódio estava em um nível perigosamente alto para alguém do meu tamanho, e como uma pessoa sensata, eu continuava o alimentando a cada passada dura enquanto retornava para meu quarto. O treino foi produtivo, mas também uma lástima, a vampira e eu sequer trocamos uma dúzia de palavras pelas horas que se seguiram e até mesmo Bethany parecia mais convidativa do que a loira. Será que vampiros possuíam TPM? Era a única explicação que soava na minha cabeça. Estava tão absorta em minhas teorias da conspiração, que sequer notei a figura masculina parada no meio do meu quarto, ao lado da cama. A porta fechando-se com um estrondo atrás de mim, imaginando ser a cabeça de uma certa vampira na parede e em seguida um grito frustrado escapou dos meus lábios, e como resposta, a risada do desgraçado dominou o ambiente, e somente naquele instante ergui o olhar; Nowa estava ali, com toda sua magnitude e um sorriso debochado nos lábios, meu all star em uma das mãos e o vestido na outra.
─۫─̸ Acho que alguém não teve um bom dia...─۫─̸ Ele cantarolou com bom humor, deixando ambas as peças sobre o colchão com cuidado ─۫─̸ Me entregaram agora pouco essas peças, achei que gostaria de recebe - las de volta, então estou aqui a sua disposição...─۫─̸ O príncipe fez uma reverência exagerada e até então, eu apenas estava parada como uma idiota, encarando-o ─۫─̸ Posso saber quem irritou minha rainha?
Pisquei uma, pisquei duas, pisquei três vezes. Era difícil lidar com sua presença depois da noite passada, principalmente por recordar que seus lábios quase estiveram sobre os meus. Automaticamente me senti quente, desengonçada e com as bochechas quentes. O sorriso do desgraçado ampliou - se.
─۫─̸ Você está bem Luna? Está com febre?─۫─̸ O demônio deu um passo para mais próximo de mim parecendo verdadeiramente inocente, a destra erguendo - se para checar minha temperatura. Contudo, dei um passo para trás, fugindo do seu toque. Tudo bem, eu sou de gêmeos, sei lidar com indecisão e confusão, no entanto naquele dia não. Definitivamente não iria agir como se nada tivesse ocorrido na noite passada, e encarar tudo com humor. Eu queria respostas.
─۫─̸ Podemos conversar? ──̸ Questionei e me senti orgulhosa ao perceber que não gaguejei. Ao notar meu tom sério, o príncipe afastou - se mais um passo, colocando suas mãos no bolso da calça que trajava, o bom humor sumindo das suas íris. Caminhei até minha cama, averiguando meus pertences pessoais, e como ele havia dito, a fae's haviam deixado o vestido novo outra vez, nenhum resquício sequer da bebida derramada na noite passada, uma prova a menos do que aconteceu.
─۫─̸ Eu fiz algo ontem? Te magoei outra vez? ──̸ A pergunta de Nowa me deixou estupefata, e encarei o demônio como se ele tivesse criado um terceiro olho na testa, o que? ─۫─̸ Normalmente não costumo beber, porém era uma comemoração importante e acabei exagerando, não lembro de basicamente nada da noite...─۫─̸ O maior levou sua mão destra até a nuca de maneira distraída, e parecia verdadeiramente preocupado e ansioso pela minha resposta. Eu por outro lado, sentei - me na cama para não acabar caindo no chão.
Tivemos um momento, um momento perfeito em que eu toquei suas asas e quase nos beijamos e ele sequer se lembrava? Por Deus primeiro, o quão idiota era para não notar que ele estava embriagado na noite passada? Eu não podia me culpar, não havia sinais, e estive perto o suficiente da sua boca para não sentir o gosto de álcool, e mesmo assim...
─۫─̸ Luna....─۫─̸ A voz do demônio soou outra vez, mais receosa, e me obriguei a encara- lo, sequer sabia o que ele estava visualizando no meu rosto. Mágoa? Raiva? Uma garota estúpida? ─۫─̸ Desculpe se eu fiz algo de errado, se eu disse algo, sequer me lembro de estar na festa, fui beber na floresta sozinho e....─۫─̸ Ele parecia tentar lembrar do ocorrido, parecia fazer a porra de um grande esforço. Céus, eu queria gritar! Queria mata - lo! Estrangula - lo! ─۫─̸ Podemos conversar decentemente?
─۫─̸ Decentemente? Você quer conversar decentemente príncipe Nowa???? ─۫─̸ Berrei em uma explosão de raiva que pegou ambos desprevenidos. Ele estava há apenas alguns metros de distância, bem na minha frente, e tomada pela fúria, apanhei um dos meu all star sobre a cama, e arremessei no demônio que desviou, todavia não foi rápido o suficiente para desviar do segundo golpe, sendo atingido na cabeça ─۫─̸ Eu quero que você saia do meu quarto, agora! Não me resta um pingo de paciência pra lidar com você, ou com sua corte infernal maluca!
Meio segundo depois eu já estava de pé, e continuava arremessando objetos na direção do rapaz. Uma escova de cabelo, um travesseiro, um compasso, eu arremessaria o quarto inteiro se precisasse para apaziguar minha raiva. O demônio foi recuando, até estar de pé perto da porta, pronto para sair correndo e parecendo verdadeiramente confuso com minha atitude.
─۫─̸ Luna eu já pedi desculpas!
─۫─̸ Você sequer lembra o que fez seu imbecil! ─۫─̸ Apanhei o all star vermelho mais próximo, e outra vez joguei no desgraçado e ele correu para fora do cômodo mais rápido do que qualquer humano seria capaz. Soltei um suspiro de alívio, mas meio segundo depois sua cabeça surgiu na porta com um sorriso travesso nos lábios.
─۫─̸ Sabe, dizem que foi assim que Rhysand se apaixonou pela Feyre, quando ela atirou um sapato nele....─۫─̸ Gritei de frustração e utilizando da telecinesia, fiz a porta fechar abruptamente na cara do demônio e mesmo assim, conseguia ouvir sua gargalhada do outro lado, assim como sua voz provocativa ─۫─̸ Boa noite coisinha cruel e travessa...
Por Deus primeiro, naquela noite eu cometeria um assassinato.
♡
O grande dia havia chegado; o quarto crescente havia mudado e não estávamos mais na lua nova, ou seja, Selene havia recuperado seus poderes e já podia realizar o feitiço. Os últimos dias resumiram - se a ficar na cama, assistindo crepúsculo junto com Mike, porque de acordo com a bruxa, eu precisava de toda minha energia para a ação e por incrível que pareça, o caído tinha um celular e este possuía sinal e internet? Quando questionei, ele simplesmente respondeu "quem precisa de energia quando há algo chamado mágica? Garota, eu sou até tik toker" e de fato, ele é. Mike e Roy foram essenciais nos últimos dias, tentando me manter confiante a todo momento e haviam conseguido, não havia outro resultado em minha mente, além do sucesso. Em poucos instantes, eu estaria com minha família, eu estaria com meu irmão, estaria com meu primo, eu seria completa. O colar estava quente sobre meu pescoço, quase como se adivinhasse o que nos reservava naquele dia e pela primeira vez, aceitei usar o traje ridículo, apenas porque o caído disse que ele aguentaria a magia e não se desintegraria como as roupas comuns, e nem de perto eu queria minhas blusas da Marvel arruínadas.
Me encarei uma última vez no espelho, e sai do cômodo, agarrando o objeto de ouro celestial sobre meu peito com força, tentando acalmar meu coração descompassado, tentando dizer para mim mesma que tudo ficaria bem ao fim do dia. Minhas mãos estavam suadas, e tremiam levemente, e a cada passo em direção a arena - local onde seria realizado o feitiço -, duvidava que conseguiria chegar sem desmaiar no meio do trajeto. Todavia, eu consegui e todos já estavam ali, esperando por mim. Diferente dos outros dias, não havia saco de pancadas, ou alvos espalhados pelo perímetro, na verdade um pentagrama estava perfeitamente desenhado no chão, e ao redor dele estavam os espectadores; as irmãs Whitmore, a corte infernal, e Roy. Todos nervosos, todos ansiosos.
─۫─̸ Bom, vamos logo com isso. Afinal, eu sou imortal, mas não sou paciente... ─۫─̸ Selene murmurou sem nenhum pingo de empatia, agarrando - me pelo pulso e direcionando - me para o centro do desenho ao chão. Arrisquei um olhar para meu melhor amigo, e percebi que a única coisa que o mantinha no lugar, sem me sequestrar e me tirar dali, era de fato, a minha vontade. Contudo, eu sabia que bastava um olhar meu, e ele não se importaria em desafiar o próprio Miguel para me salvar, abri um pequeno sorriso na direção de Roy que logo foi retribuído e senti meu coração se acalmar um pouco, apenas um pouco. Mike parecia prestes a vomitar, Sophia estava lixando as unhas, Lia não conseguia encarar meu rosto, Bethany e Brianna iriam auxiliar no feitiço, e ambas estavam ao lado da irmã mais velha. E por último, havia Nowa, com a coroa de escuridão sobre sua cabeça, sustentava uma expressão neutra, apática. Contudo eu sabia que aquela era apenas máscara habitual, mas seus olhos por sua vez, pareciam atormentados, divididos entre alívio e medo.
Mantive - me de pé, exatamente no lugar que a bruxa me colocou. Haviam diversas velas espalhadas pelo o local, e o trio carregava consigo ervas e flores exóticas, que eu jamais vi em toda minha vida. O sol brilhava no alto do céu azul, e era difícil imaginar que logo mais tudo mudaria, Adalasiah seria tomada pelo o caos dos libertos.
─۫─̸ Luna, eu preciso que você esvazie sua mente...─۫─̸ A bruxa do cabelo encaracolado começou a falar e ao mesmo instante, as três começaram a andar envolta, circulando - me. Apenas acenei com a cabeça, e fechei meus olhos porque somente assim conseguiria me desligar do ambiente a minha volta. Concentrei - me na brisa suave daquela manhã, no aroma da relva, no som dos pássaros ao longe, e apenas isso, nada mais. Eu sentia a presença das bruxas próximas à mim, juntas ─۫─̸ Deseje se libertar, deseje libertar seus entes queridos, deseje libertar todos, deseje quebrar todas as maldições...
Respirei fundo, fazendo exatamente o que Brianna havia dito. Eu desejei ser livre, desejei ter minha família outra vez, desejei sair do corpo humano e voltar para a forma original, desejei que todos os anjos fossem donos de si mesmo novamente. O trio começou a despejar as ervas e flores sobre mim, no entanto apenas ignorei, completamente concentrada em meu pedido para os céus, em meu pedido para Deus primeiro. Mesmo de olhos fechados, mesmo imersa em meus próprios pensamentos, eu senti quando as filhas da lua posicionaram - se, formando um círculo em minha volta, dando as mãos e em latim, começaram a proferir um feitiço e nesse instante, tudo mudou. O ar tornou-se mais rarefeito, e de repente, um vento forte dominou o local, erguendo - me do chão, e fazendo - me flutuar. Todavia, não tive medo ou receio e apenas aceitei.
O colar em meu pescoço tornou - se estupidamente quente, tão quente que sentia o mesmo queimando minha pele, mesmo sobre o traje, e mesmo assim, eu não deixei a dor me atrapalhar. Eu continuei desejando, continuei gritando para mim mesma que estava tudo bem. Minha família, os anjos, todos dependiam de mim. O poder começou a correr por minhas veias, mas não como nas outras vezes, dessa vez eu não o controlava e sim o contrário, e era tão forte, era um estupor tão grande, que me fez gritar. Ao longe, pensei ter escutado alguém gritar também, pedindo para parar, mas não havia tanta certeza em minha audição, tudo parecia estranho e eu sequer sentia - me como eu mesma; como Azura, porque na realidade, não era ela. Havia uma chuva de lembranças alastrando - se como fogo em minhas veias, desafiando - me, querendo entrar em meu coração, em minha mente, e eu os desejava, desejava com minha alma.
─۫─̸ Para com isso! Vai mata - la! ─۫─̸ A voz voltou a gritar. Seria Nowa? Roy? Mike? A dor junto com o poder fez - se presente e outro grito irrompeu pelo meu peito, mais alto e desesperador que o primeiro, quase como se algo quisesse ser livre dentro de mim. Eu estava tentando, juro que estava, porém doía tanto... A voz de Marcus ressoou na minha cabeça, tão clara quanto a própria luz do dia; " Você não é uma covarde Luna Gregori, não haja como uma, entendeu?", e eu não fui uma covarde. Eu cedi controle do meu próprio corpo, deixei que a dor e o poder alastra - se por cada célula guiando - me para um caminho de escuridão, sugando cada gota de energia que existia dentro de mim. Mais gritos e gritos, e de repente, o silêncio. As bruxas cessaram e ao mesmo instante, me senti caindo, todavia braços seguraram - me antes que tivesse contato com o chão, e abruptamente abri minhas pálpebras reconhecendo a figura diante de mim. Meu peito subia e descia rapidamente.
─۫─̸No-Nowa...No-Nowa...─۫─̸ O nome deslizou como uma prece pelos os meus lábios ensanguentados. Por que eu estava sangrando pela boca? Tive vontade de rir, parecia um maldito dejavu.
─۫─̸ Não dessa vez minha rainha...─۫─̸ O demônio murmurou com certa emoção nas íris azuis, as mãos do maior estavam ali, segurando - me com a mesma força e cuidado da primeira vez, quando ele me salvou da morte certa. Só que eu não estava morrendo, ou estava? Ergui os olhos para o céu, e vi algo movimentar - se, como uma estrela cadente, era lindo e ao mesmo tempo hipnotizante. Suspirei.
─۫─̸ Está vindo pra cá! Droga, tem algo vindo pra cá! ─۫─̸ Sophia. Houve uma comoção, e passos agitados, porém não prestava atenção, apenas olhava para aquele ponto que tornava - se cada vez mais próximo. O príncipe demônio cobriu meu corpo com o seu, e segundos depois um estrondo fez - se presente, tão forte que sacudiu a arena toda e levantou uma massa de poeira enorme, fazendo-me tossir. O príncipe me ergueu nos seus braços, levantando - me, e no momento que a poeira assentou - se, uma figura tornou - se visível. Um homem estava deitado ali, desmaiado há poucos metros de nós dois, no entanto não era qualquer umz aquele era Marcus Gregori, meu irmão.
─۫─̸ Ela conseguiu? Porra, ela conseguiu?─۫─̸ Mike perguntou fora de si, correndo até a figura caída no chão, provavelmente para averiguar seu estado. Tossi, e dessa vez ao erguer minha mão para limpar minha boca, pude vislumbrar meus pulsos; a pele sobre eles parecia rachada, quebrada e uma forte luz branca parecia escapar por aquele ferimento, deixando - me tonta.
─۫─̸ Nowa? ─۫─̸ Chamei e o demônio dedicou - me um olhar aflito ─۫─̸ Eu não me sinto...─۫─̸ Não tive tempo para completar a frase, pois no instante seguinte, a escuridão me dominou.
♡
Eu tô chocada, passada. E vocês? Digam olá para Marcus Gregori meus amores!
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