XI - Rainha
Azura
Estávamos em frente ao apartamento outra vez, ambos com a respiração ofegante e desta vez havia uma porta devidamente colocada, como se sempre estivesse ali, pelo menos Roy e Sophia haviam feito um ótimo trabalho. Adentramos o imóvel e Nowa logo tratou de trancar o local, mesmo que eu acreditasse que uma fechadura comum não iria deter três demônios enviados diretamente pelo o diabo.
A sala estava vazia, mas não permaneceu assim por muito mais tempo, logo surgiu o caído e ao deparar- se com nossa expressão, ficou preocupado. Atrás dele veio Lia, Sophia, e a maldita bruxa; Selene. Até então minha amiga parecia não possuir ferimento nenhum, como se a situação de horas atrás nunca houvesse acontecido, todavia Whitmore estava usando uma regata preta, deixando visível o curativo sobre o ferimento em seu ombro, estava torcendo para que lhe deixasse uma cicatriz estupenda.
─۫─̸ O que rolou? Cadê as compras? ─۫─̸ Roy perguntou com os braços cruzados, encostando - se em uma parede do outro lado da sala.
─۫─̸ Temos que sair daqui...─۫─̸ Nowa respondeu olhando diretamente para seus irmãos, para a sua corte. Eles não precisavam de uma explicação para entender o que havia ocorrido, se conheciam como a palma da própria mão, eu conseguia entender esse tipo de conexão, a mesma que tenho com Roy.
─۫─̸ Droga! Vou recolher o necessário...─۫─̸ Mike resmungou virando - se novamente para os quartos. Sophia por sua vez, parecia mais pálida que o normal; ela é um infernal assim como Nowa, então se estavam atrás dele, provavelmente também estavam atrás dela.
─۫─̸ O que houve afinal? ─۫─̸ Roy insistiu apreensivo. Selene retirava uma sujeira imaginária das unhas, me irritava a maneira como ela tentava permanecer alheia a tudo.
─۫─̸ Lia ajude Mike, precisamos voltar para Adalasiah o mais rápido possível...─۫─̸ O demônio ordenou com uma voz severa, completamente diferente do homem que visualizei no mercado.
Ali ele não era meu "amigo", ele era um príncipe e possuía vidas dependendo de si. A vampira concordou com a cabeça, as mãos atrás do corpo como uma perfeita soldada. Eu estava preocupada com a loira, queria ter certeza se ela estava bem, no entanto sabia que aquele não era o momento ideal para lhe perguntar algo do gênero, ela não podia demonstrar fraqueza na frente dos demais, principalmente na frente da sua inimiga. Mas, limitou - se a um pequeno sorriso em minha direção que fez meu coração acalmar - se, logo em seguida saindo da sala, indo atrás de Mike.
─۫─̸ Fomos encontrados, por demônios...
─۫─̸ Demônios? Por que? ─۫─̸ Roy perguntou outra vez.
─۫─̸ Quantos? E quem? ─۫─̸ Sophia.
─۫─̸ Dois subordinados e Salazar...─۫─̸ Nowa respondeu passando a mão no rosto ignorando propositadamente Gardier, se por implicância ou nervosismo, eu não sabia. Contudo, a atenção do príncipe focou - se em outra pessoa presente na sala e ele abriu um sorriso macabro encarando - a, era Selene; a bruxa que mantinha - se estranhamente desinteressada na conversa ─۫─̸ Você sabia disso, não é?
Encarei a situação com surpresa, por que ela saberia do ataque? Porém, a moçoila não parecia nada comovida ou intimidada e até mesmo arriscou por uma mão sobre o peito, como se estivesse ofendida.
─۫─̸ Como eu poderia saber? ─۫─̸ Havia certa ironia no tom de Whitmore e a sombra de um sorriso em seus lábios.
─۫─̸ Se Salazar está aqui, temos que sair o mais rápido possível Nowa, ele não vai desistir! ─۫─̸ A succubus murmurou atraindo a atenção de todos os presentes, era a primeira vez que a via dessa forma; desesperada.
Recordei dos fios ruivos, do ar de superiodade do homem e dos seus olhos tomados pela escuridão e um arrepio dominou meu corpo, ele não parecia ser qualquer demônio. Queria a liderança e por tudo o que já havia descoberto sobre aquela vida estranha, esses são os sujeitos mais perigosos.
─۫─̸ Não temos tempo para fazer o feitiço aqui... ─۫─̸ Sophia completou com pesar, fazendo - me recordar do maldito objetivo de estar ali. Whitmore deveria quebrar a maldição, deveria me fazer voltar para a forma celestial e reaver meus poderes, assim eu libertaria todos os anjos escravizados por Miguel.
─۫─̸ Ah com toda certeza não Andrômeda...─۫─̸ Selene cantarolou com veneno em sua voz. Quem era Andrômeda?
Sentia - me perdida no meio de tanta gente, parte de mim estava aliviada por voltar para Adalasiah, pois o apartamento é minúsculo em comparação ao castelo, e parecia comprimir todos dentro dele. Sophia lançou um olhar irritado na direção da manceba, um olhar que parecia dizer "Cite novamente esse nome e eu arranco seus pulmões", preferi manter minha curiosidade comigo. Perguntaria para Roy depois, em um momento mais calmo, ele deveria saber de algo.
─۫─̸ Principalmente por hoje ser lua nova ─۫─̸ A manceba estalou a língua no céu da boca ─۫─̸ Os poderes das bruxas mudam de acordo com a fase lunar, sabia? Na lua nova é quando estamos mais fracas, com pouca magia...─۫─̸ A voz da mulher era dotada de um falso pesar, e até mesmo uma expressão triste, desolada ─۫─̸ E acho que usei tudo quebrando os ossos da Lia...
Nowa riu, um riso baixo que aos poucos foi tomando uma proporção maior, tornando - se sinistro. Um riso de um matador. Suas íris azuladas sumiram, e de repente parecia que até mesmo o sol havia se afastado do ambiente, parecia que toda a luz estava sendo sugada para ele enquanto aproximava- se da bruxa perigosamente, algo me dizia que ele não teria piedade. Talvez fosse impressão minha, mas conforme ele andava, uma coroa forjada de sombras parecia sumir e aparecer sobre sua cabeça. Linda e mortal, assim como ele.
─۫─̸ Isso tudo foi premeditado por você. Todo esse tempo, tinha ciência do que iria acontecer caso ela viesse para cá...
─۫─̸ Claro que sim príncipe, eu sou uma parca, recordar - se?
Roy moveu - se para o meu lado, segurando minha mão e dedicando-me um olhar demorado, eu conhecia aquele olhar, ele queria dizer que tudo ficaria bem. Acenei com a cabeça em concordância, porque de fato, não estava com medo, apenas curiosa. Parca não era uma palavra estranha pra mim, principalmente pelo fato de amar mitologia grega e ser uma leitora árdua desde a infância, obviamente em algum ponto da vida li PJO e HDO também, só estava criando coragem para ler os livros sobre Apollo.
─۫─̸ A aura dela é como um farol fora de Adalasiah, certamente vamos ter companhia em breve, e acredito que não serão somente demônios procurando por você...
─۫─̸ Por que agora? ─۫─̸ Perguntei com o cenho franzido. Aquilo era culpa minha? Eu já estive fora de Adalasiah antes e não havia sido atacada. Contudo, bastou um olhar da bruxa para meu pescoço para entender; o colar, agora eu o possuía, eu utilizava meus poderes.
─۫─̸ Ela te usou como isca, para pôr todos propositadamente em perigo...─۫─̸ Nowa explicou em um fio de voz, ele parecia desesperado ─۫─̸ Mas, não foi só isso, ela queria você aqui! Você queria Luna aqui! Porra, por que você fez isso? Por que coloca - la em perigo? ─۫─̸ O príncipe demônio agora gritava com a mulher, completamente descontrolado, parecendo perto de ruir ─۫─̸ Ela poderia morrer...
Os gritos atrairam o restante dos presentes no apartamento; as irmãs de Selene, o homem estranho, Lia e por fim, Mike com todos os nossos pertences, minha mochila sequer fora aberta. O caído parecia entender o porquê Nowa parecia tão fora de si e segurou o mesmo antes que ele tentasse algo contra a bruxa, eu conseguia ver os músculos flexionados mesmo sobre o tecido da roupa. Mike não conteria ele por muito tempo.
─۫─̸ Você sabe o porquê meu príncipe. Ela é a única que pode me dar o que eu quero...
─۫─̸ E o que seria isso? Diga e eu faço! Anda! ─۫─̸ Respondi exasperada, porque odiava a situação, odiava que qualquer um deles estivesse em perigo por minha causa e não iria prolongar isso por muito mais tempo.
─۫─̸ Não! Luna, não...─۫─̸ Mike implorou ainda segurando o demônio, apreensivo. Mas estava tudo bem, eu não arriscaria mais ninguém.
─۫─̸ Parem de me tratar como a vilã! ─۫─̸ Selene gritou fora de si ─۫─̸ Vocês já pararam para pensar que apenas queremos o mesmo que vocês? Um lugar seguro, um lugar que minhas irmãs e eu possamos ser livres! ─۫─̸ Pela primeira vez a manceba parecia demonstrar algum sentimento. No outro canto da sala, a garota mais nova olhava para o chão, enquanto a dona do cabelo encaracolado encarava a parede. Ambas pareciam envergonhadas por admitir uma fraqueza ─۫─̸ Queremos um lugar em Adalasiah. Minhas irmãs, Edward e eu, apenas isso...
─۫─̸ Mas...─۫─̸ Era Roy, parecendo tão confuso quanto eu ─۫─̸ Azura não tem como fazer isso, a cidade escolhe, não ela...
O silêncio recaiu sobre o local, seguido de um estrondo. Sophia havia apanhado um dos vasos de decoração e chocou contra a parede estilhaçando - o. Seus olhos brilhavam com uma fúria contida.
─۫─̸ Adalasiah!!! É tudo sobre isso? Você quer a porra de um lugar no paraíso? ─۫─̸ A succubus gritou com ódio, Selene deu de ombros ─۫─̸ Aquele lugar não é seu para profanar! Ele não é seu!
─۫─̸ E nem seu...─۫─̸ Selene murmurou desinteressada. A mágoa dominou as feições da succubus, ela poderia ser fria e calculista como sempre tentava demonstrar, porém aquele lugar importava, era seu bem precioso.
─۫─̸ Não vamos profana - lo...─۫─̸ A mais nova das três irmãs entrou na conversa, intervindo em um conflito aparente, ela deu um passo a frente com as bochechas vermelhas ─۫─̸ Eu dou minha palavra...
As outras duas irmãs reviraram os olhos, contudo eu sabia que também cumpririam a promessa, apenas eram orgulhosas demais para admitir.
─۫─̸ E o que tudo isso tem haver comigo????
─۫─̸ Adalasiah inicialmente era um anjo, um querubim...─۫─̸ Nowa pronunciou - se, suas orbes voltando ao azul habitual.
Eu lembrava da história, por conta da carta. Mike finalmente o soltou, sentindo que ele não mataria mais a bruxa. Além da história, eu também lembrava da expressão de dor e perda no demônio quando encontrei ele nas catacumbas e não queria obriga - lo a reviver nada daquilo. Sua verdadeira identidade, e a perda do seu grande amor, não é um segredo meu para ser revelado para estranhos.
─۫─̸ Eu sei, eu sei a história...─۫─̸ O interrompi de forma apressada. A corte parecia respirar aliviada por não precisar menciona -la, todos pareciam imersos em uma dor profunda, em luto. Então entendi que um dia, os três já foram quatro. Adalasiah fazia parte deles, tanto quanto agora eles faziam parte dela.
─۫─̸ Como a casta que fundou a cidade foi a dela, somente um querubim pode reinar...─۫─̸ Mike murmurou desviando do meu olhar. Todos os três pareciam tão machucados, a tristeza naquele cômodo era tanta que parecia quase palpável. O colar em torno do meu pescoço começava a queimar, e os sentimentos tremulavam em volta assim como as lembranças...
Havia uma garota com um grande sorriso gentil e olhos azuis...
Havia felicidade...
Era a forma mais simples de descreve - la.
Linda, pura, feliz e assassinada. Todos os três culpavam- se de maneiras diferentes e iguais, todos eles preferiam ter tomado seu lugar.
─۫─̸ E a única querubim existente, é você Luna. Sua linhagem é a única sobrevivente... ─۫─̸ Nowa sentenciou retirando - me dos devaneios ─۫─̸ Por isso sua família auxiliou na construção do reino, eles estavam construindo o seu castelo, o seu reinado, porque um dia, você seria coroada rainha de Adalasiah...
Desde o momento que deixei Florença e acordei em Adalasiah, eu fui surpreendida vários pares de vezes, atordoada com informações diversas, com um nove nome, com uma nova história, com uma maldição para quebrar, e com meus familiares para resgatar. E justo no momento que eu sentia que tudo enfim estava encaixando -se, o destino parecia rir da minha cara dizendo não. Pois, Luna Gregori não apenas salvaria o dia, ela também iria ser rainha, aquele lugar que eu me sentia tão avontade, seria seu lar.
A fae no banheiro já sabia...
Todos sabiam...
Pisquei uma, pisquei duas, pisquei três vezes e respirei fundo.
─۫─̸ Adalasiah escolhe quem entra na cidade ou não, e você tem o mesmo poder...─۫─̸ Selene finalmente entregou o objetivo de todo o seu plano ─۫─̸ Me conceda passagem segura e o feitiço será desfeito...
─۫─̸ Eu não...─۫─̸ Comecei a falar sentindo o ar sumir dos meus pulmões. Não era uma decisão minha para ser tomada, porque no fim das contas, eu nunca a conheci, não era justo que eu portasse tal responsabilidade ─۫─̸ As pessoas de lá, você vai querer feri - las, elas são boas...─۫─̸ Na minha mente a imagem da pequena fae me ajudando surgiu, como eu poderia corromper tamanha pureza?
─۫─̸ Ela não vai, não vamos....─۫─̸ A irmã mais nova voltou a interferir, e dessa vez as demais concordaram com a cabeça.
Lia parecia prestes a entrar em colapso e eu entendia o motivo, aquele era seu lar e aquelas pessoas eram seu passado, como eu poderia trai - la? No entanto, ao encarar Nowa - a pessoa que eu pensei que mais fosse me julgar, na verdade ele parecia calmo, e bastou um aceno de cabeça para que eu entendesse que confiava em mim.
─۫─̸ Independente da sua escolha Luna...─۫─̸ Era Mike. Ele jogou a mochila em minha direção, e logo a apanhei no ar, colocando as alças sobre meus ombros ─۫─̸ Estamos com você, mas seja rápida, eles já estão no prédio...
Droga! Quem estaria ali? Os demônios ou coisa pior? Não havia tempo para pensar, ou ter medo. Mike tinha razão, eu precisava ser rápida se quiséssemos uma chance e isso não aconteceria sem a bruxa.
─۫─̸ Como eu faço? Como eu concedo a passagem?
─۫─̸ Azura, não...─۫─̸ Eu sabia que Roy estava temeroso e tenso ao meu lado, lhe dediquei um mínimo sorriso e apertei sua mão. Ele passou toda a minha existência me defendendo, acho que ainda não entendia que eu estava aprendendo a fazer isso por mim mesma, mas iria perceber. O anjo suspirou, vencido.
─۫─̸ Apenas fale seus nomes, e diga que permite sua entrada, e vamos dar o fora daqui ─۫─̸ Sophia murmurou emburrada, apanhando os próprios pertences.
─۫─̸ Ok, e quais são eles?
─۫─̸ Selene, Brianna e Bethany Whitmore. E, meu dependente, Edward...─۫─̸ A bruxa respondeu com suavidade e satisfeita, afinal havia ganhado.
Que ironia, um vampiro com nome de Edwardl! Contive minha língua e apenas limitei - me a um olhar na direção de Mike, este parecia prestes a explodir em uma gargalhada, pelo menos serviu para afastar a tristeza de suas orbes. Nem em caso de vida ou morte o caído parecia abrir mão do humor.
─۫─̸ Eu concedo passagem para Edward, Selene, Brianna, Bethany e todos os presentes dentro deste lugar...─۫─̸ Disse em voz baixa, oferecendo minha outra mão para a pessoa ao meu lado; Nowa e ele logo fez o mesmo, em poucos segundos, todos estavam de mãos dadas, brilhando em expectativas e ansiedade. E se estiverem errados? E se eu não tiver tal poder? A vergonha inundou - me, tornando minhas bochechas rubras.
Eu não imaginava o que iria acontecer, pensava que não seria nada demais ou que não ocorreria nada. Contudo, uma forte luz dominou todo o ambiente, tão forte que foi necessário que eu fechasse minhas pálpebras. Novamente a sensação de estar fora de órbita fez - se presente, quando senti novamente o chão abaixo dos meus pés e abri meus olhos, não estávamos mais em Nova York, estávamos de volta em Adalasiah. A corte infernal estava contente, feliz por estarem em casa.
E as bruxas...
Elas pareciam...livres.
♡
Estava no meu quarto, abraçando meus próprios joelhos. Na minha frente havia minha pilha de livros, todos com dedicatória do meu pai; Adam, e desde minha chegada, não tive coragem para abri - los e relê - los, mesmo que soubesse cada palavra.
De modo geral, não estava triste, mas talvez confusa? Eu tinha um objetivo para realizar, e daria sempre cem por cento de mim, porém e o depois? Eu imaginava que tudo terminaria ali e eu poderia fazer o que quisesse, poderia escolher minha história, meu nome, minha vida. E se eu não pudesse?
A reunião logo após a chegada ainda ressoava em minhas lembranças. A bruxa foi engenhosa, ela enganou todos atraindo - me para o mundo mortal, dessa forma eu lhe concederia passagem para Adalasiah. A lua nova era a fase que elas tornavam - se mais fracas e não poderia realizar o feitiço até a próxima lua, quando haveria o retorno de seus poderes, dessa forma ela sabia que não iria ser descartada no momento que pisasse aqui. Lia foi encarregada de arranjar quartos para todos, Roy disse que precisava de um momento para ajeitar seus pertences em seu próprio quarto e eu estava aqui...
Perdida? Odiava me sentir assim novamente e no fim de tudo, eu esperava descobrir quem sou. Erguendo minha mão, abri o primeiro livro próximo e apanhei a carta que havia ali, o pedaço de papel familiar sobre meus dedos, as palavras gravadas na minha alma, os dizeres da minha primeira reencarnação, Luna Gregori.
─۫─̸ Eu não sou você, e você não sou eu...─۫─̸ Murmurei citando as palavras que continham ali e continuei encarando o papel esperando que a resposta surgisse diante dos meus olhos ─۫─̸ Então como posso viver seus sonhos? Como posso sequer pensar em ser rainha um dia?
─۫─̸ Ela não sonhava com a coroa...─۫─̸ A voz de Nowa preencheu o ambiente pegando -me desprevenida, e rapidamente escondi o papel sobre o título mais próximo, minhas bochechas corando fortemente. Era uma droga saber que minha privacidade poderia ser invadida a qualquer momento e por qualquer um graças a Mike. Apesar de manter uma expressão séria, os olhos do demônio estavam gentis ─۫─̸ Desculpe por te assustar...
─۫─̸ Tudo bem, eu acho...─۫─̸ Tentei não parecer afetada enquanto colocava uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, afastando os livros de mim com suavidade, não queria que ele fizesse perguntas sobre, mesmo que imaginasse que foi ele o responsável por trazer meus livros. O mancebo deu um passo em frente, suas orbes vagando pelo cômodo, estudando cada detalhe. Desde a minha chegada, não havia mudado muita coisa, e nem adicionado nada, exceto meus itens pessoais.
─۫─̸ Você deveria decorar, assim se sentirá mais em casa...─۫─̸ Ele comentou colocando as mãos dentro do bolso da calça. Na verdade eu já me sentia em casa, mais do que qualquer vez me senti em Florença e mesmo lá, minha única decoração consistia em um crucifixo que encarava - me com deboche todos os dias ─۫─̸ E por que você não tem uma porta?
─۫─̸ Mike derrubou. Ele quebrou meu nariz e eu não queria recebê- lo, então...─۫─̸ Revirei os olhos recordando - me da situação, uma pequena risada escapou dos lábios do demônio. Será que ele receberia um relatório dos meus fracassos?
─۫─̸ Mike como professor, é um ótimo lutador...─۫─̸ Um pequeno sorriso surgiu em meus lábios, porque era verdade. Apesar do caído se esforçar, ensinar não era sua vocação. Nowa parecia desconfortável e tímido e eu não queria tornar sua visita em uma empecilho.
─۫─̸ O que você quis dizer com "Ela não sonhava com a coroa"? ─۫─̸ Perguntei curiosa.
─۫─̸ Eu posso te levar em um local? E aí responderei sua pergunta...─۫─̸ Nowa logo pigarreou com a voz incerta ─۫─̸ Não iremos demorar...
Talvez fosse por conta da dúvida que ressoava em minha mente. Talvez pelo fato de não querer ficar só, ou talvez apenas porque apreciei a presença do maior no supermercado, eu acenei com a cabeça, levantando - me da cama, e segui o príncipe demônio para fora dos aposentos.
♡
Caminhavamos em silêncio, próximos um do outro e o único som que ressoava era o dos nossos passos sobre o piso de pedras. Todavia, aquele era um percurso que eu não conhecia e os corredores estavam mais largos, permitindo a passagem de pelo menos dez homens, lado a lado facilmente.
Apesar de não emitir nenhum som, o demônio não parecia desconfortável, ele ainda mantinha as mãos em seus bolsos e um sorriso descontraído nos lábios, e eu não fazia ideia de onde estávamos indo. Contudo, aproveitei do momento para observa - lo melhor. Nowa possuía um rosto jovial, mas também o peso de milênios em seus olhos; uma postura ereta quase inumana, fios despenteados e molhados como se estivesse saído do banho há pouco tempo e os olhos azuis escuros, e fascinantes.
─۫─̸ Apreciando a vista? ─۫─̸ A voz do demônio retirou - me do estupor e pela segunda vez desde o encontro no quarto, minhas bochechas coraram.
─۫─̸ Na verdade não há muito para ser apreciado...─۫─̸ Respondi dando de ombros. Eu poderia cair, porém cairia plena. A risada do maior foi sua resposta.
─۫─̸ Selene não estava mentindo quando disse que precisava de outra fase lunar para quebrar a maldição, não é algo simples e provavelmente ela vai precisar de suas irmãs para o ato...─۫─̸ Qualquer sombra de humor que havia na voz do mais velho, sumiu ─۫─̸ Precisamos de pelo menos mais sete dias para entrar no quarto crescente, e aí poderemos trabalhar o feitiço...─۫─̸ Nowa explicou tudo com uma calma singela, ele não aparentava ser aquele homem que mataria Selene na sala do apartamento sem pensar duas vezes ─۫─̸ Até lá, queremos que continue seus treinos. Mas dessa vez, irá evoluir para o uso de armas e eu serei seu professor, tudo bem para você?
Não, não estava nada bem. Nowa é diferente de Mike, e apesar do segundo ter a tendência de rir dos meus erros, eu me sentia mais a vontade em sua presença. Porém, eu sabia que não tratava - se do melhor para mim e sim para a situação. O príncipe demônio provavelmente possuía mais experiência em lecionar. Acenei em concordância, e ele sorriu.
─۫─̸ Ótimo, você já pode escolher uma arma...
─۫─̸ Vamos treinar agora? ─۫─̸ Especulei confusa, afinal ele havia dito que não iríamos demorar e aquele não era o percurso para a arena.
─۫─̸ Não, mas você pode escolher Luna. Qualquer coisa, escolha e eu te ensino...
─۫─̸ Qualquer coisa? ─۫─̸ Perguntei por reflexo e o demônio sorriu malicioso.
─۫─̸ Qualquer coisa Luna Gregori, eu nunca iria me opor aos desejos de uma futura rainha... ─۫─̸ O demônio murmurou colocando a mão sobre o peito em um gesto nobre. Ergui o dedo do meio na direção do mesmo.
─۫─̸ Você é um idiota!
─۫─̸ E você possui a mente poluída e não respondeu, quer que eu escolha por você? ─۫─̸ Ele ronronou e revirei os olhos, dizendo a primeira coisa que me veio a mente.
─۫─̸ Arco e flecha...
─۫─̸ Uma vibe Katniss Everdeen, Feyre Archeron e Jude Duarte? ─۫─̸ Fechei os olhos e respirei fundo para não pular no pescoço de Nowa. O som da sua risada expandindo - se no corredor, pelo visto ele adorava me irritar utilizando livros.
─۫─̸ Idiota... ─۫─̸ Respondi empurrando o ombro do príncipe, no entanto também existia a sombra de um sorriso em meus lábios.
♡
Paramos em frente a duas portas enormes de madeira com desenhos entalhados na superfície, contando a história de Adalasiah, como tudo teve início. Uma garota caindo dos céus, o corpo chocando - se ao chão e dando início ao reino. Era lindo, e incrível.
Nowa empurrou as duas portas que logo abriram-se sem grande esforço, e assim pude vislumbrar o grande salão diante de nós. Era enorme, deslumbrante e a coisa mais nobre que visualizei em toda minha existência, também parecia vazio. Dei passos incertos para dentro, e Nowa me seguiu observando meus movimentos. Meus olhos vagaram por todo o espaço, e as paredes eram tomadas por grandes vidraças, de onde era possível observar todo reino estendendo - se ao redor do castelo. Exceto por uma. Nessa parede em específico jazia um retrato enorme de uma garota bela, com grandes olhos verdes e um sorriso inocente, e não precisava de apresentação alguma para saber quem era; eu estava diante de Adalasiah.
─۫─̸ Como ela era? ─۫─̸ Não consegui conter minha curiosidade enquanto a encarava. Ela parecia estar feliz e não conseguia visualizar a manceba de outra forma.
─۫─̸ A criatura mais doce que tive o prazer de conhecer...─۫─̸ Nowa sussurrou ficando ao meu lado, também encarando o retrato ─۫─̸ Ela não desejava coroa alguma, só desejava ser livre. Nem céu e nem inferno, o único pecado de Adalasiah, sempre foi escolher o amor...─۫─̸ Havia tanta dor em suas palavras que tornava - se quase palpável. Como deveria ter sido perder a mulher da sua vida? Estar tão próximo e ao mesmo tempo tão distante ─۫─̸ Ela amou antes da maldição, amou quando mais ninguém fazia isso. E esperou que retribuissem seu amor...
─۫─̸ Ela conseguiu, não é?
─۫─̸ Ela conseguiu...─۫─̸ O demônio murmurou com um sorriso triste, fazendo uma reverência ─۫─̸ Sempre vai ser amada, mesmo quando nossos corações forem pedras...
─۫─̸ Eu não posso tomar o lugar dela Nowa, não mereço...─۫─̸ Era verdade, eu não me perdoaria se manchasse a imagem da querubim.
─۫─̸ Sempre digo que vocês não são a mesma pessoa, mas já estive em pé aqui antes, ouvindo essas mesmas palavras em uma outra vida sua...─۫─̸ Ele comentou disperso em memórias ─۫─̸ E assim como ela, você está errada. Adalasiah te escolheu e ela sempre escolhia as pessoas certas para amar, aquelas que mais precisavam...
Suspirei voltando a encarar o retrato da moiçola, perguntando-me se ao escolher Luna Gregori, ela tinha ciência da maldição, tinha ciência do que aconteceria depois e que de uma forma ou outra, seria outra no seu lugar.
─۫─̸ Não peço que você aceite a coroa agora, tampouco o povo lhe pede isso, eles sabem da maldição...─۫─̸ Nowa explicou com calma ─۫─̸ Mas pense sobre, ok? Daqui dois dias haverá uma grande festança no vilarejo, irão celebrar a chegada da primavera e a corte irá comparecer...─۫─̸ O maior segurou meus ombros, virando -me para o outro lado do salão; onde um trono imponente e reluzante estava devidamente colocado. Um trono vazio há muito tempo ─۫─̸ Seria legal você comparecer Luna, eles desejam conhecer a futura rainha...
♡
Depois da curta visita a sala do trono, me despedi do príncipe demônio e segui outra vez para o meu quarto, ponderando sobre todos os acontecimentos daquele dia maluco. Meus músculos estavam cansados apesar de não ter feito treino algum, todavia era como se tivesse carregado um milhão de pesos e na verdade acho que ainda estavam ali comigo, um milhão de dúvidas, medos, e receios.
A primeira coisa que fiz ao chegar nos meus aposentos, foi tomar um longo e relaxante banho, expulsando qualquer tipo de memória do dia da minha mente, Nowa havia prometido resolver o problema da porta no dia seguinte, e depois de vestir meu pijama do homem aranha e calçar minhas pantufas, a única coisa que eu desejava realmente, era minha cama. Porém, ao sair do banheiro, encontrei uma pessoa esperando - me no meio do cômodo, um pequeno sorriso nos lábios que era impossível não retribuir; Roy Gardier.
─۫─̸ Terminou de arrumar seus pertences? ─۫─̸ Perguntei aproximando - se do maior e na ponta dos pés, deixei um beijo sobre a sua bochecha. O anjo colocou suas duas mãos sobre minha cintura, segurando - me ali junto com ele. Calor irradiou por minha face e senti meu rosto corar fortemente. Os olhos de Roy deslizavam por todo meu corpo e detinham - se em meus lábios, e quando achei que ele me beijaria, apenas colou sua testa a minha, mantendo - me com ele.
─۫─̸ Nunca mais quero ficar longe de você Azul, nunca mais...─۫─̸ Ele sussurrou abraçando - me, o que me fez sorrir contra a curva do seu pescoço, porque eu o entendia. Não estávamos completos um sem o outro.
Roy e eu nunca seríamos apenas amigos comuns, nunca fomos. Ele é a minha âncora, aquele que me manteve de pé quando eu mesma já não conseguia mais. O garoto que levou um soco por me defender e se fantasiou de catchup quando eu era a mostarda. A lembrança me fez rir, e ele me encarou curioso, ainda abraçados, escutando os batimentos um do outro, o mesmo ritmo.
─۫─̸ Lembrei da festa a fantasia quando tínhamos cinco anos...─۫─̸ Respondi com certa nostalgia. Éramos jovens - pelo menos eu e desde ali, Gardier sempre sabia o que fazer para me animar, para colorir meus dias preto e branco.
─۫─̸ Foi péssimo. E no fim jogaram ovos podres em nós dois, Adam precisou nos buscar...─۫─̸ Ele resmungou irritado e por um instante meu sorriso vacilou. Adam; meu pai. Céus, eu sentia tanta falta dele, a saudades enraizava- se nos meus ossos. Roy notou a súbita mudança no clima, e segurou em meu rosto fazendo - o encarar ─۫─̸ Ele foi um bom homem, certo? ─۫─̸ Concordei com a cabeça sentindo as lágrimas nublarem minha visão.
─۫─̸ Ele foi o melhor... ─۫─̸ Respondi deitando minha cabeça sobre o peito dele. Sua canhota passeava por meus fios castanhos de forma tão familiar, e fazia tanto tempo desde nosso último momento sozinho; um mês longe um do outro e ele permanecia sendo o único que me chamava de Azul... ─۫─̸ Roy? ─۫─̸ O anjo encarou - me com curiosidade ao ouvir o chamado.
─۫─̸ Sim?
─۫─̸ Você odiava minhas outras vidas? Ou de fato, não valiam nada para você?
O anjo parou de realizar o movimento com a mão abruptamente e ficou mais pálido. Por alguns instantes, achei que ele nada diria, que de alguma forma aquela pergunta lhe machucou. Mas, era meu direito saber, não é? Era minha história para ser contada. Ele afastou - se, sentando sobre a cama, e logo sinalizou para que eu fizesse o mesmo, então me sentei ao seu lado, segurando em sua mão.
─۫─̸ Não trata - se de você, ou de suas outras vidas. Era eu...
─۫─̸ É uma desculpa um tanto clichê, hum? ─۫─̸ Ele riu, mas o riso logo morreu, dando lugar a uma tristeza que nunca havia vislumbrado nos olhos de Roy.
─۫─̸ Eu fui escravizado Luna, com seus poderes... ─۫─̸ Era a primeira vez que ele me chamava por esse nome desde quando chegamos em Adalasiah ─۫─̸ Você sabe como é? ─۫─̸ Neguei com a cabeça, porque de fato eu não sabia. Apenas havia experimentado gotas do poder de acordo com Lia e Mike, não a totalidade ─۫─̸ É como está ali e ao mesmo tempo não estar, sabe? Você é expectador da sua própria vida, das suas decisões e dos seus atos... ─۫─̸ O olhar caiu sobre nossas mãos entrelaçadas ─۫─̸ Eu fiz coisas...
─۫─̸ Mas não era você no controle...─۫─̸ Argumentei, porque de fato não era.
─۫─̸ E mesmo assim, isso não diminui a culpa... ─۫─̸ Ele respondeu com a voz tomada pela tristeza. Meu próprio coração doía com a cena, porque era a primeira vez que visualizava Roy daquela forma. O anjo sempre foi o amigo divertido, aquele que ria até mesmo nos piores momentos para me fazer sorrir. Contudo, será que ele não era o mais quebrado? ─۫─̸ Quando Darck me escolheu e deslizou o anel sobre meu dedo, não tive tempo para raciocinar. Eu tinha um plano, um propósito e ele morreu nos meus braços...─۫─̸ Roy desfez o toque sobre meus dedos levantando - se da cama, andando de um lado para o outro ─۫─̸ Eu fiquei perdido, desolado e com tanta culpa. Não só pelo fracasso e sim por tudo o que eu fiz, eu sou um monstro...
─۫─̸ Roy, Não! Você não é! ─۫─̸ Rapidamente fiquei diante do maior, voltando a segurar em suas mãos, e por mais que ele tentasse, eu não desfiz o toque sobre ele. Queria que ele entendesse, eu nunca o abandonaria, independente de tudo. Tantos anos, e eu nunca percebi como ele se via ─۫─̸ És incrível. Inteligente, protetor, altruísta, e salvou minha vida inúmeras vezes, como poderia chamar meu salvador assim? O único monstro é aquele que te escravizou, aquele que roubou meus poderes e te fez fazer essas coisas, você é uma vítima...
─۫─̸ Eu não te mereço, nunca te mereci. Foi por isso que nunca me aproximei, porque eu sou sujo, e você é luz... ─۫─̸ Ele admitiu com lágrimas nos olhos ─۫─̸ Você estava sempre tão cercada de amor, de vida, de alegria. Como eu poderia manchar sua curta felicidade com minha escuridão?
─۫─̸ Eu poderia ter iluminado sua existência...
─۫─̸ Você fez isso... ─۫─̸ Roy garantiu ─۫─̸ Sempre diferente Azul, tinha algo de diferente desde o inicio e eu notei. Diferente das outras, era sozinha, e solitária, como eu... ─۫─̸ Ele murmurou com vergonha ─۫─̸ Por favor não me odeie, porém você e eu éramos iguais, e por isso eu me aproximei, eu queria alguém que me amasse, e essa era você Azul...─۫─̸ A mão do mais velho deslizou por minha bochecha, limpando uma lágrima que eu sequer havia notado ─۫─̸ Quem mais seria capaz de amar um monstro?
─۫─̸ Roy... ─۫─̸ Tentei argumentar, porque era o que ele fazia por mim, sempre quando não me achava boa o suficiente para o mundo a nossa volta, ele me fazia ver de outra forma, me dava esperanças.
─۫─̸ Um dia, não existirá mais segredos entre nós, você me conhecerá em cada mínimo detalhe... ─۫─̸ Ele murmurou beijando minha testa, o que me fez fechar as pálpebras ─۫─̸ Quando esse dia chegar, se você ainda quiser, eu permanecerei aqui anjinha...
─۫─̸ Eu nunca me afastaria de você, sempre estaremos juntos, pela eternidade...─۫─̸ Era a verdade do meu coração. Independente dos acontecimentos, eu estaria ali por Gardier, sempre... ─۫─̸ Nunca abandonar ok? Nunca esquecer?
Gardier me abraçou com todas as suas forças, desfazendo - se em lágrimas e eu sabia que aquela era a primeira vez que ele chorava, desde sua chegada na Terra.
─۫─̸ Juntos...─۫─̸ Ele respondeu com mais convicção ─۫─̸ Nunca abandonar, nunca esquecer...
O lema dos Gregori's, o lema da minha família.
♡
Naquela noite, dividimos a cama como nos tempos antigos, abraçados como as duas criancinhas que um dia fomos. Dessa vez, eu limpei as lágrimas e eu fiz carinho em seu cabelo até que ele adormecesse, eu fui a amiga que ele merecia.
Naquela noite eu também não consegui dormir, pensando em como seria quando libertasse todos aqueles em cima, estariam tão quebrados quanto Gardier? Como iriam superar seus traumas e não me culpar pelo o que ocorreu? Eu mesma me culpava.
Roy admitiu que por um curto período, ele também me culpou e até tentou destruir o colar, até começar a culpar a si próprio por todos os erros. Eu não queria mais isso, não queria me desculpar por algo que não pedi e também não queria que eles se culpassem.
Levantei da cama com cuidado para não acordar o anjo, tomei um banho e vesti minhas roupas de treino, saindo do quarto em completo silêncio. Eu precisava de distração para minha mente, ela estava tão barulhenta outra vez...
A arena estava modificada, com diversos alvos para flechas devidamente colocados no espaço. E em vez de Mike, quem me esperava naquela manhã era Nowa, sem nenhum sorriso no rosto, apenas a pose de príncipe inatingível. Ótimo, porque eu também não estava com humor para brincadeiras.
Me aproximei sem proferir nenhuma palavra, e apenas apanhei o arco estendido em minha direção. O demônio começou a falar, falar, e falar, explicando o material que o objeto era feito, assim como as flechas, e para ser sincera, eu não ouvia nada. Apenas pensava, e pensava, as vozes gritando no meu interior cada vez que lembrava do olhar desolado de Gardier na noite anterior, lembrava do meu pai caindo morto durante uma refeição, lembrava dele me abraçando cada vez que eu tive um pesadelo, dele dizendo que me amava, dizendo que eu seria grandiosa, e de repente...
Ele não estava mais lá.
Assim como o ar não estava mais. E outra vez, eu estava sozinha.
Onde ele está? Para onde ele foi? Por que eu não conseguia respirar?
─۫─̸ Luna...─۫─̸ Uma voz ao fundo me chamava, contudo não era ele e não importava - me. Eu só queria senti - lo uma última vez, queria abraça-lo e dizer que sinto muito, queria gritar por ele ter me deixado...
─۫─̸ Por favor... ─۫─̸ Implorei para ninguém em particular, talvez Deus primeiro? ─۫─̸ Por favor, eu quero meu pai...─۫─̸ Murmurei com as mãos sobre a cabeça tentando calar a voz insistente que me dizia eu era inútil e sozinha, as bochechas ficando úmidas com minhas lágrimas e em algum momento, eu senti minhas pernas cederem e mãos me agarraram ─۫─̸ Quero meu pai... ─۫─̸ Implorei mais uma, mais duas, mais três vezes, como um maldito mantra que nunca se realizaria. Um homem segurou meu rosto com as duas mãos, forçando-me a encara - lo, e de repente eu reconheci suas feições, Nowa. Ele estava ali, ajoelhado ao meu lado. E eu estava ali, quebrada. Então, o abracei, tentando de alguma forma, ser consertada durante aquele contato.
O príncipe retribuiu meu abraço, ele afagou minhas costas por um tempo indeterminado, até que os soluços cessarem, até as lágrimas secarem e meu coração voltar a bater normalmente, ele ficou ali até que eu tivesse forças o suficiente para encara - lo.
─۫─̸ Desculpe...─۫─̸ Minha voz estava rouca, estranha até mesmo para meus ouvidos.
O demônio segurou minha mão e me levantou sem dizer palavra alguma, ele me guiou para além da arena, para os jardins, ignorando qualquer pergunta que eu fizesse. Andamos através do labirinto de flores até me sentir tonta, cada vez mais afastados do mundo real, de Adalasiah. E ele apenas parou, quando entramos em uma outra área, um local mais distante e ao mesmo tempo bonito.
Havia um mausoléu ali no meio de tanta beleza, todo feito de mármore. Nowa me guiou até a entrada, e ali sobre a porta era possível visualizar o nome entalhado em ouro; Gregori. Voltei minha atenção para o demônio, todavia ele apenas desfez o toque sobre meus dedos e por um segundo, senti falta do seu contato, ele sinalizou com a cabeça para que eu entrasse, e no momento seguinte, ele se dissolveu em escuridão, deixando - me completamente sozinha. Ele havia cumprido com meu pedido, ele me trouxe até meu pai.
♡
Adentrei o espaço com meu coração a mil, parecendo querer sair do peito. Até então, acreditava fielmente que meu pai estava enterrado no cemitério da cidade de Florença, aos fundos, em uma cova rasa e feia, o único lugar que conseguimos pagar. Estava feliz que na verdade ele tivesse em um local digno de si.
O mausoléu era maior por dentro do que aparentava por fora, no centro havia a sepultura feita de pedra e perfeitamente esculpida e como se não bastasse, havia uma estátua, uma estátua do meu pai. Com todos seus traços, com seu sorriso familiar, e a única diferença eram as asas atrás de si - enormes, também tem uma espada que ele segura com tanto orgulho.
Não haviam mais lágrimas para serem derramadas quando me aproximei da estátua, não havia mais soluços irrompendo pelo meu peito quando lhe toquei a face fria e tão familiar. Haviam lembranças, saudades e um amor tão grande que parecia não caber dentro do meu peito.
─۫─̸ Oi pai...─۫─̸ Disse com a voz baixa, embargada ─۫─̸ Sinto saudades, todos os dias ─۫─̸ Admiti encarando meus pés, encarando o all star vermelho que tanto amava ─۫─̸ Você se lembra da vez em que cismei ser uma bailarina? Eu odiei as sapatilhas e meu figurino como fogo...─۫─̸ O único papel que havia conseguido na peça, quem interpreta o fogo???? ─۫─̸ O senhor disse que tudo bem, que eu não precisava usar aqueles sapatos horrorosos. Então, me deu o all star vermelho, o primeiro...─۫─̸ Murmurei recordando - me da emoção ao abrir a caixa e vê o presente, eu o amei desde o primeiro instante ─۫─̸ Eu não tirava dos pés por nada, e toda vez que um número ficava muito pequeno, me presenteava com um igual e maior, hum? Você fez esse mesmo processo quando me empurraram na lama e eles ficaram arruinados...
Eu quase conseguia imagina - lo ali, com sua expressão que iria dizer 'foco nas coisas boas Azul, sem tempo para coisas ruins'. O mundo definitivamente era um lugar sombrio, porque Adam Gregori foi o melhor homem que já conheci.
─۫─̸ Eu sei a verdade agora, sei que é meu tio biológico e que é pai de Darck e não o meu. Sei que Roy é meu anjo de guarda mandado pelo seu filho...─۫─̸ Admiti suspirando e acariciando a ruguinha que eu tanto amava no canto dos olhos quando ele sorria. Não fazia ideia de quem era o artista, todavia ele estava de parabéns, havia capturado todos os aspectos do homem que conheci ─۫─̸ Não fiquei com raiva ou chateada, fiquei orgulhosa de termos o mesmo laço sanguíneo. No fim, eu sempre tive uma família, eu tenho uma família e você faz parte dela...─۫─̸ Aquilo era uma confissão não só para meu patriarca, mas também para mim, entender que agora eu tinha um lugar no mundo ─۫─̸ Não posso prometer que não irei cometer erros bobos ou que não terei meu nariz quebrado outra vez em algum treino, não posso prometer que não irei te decepcionar em algum ponto da jornada, ou que irei abandonar minha vida antiga completamente e assumir minha identidade, acho que não estou preparada para deixar de ser sua filha... ─۫─̸ Um pequeno sorriso pairava nos meus lábios ─۫─̸ Mas, eu posso prometer que irei te dar orgulho. Vou libertar os anjos, vou libertar seu filho e meu irmão, vou dizer para eles a honra que eu tive em te conhecer e vou ser rainha...─۫─̸ Apertei o colar em meu pescoço ─۫─̸ Eu vou honrar seu nome, vou honrar o nosso nome e não serei mais fraca... ─۫─̸ Na ponta dos pés, deixei um leve beijo sobre a bochecha da estátua ─۫─̸ Porque sou uma Gregori, e nunca desistimos uns dos outros ─۫─̸ Senti todo o peso do meu peito se esvaziar, como um passe de mágica e apenas uma brisa fresca se fez presente no mausoléu ─۫─̸ Obrigada pai, por nunca desistir de mim...
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