IV - Resistência

Azura

Quando pequena, sempre acreditei que havia algo diferente comigo, algo surpreendente, que estava destinada a grandes feitos. Mas, não seria esse o sonho de toda garota? Ser a heroína do seu próprio destino, ou ter um príncipe encantado a sua espera? Lembro de uma vez que até mesmo cogitei que minha falta de memória se devia  ao fato dos meus pais biológicos serem espiões do governo americano, e me abandonar teria sido minha única chance de sobrevivência. Fantasias tolas, e cheias de esperança.

Agora eu estava aqui, diante de uma verdade que almejei durante anos no passado, no entanto a única vontade era correr para longe de Nowa, para longe daquela sala, para longe daquele lugar. Eu precisava de segurança, eu precisava de Roy e acima de tudo, eu estava sendo uma covarde.

Aos poucos o fogo que dominava meu interior e a poltrona cessou, e não saberia dizer se por minha causa ou por conta do demônio diante de mim, e apesar de não haver nenhuma queimadura nele ou no meu corpo, o tecido um dia rico, foi arruinado, outra prova que eu não queria aceitar.

─۫─̸ Eu sei que sua mente deve está em choque nesse momento, sei que são informações demais, mas... ─۫─̸ O homem suspirou levando seu punho até a boca, parecia um gesto de nervosismo. Os olhos antes dominados pela escuridão, estavam de volta ao azul habitual.

Nenhuma palavra deslizou dos meus lábios, nenhum movimento. Apenas me mantinha ali, imóvel, com um olhar vazio e as unhas enterradas no tecido chamuscado.

─۫─̸ Precisa ser racional e me escutar por favor, e não me peça para te tratar como menos do que você realmente é... ─۫─̸ Havia certo desespero em seu pedido e seu semblante sério parecia vacilar por alguns segundos.

Menos do que eu sou...

Tive vontade de rir, de gargalhar.

O que significaria ser menos do que eu realmente sou?

Acho que de fato acabei rindo, pois Nowa me encarou com uma interrogação estampada em seu rosto, uma mistura de curiosidade e apreensão.

─۫─̸ E o que eu sou príncipe? ─۫─̸ A ironia deslizando pela minha língua, enfatizando o título do maior na minha frente ─۫─̸ Quem eu sou? E por que todos nesse maldito lugar parecem conhecer Luna Gregori? Menos eu! Eu não conheço ela!  ─۫─̸ Admiti com um bufo. As unhas cravando mais intensamente no estofado chamuscado me machucando propositadamente, e obriguei a encarar os olhos dele ─۫─̸ Eu vou dizer o que eu sou Nowa. Sou uma garota que não sabe nada da própria vida, uma garota que é tão especial que foi abandonada aos três anos de idade, sem memória, sem ninguém! ─۫─̸  Berrei ─۫─̸ Sou uma garota que cresceu em um lar religioso, mesmo odiando tudo relacionado a isso. Eu fui odiada em todo lugar em que pisei, fui vista como aberração, como estranha... ─۫─̸ Grunhi com frustração sentindo meus olhos acumularem algumas lágrimas ─۫─̸ Fui agredida um par de vezes apenas por ser diferente, por não saber o porquê fui abandonada, eu só tinha três anos! Três malditos anos!

Eu queria ser forte, queria não chorar, queria encarar tudo de cabeça erguida. No entanto, estava cansada de guardar tudo para mim.

─۫─̸ Só tive um amigo durante toda minha vida e depois dele, apenas meu pai me amava ou eu acreditava que sim...

O veneno das palavras de Roseta dominavam minha mente, e comprimi os olhos com força, sentindo as lágrimas deslizaram livremente pelas bochechas.

─۫─̸ Então, ele morreu. Misteriosamente, apesar da boa saúde e eu fiquei com Roseta, minha mamma... ─۫─̸ Voltei a rir, tamanha era a ironia do título.

─۫─̸ Ela não era sua mãe...─۫─̸ A voz do demônio era cortante e fria.

Abri minhas pálpebras curiosa, e ele permanecia ali, relaxado em sua poltrona, me encarando com a cabeça inclinada, indicando com a mão para que eu continuasse meu relato. Eu não saberia dizer se ele estava achando graça de toda a situação, ou realmente me escutando.

─۫─̸ Ela sempre me culpou pela morte dele e eu nunca entendi, até dias atrás. Seu passatempo preferido era fazer da minha vida um inferno...

Nowa se mexeu desconfortavelmente no assento ao ouvir a palavra. Talvez ele entendesse, afinal era o príncipe de lá.

─۫─̸ Alimentação uma vez por dia se eu me comportasse bem, e caso isso não acontecesse...

Eu queria gritar de desespero, frustração, ódio.

Os dedos antes no estofado, foram até a barra da camiseta que trajava, arrancando - a fora. Escutei o demônio sugar o ar com força e me levantei sem lhe fornecer alguma explicação, virando de costas para ele. O pânico crescendo dentro de mim, a agonia dentro do meu peito, e a essa altura as lágrimas já transbordavam como um rio.

─۫─̸ Fui açoitada oito vezes durante minha vida e em cada ocasião, recebi três golpes em nome da santíssima trindade...

Estava abraçando meu próprio corpo tremendo de raiva, dor, e tristeza. Sabia o que ele estava visualizando naquele momento; cicatrizes por toda minha coluna, destacadas na pele alva. Lembranças que iriam me perseguir por toda a eternidade, independente do meu nome. Parte de mim estava desmoronando e a outra parte, aliviada por finalmente mostrar isto para alguém.

Roy sequer imaginava, porque nunca tive coragem de lhe falar, ou lhe mostrar, ele teria nojo de mim. Mas, não precisava me preocupar com Nowa, ele já me desprezava antes de tudo, não mudaria nada.

─۫─̸ Ela me odiou até o último suspiro, eu sei e era minha mãe. Então...─۫─̸ Pausei, tentando controlar o acesso de choro e voltei a colocar a camiseta, me virando outra vez ─۫─̸ Me diz quem eu sou, me diz que existe um ótimo motivo para que eu fosse abandonada pelos meus pais, diz que existe alguém lá fora que me procura, que me ama... Diz que vale a pena lutar... ─۫─̸  Ali estava a verdade que eu sempre fiz questão de esconder. Eu queria desistir, queria parar com a dor, torna - la lembrança.

Entretanto, o demônio permanecia calado, dessa vez em pé, me encarando completamente estarrecido.

─۫─̸ Por favor Nowa... Me diz...

─۫─̸ Existe...─۫─̸ Um sussurro fraco, e segundos depois ele contornou o espaço entre nós dois, os seus braços agora estavam em volta de mim, puxando meu corpo para ele, minha cabeça sobre seu peito enquanto desmoronava, como se ele soubesse que esse momento chegaria.

Meu corpo inteiro tremia, minhas mãos o seguravam com força o tecido da sua roupa, como se a qualquer instante ele fosse desaparecer, e minha cabeça...céus como doía!

Tudo doía, meu corpo, minha alma...

─۫─̸  Teve pais que deram a vida por sua sobrevivência... ─۫─̸ Ele começou, a voz entrecortada e repleta de uma emoção que eu não conseguiria identificar ─۫─̸ Tem um irmão, um primo. Tem uma família que fez tudo o que podia para você sobreviver Luna, até mesmo abdicaram da própria liberdade...

Respirei fundo, tentando controlar o tremor do meu corpo.

─۫─̸ Há muitas informações que eu preciso lhe contar, mas antes você precisa me escutar...

Apenas balancei a cabeça negativamente, as informações ditas se assentando no meu âmago. Eu 'tive' pais, referidos no passado e agora provavelmente mortos. Eu tenho um irmão, um primo, uma família. Queria sentir alívio, no entanto apenas senti medo, porque se de alguma forma eles abriram mão de algo por mim, eu não saberia dizer o motivo, e não posso dizer que deveriam estar felizes com o que me tornei.

─۫─̸ E Adam...─۫─̸ Novamente meu mundo pareceu parar de girar somente pela simples menção do nome. Era o nome do meu pappa ─۫─̸ Ele te amou mais do que o número de estrelas existentes no universo. O que ela disse sobre ele, nada daquilo era verdade. Você era a anjinha dele, certo?

─۫─̸ Sim...─۫─̸ Admiti em baixo som, me desvencilhando o suficiente para encara - lo ─۫─̸ Como você sabe disso? Como sabe meu apelido?

─۫─̸ Adam era...hum...

Nowa tomou certa distância, cruzando os braços e novamente as feições frias dominando seu rosto.

─۫─̸ Eu mandei ele para você, para te proteger quando tinha três anos. Naquela época sequer poderíamos imaginar o que aconteceria com Roseta ou que...─۫─̸ Ele gesticulou para meu corpo engolindo em seco, se referindo  as cicatrizes. Senti a vergonha me dominar, a curiosidade e o sentimento de traição.

─۫─̸ O que ele era? ─۫─̸ Perguntei em voz baixa, os punhos cerrados.

Por que todos em minha volta pareciam me manipular?

─۫─̸ Um amigo...─۫─̸ Nowa disse com pesar, e não forneceu nenhuma palavra a mais ─۫─̸ Você pode chorar, colocar esse lugar abaixo. e
Eu não me importo e cansei desse drama insuportável! ─۫─̸ Enraivecido, ele passou as mãos pelos fios escuros do seu cabelo ─۫─̸ Você tá triste, ok. Você sofreu sua vida toda, ok. Porém, todos aqui também passamos por isso, tá bom? E diferente de você Luna, ninguém aqui teve a sorte de ter suas memórias apagadas ao longo dos anos, ninguém teve a chance de recomeçar... ─۫─̸ Uma risada com desgoto deslizou pelos seus lábios ─۫─̸ Então, me desculpe se pareço um pouco frio e sem sentimentos aos seus olhos. Perdeu seu pai? Ok. Eu perdi meu amigo de milênios, entendeu? Não é a única sofrendo na droga do planeta! ─۫─̸ A última parte foi gritada com rancor, mágoa ─۫─̸  Só está nessa situação porque é uma covarde! Se deixou levar pela vida humana, ano após ano e esqueceu o que você é! Esqueceu dos seus pais! Esqueceu do seu irmão, primo! Esqueceu da sua missão! Esqueceu de lutar!

─۫─̸ Eu não...

─۫─̸ Sim, você esqueceu de todos Luna. Todos!  ─۫─̸ Havia tanto pesar depositado naquela palavra, nos olhos de Nowa que por alguns segundos, me perguntei  se ele não estaria incluído na sentença.

Limpei as lágrimas que estavam no meu rosto e voltei a me sentar com um olhar baixo, mas era somente o que ele precisava, um sinal verde para que iniciasse toda a história, a história da minha vida.

O demônio por alguns segundos pareceu resignado, e mesmo que eu não estivesse lhe encarando, seu olhar queimava em meu rosto. Ele voltou ao seu assento e permiti erguer o olhar para si novamente, ele estava brincando distraído com seu anel.

─۫─̸ Qualquer outra pessoa no seu lugar estaria surtando. Veja bem, a mulher que te criou tentou te matar e logo em seguida foi assassinada na sua frente, você tem poderes que quase te tornaram uma assassina, foi levada para um lugar estranho, descobriu a existência de vampiros, demônios, anjos... Mas, não está. Sua alma reconhece a existência do seu mundo, da sua realidade...

Pensei em argumentar e dizer que minha mente acreditava que tudo era fruto da minha imaginação. No entanto, não era a verdade e minha mente parecia reconhecer parte do mundo maluco que fui inserida e o abraçava com nostalgia.

─۫─̸ Eu... ─۫─̸ Franzi o cenho tentando dizendo algo sem parecer patética  ─۫─̸ Lia disse que já estive aqui antes e que todo Gregori reconhece esse lugar... 

Nowa concordou com a cabeça, a sombra de um sorriso aparecendo em seu rosto.

─۫─̸ De fato. Mas vamos começar pelo o início de tudo querubim... 

E ali estava o príncipe demônio outra vez diante de mim, os pés reencostados sobre a mesa de madeira, e as mãos atrás da cabeça, parecendo estar em casa. 

─۫─̸ No céu existem algo que chamamos de castas. É a forma como os anjos são divididos; temos arcanjos, serafins, guerreiros, e a sua casta... querubim 

Eu não conseguia desviar a atenção, e nem queria, a curiosidade pela verdade aumentando a cada segundo.

─۫─̸ Querubins são conhecidos na Terra como cupidos, famosos por fazerem as pessoas se apaixonarem, deve ter escutado alguma lenda...  ─۫─̸ Assenti com a cabeça tentando não rir.

Eu, um anjo responsável pelo o amor? Era de fato uma piada, porque sequer havia dado o primeiro beijo! Se Nowa notou o divertimento irônico em meus olhos, ele não comentou.

─۫─̸ Contudo, seus poderes não se limitam a isso. Quando criados, dizem que querubins foram amaldiçoados com sentimentos, diferente dos outros anjos, eles sentiam tudo Luna, e por isso eram vistos como inferiores...

Por alguns segundos a palavra 'manipuladora' ressou na minha mente, como uma tatuagem gravada em minha pele, que há muito, foi esquecida. Será que até mesmo no céu eu era odiada?

─۫─̸ Manipuladores era a definição exata, poderiam manipular qualquer ser humano, para o bem ou para o mal, dependendo de sua vontade...  ─۫─̸ Nowa mantinha um olhar em seu anel, como se encarando - o conseguia sentir cada pedacinho vivenciado da sua história  ─۫─̸ Lúcifer era um deles, e odiou cada minuto disso, cada insulto, rebaixamento...

─۫─̸ O diabo? ─۫─̸ Perguntei receosa.

Se Nowa era um príncipe infernal, o diabo seria o seu rei? Ele seria capaz de contar a história de outra maneira para me enganar?

─۫─̸ Sim Luna, o diabo... ─۫─̸ O mancebo respondeu de forma cortante, mostrando certo desprezo pelo título.
Em resposta apenas suspendi as sobrancelhas, sinalizando para que ele continuasse a história ─۫─̸ Lúcifer decidiu reerguer - se junto com os outros de sua raça, e estes seriam reconhecidos de uma forma ou outra. Então, desafiaram Deus e entraram em uma batalha perdida, eles não tinham chances contra as outras castas reunidas e sabiam que não iriam vencer, o objetivo na realidade era outro. Os querubins amaldiçoaram a cidade dourada e todos os anjos que ali habitavam, todos carregariam o mesmo fardo que eles, iriam sentir...  ─۫─̸ Era a primeira vez que escutava aqueles dizeres, porém sabia que era certo, que de alguma forma, se encaixava   ─۫─̸ E como punição, Deus fez todos caírem, trancafiados no submundo, no inferno...

─۫─̸ Eu participei dessa guerra?  ─۫─̸ Questionei com receio, apreensão, com medo. Eu teria me aliado ao diabo?

─۫─̸ Não, você sequer existia... ─۫─̸ Nowa suspirou, encarando o teto por alguns segundos  ─۫─̸ O que uma vez foram anjos, foram transformados em demônios sem asas, e presos no fogo eterno, destinados a cuidar de almas pecadoras...  ─۫─̸ O príncipe demônio riu para si mesmo, um riso amargo e sem vida ─۫─̸ No entanto, o caos foi instalado no céu. As emoções...  ninguém sabia lidar com elas de início, e eram complexas demais, era tudo tão confuso...  ─۫─̸ Naquele momento eu tive certeza que o homem diante de mim havia vivenciado tudo, havia sentido na pele toda a consequência do ato de guerra de Lúcifer  ─۫─̸ Alguns se tornaram ainda mais bondosos, altruístas. Como seus pais por exemplo... ─۫─̸ A simples menção fez todo o meu corpo se arrepiar - ─۫─̸ Outros...  ─۫─̸ O demônio se calou, perdido em suas próprias lembranças.

Eu sentia o pesar dentro de si, tão forte que parecia meu, e por alguns segundos, me senti sufocada. O que seria isso?

Respirei fundo tentando não demonstrar. Eu não sabia o que estava ocorrendo, mas sabia que o príncipe não gostaria nada de saber que suas emoções estavam sendo vigiadas, mesmo que sem querer e tão rápido quanto surgiu, a sensação desapareceu, e o alívio me preencheu .

─۫─̸ De toda forma, depois do expurgo dos querubins durante centenas de anos, não houve outro até você aparecer Luna. Foi o motivo de outra catástrofe, muitos anjos te temiam, outros te odiavam, houveram revoltas... ─۫─̸ Ele parecia indeciso se iria continuar ou não  ─۫─̸ Essa não é uma história que me pertence... ─۫─̸ O sussurro era mais para si mesmo do que para mim, e não me atrevi a questionar o porquê. Nowa estava tão próximo de ruir quanto eu, a única diferença se dava  ao fato que ele disfarçava melhor  ─۫─̸ Provinda de uma linhagem de líderes, obviamente como única da sua casta, foi destinada a liderança... foi treinada por seu primo e seu irmão...  ─۫─̸ Nowa revirou os olhos antes de acrescentar  ─۫─̸ Eles lamberiam o chão que você pisasse se assim desejasse... eles te amavam. Na verdade ainda te amam, e tenho certeza que sempre vão te amar...

Um calor preencheu meu coração, se instalando com tanto vigor que até mesmo me assustei. Segurando o colar de Roy, desejei me lembrar deles, dos seus nomes, da importância deles na minha vida.

Ainda havia tantas questões sem respostas, mas havia alguém lá fora que me amava...

Havia alguém...

Olhos azuis como os meus me encaravam através da névoa em minha mente, sorrisos exclusivos para mim, abraços inesperados, e a promessa de nunca desistir um do outro. Quase chorei de alívio, de saudades, de amor...

─۫─̸ Marcos e Darck... ─۫─̸ Murmurei em baixo tom, e Nowa me observou espantado  ─۫─̸ Meu irmão, e meu primo. Os únicos Gregori que restaram...

Eu tinha plena certeza da minha sentença. As informações não estavam claras e eu não poderia dizer que recordava de grande coisa, contudo recordavam do sentimento que havia dentro de mim, do amor dos dois, do companheirismo e do luto que pairava sobre nossas cabeças...

─۫─̸ Onde eles estão? Quero vê - los, por favor... ─۫─̸ Havia tanta esperança na minha voz que quase não a reconheci.

─۫─̸ Luna você tem que entender, aconteceram outras coisas, o motivo da sua queda...

O sorriso que antes delineava meus lábios, desapareceu aos poucos já esperando o pior.

─۫─̸ A maldição de Lúcifer ampliou a essência dos anjos. Alguns como Miguel se tornaram ambiciosos, Miguel acreditava que devia tomar o lugar de Deus...

─۫─̸ Um arcanjo?

─۫─̸ Sim, Miguel o arcanjo. Ele tinha certa obsessão por você, pelo os seus poderes...

Remexi de maneira desconfortável na poltrona, as bochechas ganhando um forte tom avermelhado.

─۫─̸ Ele drenou quase todos os seus poderes de querubim e enclausurou em um colar... ─۫─̸ A testa do maior estava franzida, e seu olhar focado no objeto no meu pescoço ─۫─̸ Exatamente como esse que você está usando. Ele te usou e te fez cair, e com o colar tomou o controle de todos aqueles que restaram...

Eu sabia o que ele falaria em seguida, sabia que não era algo bom. Além de toda a verdade que perpetuava em torno de mim, tive meus poderes roubados e usados para o mal. O que mais poderia ocorrer? E a parte mais cômica? Era simplesmente não lembrar de nada, me sentir  entorpecida com todos os fatos apresentados.

─۫─̸ Sua família foi escravizada, e permanece assim até os dias atuais...

─۫─̸ E por que ninguém fez nada? E por que ninguém tentou ajuda - los? ─۫─̸ Explodi sentindo novamente o calor remexendo - se no meu interior ─۫─̸ Por que nenhum outro querubim simplesmente não concertou isso?

─۫─̸ E quem faria isso Gregori? Não há outro querubim com asas e os demônios...─۫─̸ Um revirar de olhos demonstrou toda a impaciência que Nowa antigiu ─۫─̸ Não possuem um décimo do seu poder. É a única que pode consertar isso garota!

O príncipe se abaixou  atrás da escrivaninha, abrindo uma gaveta. Nas suas mãos havia um envelope lacrado, com a aparência envelhecida.

─۫─̸ Você tentou consertar tudo logo depois da sua queda. Tentou recuperar o colar, tentou recuperar seus poderes, e chegou muito próximo Luna... ─۫─̸ Ele deslizou o papel pela mesa deixando na minha frente ─۫─̸ Mas Miguel foi mais esperto. Ele convenceu a líder das bruxas caóticas a ajuda - lo em troca da imortalidade. Ela entrelaçou a sua imortalidade a vidas mortais. Você está destinada a morrer sempre jovem, no máximo vinte e um anos, e somente depois de cem anos, ressuscitar. Um novo nome, um novo rosto, uma nova história, uma humana fraca...─۫─̸ Seu olhar parecia dizer; eu sinto muito ─۫─̸ Essa é a primeira vida desde a maldição que você demonstra algum poder, algum resquício do que havia em você...

Encarei o envelope diante de mim. De repente minha garganta se tornou seca, assim como a minha existência.

Pensei em minhas cicatrizes na costa, pensei em toda minha infância conturbada e confusa, em todos os obstáculos que achei que um dia iria vencer, e agora entendia o quão insignificante deveria ser o peso da minha história para o homem diante de mim. Não era a minha história original, sequer era uma cópia, estava mais para cópia da cópia, e eu me questionava, quantas vidas eu vivi? Quantas cicatrizes eu carreguei? Quantas pessoas eu amei? De repente o colar no meu peito parecia pesar uma grande tonelada.

Roy...

Por que me deu esse objeto? Por que tinha tanta certeza que ele me salvaria? O que havia de errado com ele? Comigo?

As íris azuladas recaíram novamente no envelope. Endereçado para Luna Gregori.

─۫─̸ Quem escreveu essa carta?

─۫─̸ Você mesma, antes de morrer pela primeira vez... ─۫─̸ Concordei com a cabeça, apanhando o pequeno pedaço de papel tão frágil ─۫─̸ Já está na hora de você mesma se conhecer e de libertar todos eles...

                                    ♡

Após a reunião, Mike e Sophia foram chamados outra vez para a sala - o primeiro iria me escoltar para meu novo aposento, enquanto Sophia e Nowa discutiriam meu destino incerto. Irônico o fato do meu futuro ser debatido em uma ocasião que eu sequer estaria presente. Mesmo assim, não  emiti nenhum de consentimento ou negação, na verdade não restava nenhuma energia dentro de mim para dizer algo.

As informações me atropelavam a cada instante e eu me agarrava a carta e ao colar como se fossem meu bote salva vidas, tentando encaixar todas as verdades descobertas na minha realidade atual. Uma família, pais que se foram exatamente como Adam, um irmão, um primo, minha mamma assassinada. A qualquer momento eu poderia entrar em combustão e apenas não notar.

O garoto ao meu lado vez ou outra arriscava um olhar para meu rosto, provavelmente temendo que eu desabasse, ou vomitasse como mais cedo.

─۫─̸ Você aguentou melhor do que eu esperava...─۫─̸ Ele murmurou genuinamente  surpreso, e por alguns segundos lhe encarei com raiva.

Eu poderia ser desinformada da minha própria vida, mas isso não fazia de mim uma criatura fraca, mesmo que todos ali parecessem pensar o contrário. Percebendo os seus dizeres, Mike levantou as mãos em sinais de rendição, sorrindo.

─۫─̸ Não quis te ofender ou nada do gênero Gregori. Se fosse eu no seu lugar, provavelmente estaria arrancando fio por fio da minha cabeça...

─۫─̸ Estou guardando isso para a privacidade do meu quarto. Se eu tiver um, ou ao menos uma cama decente... ─۫─̸ Estava sendo brusca, e não me arrependia.

Por mais que houvesse uma história que eu não me recordasse, eu não conhecia Nowa e toda sua corja, e não era obrigada a ser gentil com pessoas que me consideravam inferior, por simplesmente ser Azura. Porque sim, mesmo que eu tenha poderes, seja um anjo com asas que nunca cheguei a ver, e tenha toda minha família escravizada por um arcanjo lunático que roubou meus dons, mesmo assim nessa vida, eu sou Azura Lacaster Valois, e iriam aprender que esta poderia ser tão útil quanto qualquer outra vida minha.

─۫─̸ Não seja tão ríspida comigo, eu sou um ser sensível e solitário...─۫─̸ Mike colocou uma mão sobre o coração, como se estivesse sentindo dor, revirei os olhos e ele riu.

Voltamos pelo mesmo corredor que Lia me trouxe e por alguns segundos até cogitei o fato de que voltaria para o quarto dela, para o azar dela e de seus lençóis de seda. No entanto, ao chegar ao fim do primeiro corredor, dobramos na direção contrária, seguindo por outro caminho extenso, onde a visão de fora parecia proibida para mim, desfocada.

─۫─̸ Ele está tentando ajudar, você sabe...─۫─̸ O rapaz comentou com as bochechas vermelhas, se referindo  ao príncipe demônio provavelmente.

Apesar do pouco tempo ali, poderia afirmar sem sobra de dúvida que Mike é um rapaz companheiro e principalmente fiel. Não sei como lidava com o humor azedo da vossa alteza. Mas sinceramente? Também não queria descobrir.

─۫─̸ O que você é? Ele é um demônio, a loira azeda também é um e nem tem como negar, Lia é um vampiro...─۫─̸ Divaguei passando uma das mãos pelo rosto, mudando propositadamentede assunto.

Céus, provavelmente ainda não estava sequer na hora do almoço, contudo eu me sentia tão cansada, como se minha rotina no sapore puro fosse há uma vida atrás, e não apenas alguns dias.

─۫─̸ O que tudo isso é? ─۫─̸ Gesticulei para a construção de pedras que nos rodeava.

─۫─̸ Ah...─۫─̸ Mike coçou a nuca desconfortavelmente, as bochechas mais rubras que em momentos atrás ─۫─̸ Eu sou igual a você, em parte. Eu cai, mas não tenho asas, não sou mais considerado um ser angelical, pequei e perdi minha honra...─۫─̸ Apesar do tom envergonhado, o garoto deu de ombros, tentando em vão demonstrar que não era grande coisa.

Eu sentia justamente o contrário, e naquele momento eu tive pena dele. Por trás de tantos sorrisos e piadas, havia um coração despedaçado. Porém, ele logo endireitou a postura e abriu um grande sorriso, um ótimo ator.

─۫─̸ Sophia como você adivinhou, é um demônio em todos os sentidos. É uma succubus, algo sinistro, porque eles são conhecidos pelos sonhos lúcidos em que...

─۫─̸ Chega...─۫─̸ Corto me sentindo  estranhamente enjoada. Eu sabia o que significava succubus, graças as horas em que era obrigada a estudar a Bíblia por conta de Roseta.

Succubus são demônios da luxúria, incrivelmente persuasivos, e mortais. A ação preferida dessa raça é entrar nos sonhos alheios, seduzi - los e roubar toda a energia do indivíduo, através do ato sexual. Às vezes até mesmo os matando.

Mike soltou outra risada da minha expressão de nojo. Não era atoa que não havia ido com a sua cara, a moiçola transpirava problemas por todos os seus poros e a única coisa que eu desejava dela, chama - se distância.

─۫─̸ E bom, Nowa é Nowa. Um príncipe do inferno, o único na verdade. Lúcifer me ofereceu uma coroa também, logo depois que cai...─۫─̸ O caído parecia comentar mais para si mesmo do que para mim ─۫─̸ Contudo, eu não quis me juntar ao vermelhinho, então fiquei aqui, em Adalasiah. Apesar disso, Nowa e Sophia são meus amigos, e por eles eu daria minha vida...

Eu nunca ousaria questionar as palavras de Mike, a verdade transparecia em seus olhos, em seu andar, em sua respiração, ele morreria por eles e se sentiria feliz ao fazer isso.

─۫─̸ Somos a sua corte e nos chamam de Corte Infernal. Servimos ao Nowa, não ao diabo, apenas ressaltando porque não sou muito fã do cara com chifres ─۫─̸ A última parte foi sussurrada, como se fosse um grande segredo de estado ─۫─̸ E bem Adalasiah, é Adalasiah anjinha. Significa resistência na língua dos anjos. É um lugar de acolhimento para aqueles que não tomam um lado, nem Miguel ou Lúcifer, apenas eles mesmo, sabe? ─۫─̸ Ele continua contando calmamente, as mãos agora atrás das costas enquanto caminhamos.

Ao fim do segundo corredor há outra porta, com entalhes tão antigos quanto a porta do escritório de Nowa. Mike oferece sua palma para mim com um grande sorriso no rosto e sem hesitar, segurei em sua mão, sentindo o nervosismo e a ansiedade dominar, finalmente conseguiria ver o que há do outro lado.

─۫─̸ Você não acha Adalasiah, ela te encontra. São poucos seus cidadãos quando comparados a Midnight, mas aqui... ─۫─̸ Mike balança a cabeça com um orgulho contido e abre a porta ─۫─̸ Não há outro lugar no mundo igual...

Por grandes segundos fiquei sem ar, minhas orbes encarando a visão na minha frente sem acreditar que fosse real. Havia um mundo lá fora, uma imensidão sem fim e verde, tudo parecia tão vivo!

Cinco passos adiante e estávamos fora das paredes de pedra que pareciam me esmagar e ali estava uma sacada, enorme o bastante para que eu pudesse rodopiar de braços abertos várias e várias voltas e no fim, estávamos em um penhasco. Um rio serpenteando abaixo de nós, mas também havia a floresta, circundando aos lados, criando caminhos por entre as árvores, as maiores que um dia já vi . E mesmo daquela distância, era possível notar pequenas construções em cima das mesmas, como casas pequenas com as luzes das janelas acesas, havia música e também alegria emanando daquele lugar, com tal força que me fez ofegar ao reconhecer o sentimento. O som de grasnados me fez erguer os olhos para o céu, e novamente me senti embriagada; pássaros de fogo enormes e belos circundavam acima de nossas cabeças, acima do castelo imponente e enorme que se  erguia atrás de nós. Digno de um reino, digno de um príncipe e sua Corte.

Do lado de dentro, não dava para notar a proporção do local, e do lado de fora, eu estava completamente sem fôlego.

─۫─̸ São chamadas fênix quando estão nessa forma...─۫─̸ Mike sussurrou em baixo tom, como se um décimo mais alto de sua voz pudesse aniquilar aquele momento. Mas, na verdade acho que nada poderia arruinar aquilo ─۫─̸ São criaturas tímidas na forma humana  e extremamente corajosas e fiéis na forma animal. Elas vivem, morrem e então vivem outra vez, assim como você...

Minha atenção se voltou para o caído ao meu lado e um suspiro escapou dos meus lábios. Ele sabia, todos ali deveriam saber, menos eu até poucos momentos atrás. Afinal, me dei conta que parecia haver algo capaz de arruinar o momento, mesmo que por uma fração de segundos. Mas, se o mancebo notou meu desconforto, não deixou transparecer e logo ergueu a destra apontando para as árvores grandes que serpenteavam a costa, justamente aquelas que possuíam suas casinhas no topo.

─۫─̸ Ali vivem os fae e duendes. Talvez você reconheça como fada e anões da branca de neve. São pequenos, e bravos, então nunca fale da altura deles...─۫─̸ Novamente o tom rosado decorou o rosto do rapaz, e um riso tímido escapou de mim.

Seja lá qual for a consequência de comentar a altura das criaturas, Mike conhecia, uma história que eu não importaria de ouvir. Ainda concentrado na sua tarefa de guia turístico, o caído apontou para o rio abaixo de nós, lindo e poderoso.

─۫─̸ Ali vivem as sereias, dizem que algumas são sobreviventes da primeira cidade, Atlântida. No entanto, nunca me atrevi a perguntar, são narcisistas demais, até mesmo para mim...

Havia grandes pedras na margem do rio, ali era possível visualizar figuras femininas descansando com suas caudas enormes e de coloração prata, longos cabelos e uma beleza imensurável, mesmo a distância conseguia afirmar.

Eu não conseguia desviar o olhar da paisagem adiante, dos detalhes. Era um novo mundo, um mundo completamente diferente de tudo que sequer imaginei e estranhamente familiar.

Com as mãos na construção de mármore da sacada, arrisquei um olhar mais ousado para baixo, vendo a altura que nos encontrávamos, uma escadaria se estendendo até um jardim amplo, o último lugar do castelo até ser imerso no outro mundo. A floresta, e o rio. Entretanto, ao fim das árvores e ao fim da água, era possível ver luz, e construções. Mike sorriu notando minha curiosidade e se reeconstou na superfície de mármore relaxando.

─۫─̸ O vilarejo. Lá vivem alguns caídos que não tomaram partido e querem uma vida monótona e humana...─۫─̸ Nenhum um pingo de remorso e nem um pingo de inveja ao se referir aos outros da sua espécie, apenas admiração. Apesar de aparentar ter a minha idade, o meu acompanhante assim como Lia, carregava o peso da sabedoria de séculos ─۫─̸ Também há ex bruxas, refugiando - se de Hécate...

─۫─̸ Quem é Hécate? ─۫─̸ Perguntei confusa.

─۫─̸ Uma deusa atualmente. Mas, um dia já foi uma mulher bastante teimosa...─۫─̸ O maior parecia esconder uma piada apenas sua e então continuou ─۫─̸ As bruxas são suas filhas, divididas em dois covens; Caos e Ordem, o bem ou o mal, por assim dizer. Grande maioria vive em Midnight, o reino de Hécate e Cerunos - seu esposo, a minoria se arrisca pelo o mundo e também há aquelas que apenas não queriam ser nenhum e nem outro, Adalasiah as encontrou e trouxe para cá...

─۫─̸ E Lia? Há outros como ela?

─۫─̸ Céus! Por Deus primeiro, não! Lia foi a única vampira acolhida por Adalasiah e que decisão horrorosa devo ressaltar... ─۫─̸ Apesar de tentar parecer áspero, dava para notar o carinho por trás das palavras.

─۫─̸ Ela disse que já estive aqui antes, que minha família...─۫─̸ Tentei dizer, sentindo minha língua enrolar. Meus dedos frios segurando o envelope amarelado com mais afinco.

─۫─̸ Ah sim, Gregori. Olhe para trás, olhe para a construção... ─۫─̸ Ele instruiu e assim eu fiz.

Era magnífico, e se estendia tão alto que por alguns segundos pensei que seria capaz de tocar o céu.

─۫─̸ Seus parentes ergueram esse castelo e ajudaram a construir Adalasiah, tijolo por tijolo, mesmo quando muitos queriam arrancar as cabeças deles por isso... ─۫─̸ Gratidão dominou as feições de Mike ─۫─̸ Adalasiah sempre vai estar de braços abertos para os Gregori, ela reconhece o sangue que corre em suas veias...

Arriscando um novo olhar para cima, tive um vislumbre de duas criaturas voando acima de mim, com suas asas estendidas, sorrisos em seu rosto e bolas de neve em suas mãos, um atirando no outro. Éramos crianças, e eu os encarava do mesmo lugar, faminta por aprender a voar. Pisquei os olhos, e a visão desvaneceu.

─۫─̸ Adalasiah sempre acolhe aqueles de bom coração e que buscam uma direção, talvez para um momento passageiro, ou em alguns casos... ─۫─̸ Mike dedicou um olhar para o rio e para as casas na árvore ─۫─̸ Por toda a eternidade, os mantém seguros. Algo que não é possível encontrar lá fora...

─۫─̸ Eu já estive aqui...─۫─̸ Murmurei mais para mim mesma do que para o caído. Estava sorrindo, porque sim eu defitivamente estive ali. Sentia cada célula do meu corpo se agitando de alegria.

─۫─̸ Sim, um par de vezes...─۫─̸ Mike disse com pesar, abaixando os olhos para o mundo abaixo de nós.

Eu sabia o que significava a nota de tristeza em sua voz, mesmo que ele não me contasse. Adalasiah foi meu primeiro leito de morte, e agora eu entendia; seu nome não significa apenas resistência, também significa refúgio, recomeço, e principalmente, um lar. Talvez, o meu lar.

                                   ♡

Abaixo imagens para auxiliar na visualização de Adalasiah.

Casas dos Fae e Duendes:

Vilarejo:

Rio das Sereias:





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