𝐖𝐄𝐃𝐃𝐈𝐍𝐆 𝐎𝐑 𝐅𝐔𝐍𝐄𝐑𝐀𝐋?

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𝐂𝐇𝐀𝐏𝐓𝐄𝐑 𝐓𝐇𝐈𝐑𝐓𝐘 𝐅𝐎𝐔𝐑

𝐖𝐄𝐃𝐃𝐈𝐍𝐆 𝐎𝐑 𝐅𝐔𝐍𝐄𝐑𝐀𝐋?





⛈︎彡2015.

NUNCA SABEMOS qual é o nosso propósito. Isso pode soar filosófico, mas, na prática, é mais frustrante do que profundo. Nos dedicamos tanto a algo - ou a alguém - e, no fim, às vezes nem sabemos o motivo.

Luther estava na lua. Literal e figurativamente. Achava que cumpria seu propósito, que fazia algo grandioso, que deixava Reginald, seu pai, orgulhoso. Mas, na realidade? Estava há mais de um mês completamente sozinho, isolado, vivendo nas ruínas de seus próprios pensamentos. E o pior: sem nem entender por quê.

Qual era o propósito daquilo? Ele estava ali para coletar análises? Observar crateras? O que, afinal, a lua tinha de tão especial para seu pai mandá-lo para lá - sozinho?

A pergunta ecoava em sua cabeça todos os dias, martelando sem piedade. Mas Luther, como um cão fiel ao dono, continuava cumprindo seu papel de filho obediente.

Ligou a câmera.

- Bom dia, pai.

Sua voz soou firme, mas a rotina começava a pesar. Olhou o relógio. Mais um dia exatamente igual ao anterior.

- São sete e trinta e cinco no horário lunar padrão. - Suspirou, ajeitando a postura. - Tô comemorando o quadragésimo sétimo dia em cima da velha senhora cinza. Minha saúde tá boa.

Deu de ombros, olhando ao redor, tentando lembrar o que mais precisava relatar.

- O suprimento de ar tá... melhor ainda. Hoje vou coletar amostras da cratera Burrell.

Forçou um sorriso. Queria se convencer de que ainda sentia orgulho do próprio trabalho. E, de certa forma, deveria sentir. Nenhum outro filho teria aceitado essa missão.

- Espero que esteja tudo bem aí embaixo. E... fim da transmissão.

Com um último toque, enviou a gravação para a Terra.

Então, suspirou. Um suspiro carregado.

Virou a cabeça e encarou a foto dos irmãos. O peito apertou. Sentia falta deles - da bagunça, das discussões, da sensação de pertencimento. Agora, todos haviam seguido em frente.

Cinco nunca mais voltou.

Celeste se foi, levada pelo peso dos julgamentos. Ele tentou encontrá-la. Procurou por toda parte, em qualquer canto onde achava que ela poderia estar. Nunca teve sucesso. E, para falar a verdade? Nem sabia como pedir desculpas. Nem mesmo sabia se ela aceitaria ouvir um "oi".

Os outros? Allison era famosa. Diego estava na polícia. Klaus... bom, Klaus apenas existia. E Viktor escrevia livros enquanto ensinava violino.

Era engraçado. Cresceram juntos, mas cada um seguiu um rumo diferente. Luther só queria que as coisas fossem como antes. Se ao menos os irmãos ainda morassem juntos, talvez pudessem estar ali com ele. A lua não pareceria tão vazia.

Mas os dias passaram. Quarenta e sete se tornaram noventa. Depois cem. Depois... incontáveis.

E, pouco a pouco, a solidão foi se infiltrando em sua mente.

Parou de fazer a barba. Seu cabelo cresceu. Seu reflexo se tornou irreconhecível.

Os relatórios continuavam sendo enviados, porque ele era leal. Mas a vontade de voltar para casa crescia como um buraco negro dentro dele.

Todos os dias andava pela lua, buscando algo - qualquer coisa - que desse sentido à sua presença ali. E então, um dia, encontrou.

O veículo parou de avançar. Algo o impediu de seguir. No painel, a mensagem era clara: "ÁREA PROIBIDA".

Ele franziu o cenho. Desde quando existia uma área proibida na lua?

Se havia algo escondido ali, precisava descobrir. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu um vislumbre de animação.

Porque, naquele território esquecido, estava o verdadeiro motivo para sua missão.

Não se tratava de análises. Nunca se tratou de estudos lunares. Reginald não enviou Luther para explorar.

Ele enviou Luther para proteger.

E o que precisava de proteção era o tubo criogênico que guardava o corpo de sua amada esposa.

Luther passou meses achando que sua presença ali tinha um propósito maior. E, no fim, não passava de um vigia solitário, guardando um segredo que nem sequer conhecia.

「· · • • • ⛈︎ • • • · ·」

⛈︎彡𝐃𝐢𝐚𝐬 𝐚𝐭𝐮𝐚𝐢𝐬.

Enquanto o sol da manhã se erguia no céu, os primeiros pensamentos de Cinco eram claros como a luz dourada que iluminava o quarto: "Celeste aceitou meu pedido de casamento".

Por alguns minutos, ele ficou apenas observando-a dormir, e para ele, aquilo não era nem um pouco entediante. O jeito como seus cabelos ondulados caíam suavemente sobre os ombros, o brilho suave que o sol trazia aos fios, a serenidade em seus olhos fechados, os lábios ligeiramente entreabertos... Ela era magnífica.

Na noite anterior, depois de finalmente terem se entregado um ao outro de forma mais íntima, Cinco contou a ela tudo sobre as três vezes em que voltou no tempo. Não omitiu nada, nem mesmo os momentos mais vergonhosos - como o fato de ter ficado tão nervoso na primeira vez que suas mãos tremiam e ele achou que estava sendo terrível.

Celeste riu, achando graça da maneira desajeitada como ele descrevia a experiência. E, de qualquer forma, para ela, tinha sido perfeito. Claro, esse sempre foi o objetivo dele.

Celeste começou a despertar aos poucos. Eles haviam dormido de conchinha, e ela ainda estava aninhada nos braços dele, seu corpo encaixado contra o dele, os cabelos soltos roçando o queixo de Cinco. A realidade ia voltando devagar, mas ele não queria que aquele momento acabasse. Sem pensar, começou a enroscar os dedos nos fios ondulados dela, um toque tão puro, tão íntimo de um jeito simples, que fez com que Celeste desejasse ficar assim para sempre.

Mas não podiam.

Para Cinco, aquela calmaria deliciosa durou só alguns minutos. Logo, o peso do que tinha decidido voltou a assombrá-lo. Ele se odiava por ter desistido. Sim, essa era a palavra exata para o que ele fez, e Celeste estava certa.

A noite anterior só havia deixado tudo ainda mais evidente: o que sentiam um pelo outro, o quanto se pertenciam... e o quanto ele se desprezava por isso. Queria que ela tivesse uma vida. Não apenas algumas horas.

E agora, além de desistir, tinha feito com que ela desistisse também. Lembrava perfeitamente da expressão dela no corredor no dia anterior. A decepção estava ali, estampada, mesmo que ela tentasse esconder. E é claro que tentaria. Celeste nunca gostou de deixar transparecer esse tipo de coisa.

Ele odiaria dar a ela mais esperanças... mas, no fundo, qual era a diferença? No fim das contas, não havia saída. Eles não podiam impedir o mundo de acabar. Não existia esperança que ele pudesse dar a ela. Independente do que decidissem, o apocalipse era inevitável.

Um aperto tomou conta do peito dele. Um nó sufocante de dor e frustração. Mas não havia nada que pudesse fazer.

- Consigo quase ouvir seus pensamentos daqui.

A voz de Celeste veio baixa, carinhosa, meio arrastada pelo sono. Ela se remexeu nos braços dele, se encaixando melhor, buscando conforto. Mas não olhou para ele. Os dois ainda estavam presos naquela conchinha deliciosa.

- É? - Ele arqueou uma sobrancelha, suspirando. Apertou-a mais contra si, odiando o quanto era transparente com suas preocupações. - E o que eu estou pensando?

- Que nosso amor ontem foi tão bom que... você gostaria de não ter tido essa objeção consciente idiota.

Cinco deu de ombros. Pois é. Ela acertou. De novo. Mas não era só sobre a noite anterior. Visto de fora, aquilo poderia até parecer engraçado, mas, para ele, tudo tinha mudado. Agora, ele olhava para Celeste como sua esposa. Eles tinham se tornado um só, não tinham?

- Ele disse para não salvarmos o mundo.

Celeste quebrou o silêncio, a voz séria. Cinco entendeu de imediato a quem ela se referia. A outra versão dele. Aquele que morreu bem diante dos seus olhos.

- Eu sei. - Cinco respondeu, a voz tão tranquila e aconchegante que, se ela fechasse os olhos, voltaria a dormir. - E ainda tô tentando decifrar por que ele diria isso.

Celeste estreitou os olhos, pensativa. Para Cinco, aquilo era um enigma. O que poderia ter acontecido de tão terrível para que sua outra versão se arrependesse de tentar salvar o mundo?

Era complicado demais.

Para Celeste, a dúvida martelava incessantemente em sua cabeça: O que a outra versão dele havia sussurrado na câmara da Comissão?

Ela sabia que era algo importante o suficiente para que nem ela, nem Lila, nem a Celeste da Sparrow ouvissem. Mas... o que poderia ser tão crucial a ponto de Cinco ainda não ter compartilhado com ela?

De qualquer forma, nada disso importaria em algumas horas. Eles literalmente morreriam.

- O que você havia se dito? - Ela perguntou, virando-se para encará-lo de frente. Seu olhar encontrou o dele, mas Cinco apenas a puxou para mais perto, apertando-a nos braços como se nunca quisesse soltá-la. - Quando... o seu eu de cem anos te puxou para falar algo no seu ouvido.

Cinco franziu o cenho. Para ele, aquilo não fazia sentido. Não era importante.

- E isso importa? - rebateu, com um tom cansado. Então, resmungou, irritado, como se lembrar daquilo o incomodasse. - Ele disse pra mim não levar algo. E nem falou o que era.

Celeste soltou um riso leve, achando graça.

- Você é meio misterioso às vezes.

- E finalmente tô percebendo como isso é ruim. - Ele resmungou, frustrado. - Eu deveria ser direto como você.

Os minutos passaram, os dois conversando sobre qualquer coisa, apenas aproveitando o momento. Mas então, Celeste decidiu que precisava de um banho. Cinco teve que soltá-la dos braços - e fez isso de forma totalmente relutante, preguiçosa e com um quê de tristeza.

Mesmo querendo ficar ali, presa naquele momento, ela conseguiu se levantar. Quando saiu do banho, ainda com os cabelos úmidos e a pele apenas parcialmente seca pela toalha, Cinco, que estava largado na cama feito um preguiçoso, se endireitou de repente.

Ele não queria sair dali... mas, de repente, encontrou um motivo perfeito para levantar.

Celeste estava ali, quase nua, mexendo nas roupas, resmungando algo sobre "esqueci de pegar meu moletom". Mas ele sequer estava ouvindo.

Então, teleportou-se.

Ela se sobressaltou, levando a mão ao peito, assustada quando ele reapareceu bem atrás dela, os dedos tocando suavemente sua cintura. A toalha, antes esquecida, agora era segurada firmemente por ela.

- Cinco! - Ela resmungou, afobada, o coração disparado.

Ele riu. Um riso divertido e levemente perverso. Mas nem se deu ao trabalho de responder. Nem perguntou sobre a roupa que ela usaria, nem puxou assunto. Porque, naquele momento, seus lábios estavam ocupados beijando docemente o pescoço dela.

Um beijo tão delicioso que Celeste poderia derreter ali mesmo.

As mãos dele a seguraram com firmeza, envolvendo sua cintura num abraço por trás.

- Nossa. - Ele resmungou, franzindo o cenho, meio incrédulo.

Celeste ergueu uma sobrancelha, tentando conter o sorriso que ameaçava se formar nos próprios lábios. Mas era impossível. Principalmente com aqueles beijos.

- O quê? - Ela perguntou, genuinamente inocente. Certamente.

Cinco soltou um pequeno riso, divertido.

Suas mãos deslizaram da cintura dela para cima, traçando um caminho lento e aconchegante pelo corpo dela - ainda encoberto pela toalha. O toque era tão bom que Celeste desejou, por um instante, que o tempo simplesmente parasse ali.

- Acho que bati meu recorde.

Ela franziu o cenho, sem entender de imediato.

Cinco sorriu. Um sorriso travesso, malicioso. E então, sem pressa, encaixou perfeitamente o quadril contra o dela, pressionando-a.

Foi aí que Celeste entendeu. Afinal, ela conseguiu sentir perfeitamente a ereção dele bem na sua bunda.

Celeste ficou vermelha no mesmo instante, soltando uma risada nervosa. Ainda não tinha se acostumado com as cantadas descaradamente diretas dele - e, depois do noivado, parecia que elas estavam mais explícitas do que nunca.

Envergonhada, virou-se para encará-lo de frente.

- Cinco!

Ele gargalhou, divertido, enquanto ela segurava a toalha com ainda mais firmeza, como se isso fosse protegê-la do olhar travesso dele. Cinco, é claro, achou graça do constrangimento dela - afinal, essa sempre tinha sido a intenção. E, para ser sincero? Ver Celeste nervosa era uma das suas cenas favoritas.

Sem hesitar, ele puxou a mão dela, trazendo-a para mais perto. A outra mão dela ainda segurava a toalha com todas as forças, como se sua vida dependesse daquilo.

- Eu faria amor com você agora.

A frase saiu tão simples, tão direta, que Celeste sentiu um frio na barriga, uma onda de calor subindo pelo corpo. Seu estômago se encheu de borboletas, e ela teve que morder o lábio inferior para conter um sorriso.

E, sinceramente? Ela adorava quando ele se referia àquilo como fazer amor.

Cinco percebeu. E, satisfeito, beijou sua bochecha antes de sussurrar bem perto do ouvido dela:

- Mais uma vez.

Dessa vez, ela não tentou segurar o sorriso. As lembranças da noite anterior ainda estavam vívidas na sua mente, frescas como se tivessem acabado de acontecer. E, naquele momento, ela daria tudo para ter a habilidade dele. Para voltar no tempo e reviver aquilo quantas vezes quisesse.

Sem pensar duas vezes. Sem arrependimentos.

Mas então, do jeito direto e prático que era tão Cinco, ele quebrou o clima.

- Mas você ainda está com dor. Claramente.

Celeste soltou uma lufada de ar que nem havia percebido estar prendendo. Olhou para o alto, como se implorasse paciência para alguma entidade divina.

- Mas-

Ele arqueou a sobrancelha, cruzando os braços. Nem precisava dizer nada. Ela sabia que não podia negar.

Derrotada, deixou os ombros caírem, soltando um resmungo baixinho. E, de fato, suas pernas ainda estavam fracas - o que, querendo ou não, era totalmente culpa da noite anterior.

Cinco não disse mais nada. Apenas se teleportou para o banheiro, indo tomar banho.

Celeste revirou os olhos, ainda amaldiçoando a própria fragilidade, e finalmente escolheu sua roupa. Optou por uma calça jeans preta e uma blusa de manga longa azul, finalizando com um moletom cinza para se aquecer. Nos pés, colocou os mesmos de sempre: o New Balance preto que trouxera consigo dos anos 60 - porque sempre odiou sapatilhas e sandálias.

Prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e saiu do quarto em busca de comida.

Descendo até o andar de refeições, vasculhou o lugar até encontrar alguns sanduíches e serviu-se de um café preto forte. Sentou-se para matar a fome, ainda sentindo a leve exaustão no corpo, mas foi só quando olhou pela janela que seu humor mudou para preocupação.

Cinco estava saindo do hotel. Com uma garrafa de bebida alcoólica nas mãos.

Algo único. Algo errado.

Ele estava começando a se odiar por ter desistido.

Dentro do hotel, Klaus se movia sorrateiramente, sua missão muito clara: convencer cada um dos irmãos a ouvir a proposta de Reginald. Como já fizera no casamento de Luther e Sloane. Mas dessa vez, tinha um aliado perfeito - o tempo. Ou melhor, a falta dele. O apocalipse se aproximava a passos largos, e todos ali sabiam que tinham apenas algumas horas antes do fim.

E, sinceramente? Depois da noite memorável que tiveram, ninguém queria que aquilo acabasse tão rápido.

Foi assim que ele encontrou Celeste, sentada sozinha, pensativa, devorando um sanduíche de frango.

- Comendo, hm? - Klaus perguntou, puxando uma cadeira e se sentando à sua frente.

Celeste ergueu uma sobrancelha, mastigando uma enorme mordida sem a menor cerimônia.

- Precisamos nos alimentar, né? - deu de ombros. - Tudo bem que vamos morrer daqui algumas horas, mas morrer de barriga cheia torna tudo menos pior.

Ele soltou uma risada baixa.

- É. Você tá certa.

Ela continuou comendo, sem parecer interessada na conversa. Mas Klaus sabia que precisava convencê-la. O problema era que Celeste tinha um motivo extra para odiar Reginald, mais do que qualquer um ali. Ele não era apenas um péssimo pai - era o pior de todos, especialmente com ela. Convencê-la seria um desafio. Mas se conseguisse... talvez Cinco também aceitasse. Celeste podia não perceber, mas era uma influência gigante para ele.

Ele se inclinou um pouco sobre a mesa, forçando um sorriso manhoso.

- Olha, Celly... - começou, a voz melosa como a de uma criança tentando ganhar um doce.

Celeste imediatamente crispou os lábios e ergueu a sobrancelha, desconfiada.

- Eu sei que você odeia o papai com todas as suas forças e-

- Ah, não, Klaus! - Ela resmungou, jogando a cabeça para trás, exasperada.

Ele suspirou. Okay, não seria fácil.

- Só me escuta, por favor!

Celeste parou de mastigar e o encarou com um olhar fulminante, sobrancelhas franzidas, como se ele tivesse cometido um crime imperdoável.

E com a boca cheia, ainda. Agora ele estava realmente em maus lençóis. Ainda assim, insistiu:

- Eu também não gostava dele. Mas... esse papai é melhor. E ele tem um plano e-

- Eu sei. - Ela cortou, a voz meio abafada pela comida. - E ele continua sendo um manipulador. Tá usando você como uma marionete, e você só vai perceber isso quando ele te descartar no lixo.

Klaus arregalou os olhos, escandalizado.

- Ei! - levou a mão ao peito, ofendido. Ela não tinha papas na língua mesmo. Deu um tapinha no braço dela, como se dissesse pelo menos tenta ser um pouco gentil. - Pode, por favor, deixar de ser grosseira?

Celeste apenas deu de ombros.

- Estou sendo realista.

O olhar dela era firme. Como se pudesse enxergar a essência de Reginald melhor do que qualquer um ali. E, no fundo, Klaus sabia que não conseguiria mudar a cabeça dela tão fácil.

- Tá, tá, que seja. - Ele revirou os olhos.

Talvez uma abordagem mais emocional funcionasse melhor.

- Olha, eu sei que você e o Cinco disseram que não iam ouvir o plano dele e... - Celeste soltou um suspiro pesado, já sentindo que a insistência dele estava começando a irritá-la. - ...que o papai é um desgraçado, e que ninguém deveria confiar nele.

Ele fez uma pausa dramática, observando-a enquanto ela terminava seu sanduíche.

E então, com um sorriso malandro, lançou o golpe final:

- Mas seja lá o que diabos vocês dois fizeram ontem, eu sei que você não tá pronta pra que tudo acabe.

Celeste travou no lugar, quase engasgando com a última mordida.

Klaus sorriu.

Bingo.

Aquilo atingiu Celeste como um soco no estômago. E Klaus havia percebido.

Ela estreitou os olhos, desconfiada. Ele parecia genuinamente empenhado em convencê-la, o que era raro. Mas fazia sentido - sempre tiveram uma relação especial. Celeste era uma das suas irmãs favoritas, aquela que sempre soube da sua homossexualidade e nunca o julgou por isso. A irmã com quem ele podia discutir suas relações caóticas sem medo, mesmo que ela julgasse de vez em quando - e ela tinha esse direito. A irmã que sempre foi racional o suficiente para que, se dissesse que algo era uma péssima ideia, é porque realmente era.

Celeste era uma preciosidade para Klaus.

- Eu percebi. - Ele disse, firme. - Ontem, na sala, eu não estava. Mas o Luther contou aquela história-furada sobre objeção consciente... e eu notei você.

Celeste prendeu a respiração.

- Celly, não dá pra se esconder e fingir que é durona a vida inteira.

Ela odiava admitir, mas Klaus a havia descrito perfeitamente. E agora, encarar a realidade do que ele dizia... doía. Desistir nunca pareceu tão horrível.

Celeste suspirou fundo e se inclinou sobre a mesa, cobrindo o rosto com as mãos, como se buscasse uma inteligência divina para ajudá-la a lidar com aquilo.

- Se você só ouvir o papai... - Klaus tentou de novo. - Não precisa participar se não quiser e-

- Tá bom. - Ela revirou os olhos, cortando-o no meio da frase.

"Que seja!" pensou, irritada. No fim das contas, que mal faria? Só ouviria. Só isso. Crispou os lábios e soltou um suspiro resignado.

- Vou escutar o que aquele idiota tem pra falar.

O sorriso de Klaus se alargou instantaneamente.

- Obrigado! - exclamou, e tão depressa quanto chegou, desapareceu, já focado no próximo irmão que precisava convencer.

Celeste bufou, apoiando o rosto na mão. Talvez estivesse prestes a cometer a pior decisão da sua vida. Ou talvez só estivesse se entretendo pelas últimas horas que lhe restavam. De qualquer forma, Klaus precisava de apoio. Mas e Cinco?

Cinco era um osso muito mais duro de roer.

Lá fora, ele estava sentado no chão, a uma curta distância do hotel. Restava pouco do mundo ao redor, apenas ruínas e um silêncio que gritava em seus ouvidos.

A garrafa de bebida alcoólica girava lentamente em sua mão, enquanto ele observava o nada, perdido nos próprios pensamentos.

Ele não queria desistir de Celeste. Mas também não queria dar a ela uma esperança que talvez não pudesse cumprir. E, é claro, as palavras de seu outro eu ecoavam incessantemente em sua mente:

"Não salve o mundo."

"Não leve-a."

Tão poucas palavras. Tão malditamente enigmáticas.

Ele suspirou, tomando mais um gole. Ficou sozinho apenas por alguns minutos, até que um som de passos se aproximando o fez erguer o olhar.

Reginald.

O único capaz de fazer Cinco se afundar na lama.

O velho caminhava em sua direção com a precisão de alguém que sabia que seria ouvido. Cinco franziu o cenho, desconfiado. Isso não cheirava nada bem.

- Reginald. - Cinco o cumprimentou com um olhar estreito, a desconfiança estampada no rosto.

- Imagino que saiba por que estou aqui. - Reginald foi direto, sem rodeios.

Cinco soltou uma lufada de ar, um riso seco escapando de seus lábios.

- Que tal eu economizar o seu tempo e já te dizer um "não"? - Ele ergueu uma sobrancelha, os lábios se crispando em sarcasmo. E, antes que Reginald sequer tentasse qualquer jogo mental, ele cortou o assunto pela raiz: - Não tô nem um pouco interessado nessa porcaria de plano que tá armando. E juro, se você manipular a Celly para ficar do seu lado, em algumas horas você vai estar batendo papo com Deus, e a culpa não vai ser do Kugelblitz.

Reginald manteve a expressão impassível, mas algo em seu olhar indicava que o comentário o irritou.

- Meu plano não é, como você disse, uma porcaria. - retrucou, ignorando completamente a ameaça. O que parecia tê-lo incomodado de verdade foi a falta de crédito na sua genialidade.

- Que pena. - Cinco fingiu lamentar. - Porque eu continuo não me importando.

Reginald suspirou, analisando o garoto por um instante antes de apontar para o espaço vazio ao lado dele.

- Posso me juntar a você?

Cinco revirou os olhos.

- Na verdade, eu aprecio a... solidão. - A palavra saiu carregada de ironia. Ele havia fechado qualquer porta para um diálogo amigável.

Mas Reginald, sendo quem era, simplesmente ignorou.

- Uhum. - murmurou, e sem esperar permissão, sentou-se ao lado dele.

Cinco lançou um olhar de desgosto.

- Mas é claro que você ia atrapalhar. - resmungou, quase para si mesmo.

Percebendo que não tinha saída, apenas estendeu a garrafa que segurava. Reginald, sem hesitar, tomou um grande gole.

E imediatamente fez uma careta de quem tinha bebido ácido.

- Santo Deus! - Ele engasgou.

Cinco sorriu, divertido.

- Louis XXXVIII.

Reginald limpou a garganta e forçou um ar de indiferença.

- Já bebi piores. - resmungou, dando de ombros.

Por um momento, o silêncio caiu entre os dois. Eles encararam o vazio à sua frente, onde antes existia um mundo inteiro. Agora, só restava o fim inevitável.

- É impressionante, não é? - Reginald quebrou o silêncio.

Cinco soltou um riso amargo.

- De todas as burradas que a gente podia ter feito, essa foi a maior de todas. - murmurou. E então, como se estivesse tentando enganar a si mesmo, deixou escapar a maior mentira da sua vida: - Na verdade, tô aliviado. Dessa vez, já era. Sem Comissão. Sem saltos no tempo. Nem dá tempo de ficar desesperado pra ver um rosto familiar.

Reginald o encarou de soslaio, sentindo o peso daquela afirmação. Pegou a garrafa novamente e tomou mais um gole, absorvendo as palavras.

Cinco, por outro lado, se sentia sufocado. Ele nunca foi bom em mentir para si mesmo. Mas, naquele momento, queria tanto consertar tudo que sequer conseguia processar um plano.

E isso o assombrava.

- Eu vi mundos acabarem de jeitos que te deixariam em pânico, garoto. - Reginald disse, a voz calma, mas carregada de um peso antigo.

A mente de Cinco se iluminou.

"Vi mundos acabarem."

As palavras martelaram em seu cérebro, trazendo à tona o documento de Hale. Ele tentou se lembrar de cada detalhe escrito sobre Reginald ali.

Mas, por enquanto, só conseguia rir.

- Nossa! - Ele soltou um riso nervoso. - Reginald Hargreeves, você nunca deixa de me surpreender.

- Isso serve de consolo. - Reginald replicou, impassível.

No fundo, esperava alguma espécie de empatia. Um "sinto muito", talvez. Afinal, Cinco passou décadas tentando impedir exatamente aquilo.

Mas tudo que recebeu foi sarcasmo. Reginald suspirou.

- Depois de um tempo, tudo se mistura. Mas você nunca esquece do primeiro. Do seu lar. Do seu pecado original. - A voz dele ficou mais sombria, mais densa. - Você nunca para de se perguntar: "Eu fiz o bastante para salvar as pessoas que amo?"

E, pela primeira vez naquela conversa, Cinco não teve uma resposta.

- Você fez? - Cinco perguntou, levantando uma sobrancelha. De repente, parecia mais interessado em Reginald do que antes.

- Não, mas eu esperava que vocês, crianças, pudessem me ajudar com isso. - Reginald respondeu com um sorriso calculista.

Cinco bufou por dentro. "Claro que esperava", pensou, sabendo que Reginald só estava esperando a chance de convencê-lo a embarcar em mais um de seus planos malucos.

- Tava demorando - Cinco provocou, pegando a bebida de Reginald sem cerimônia e tomando um longo gole. - Foi mal, Reg. Acabei de receber uma mensagem do futuro.

- Qual futuro? - Reginald retrucou, a expressão séria. Não havia futuro para eles, claro, mas a pergunta ainda saiu como uma provocação.

Cinco olhou para ele, sem pressa de responder.

- O meu eu do futuro. Ele me disse, claramente, pra não salvar esse mundo.

A verdade era que Cinco não entendia o motivo. Seu eu do futuro havia se tornado egoísta? Porque, naquele momento, o único desejo de Cinco era salvar Celeste e viver ao lado dela.

Reginald riu, sem surpresa, mais divertido do que nunca.

- Você é um filho da mãe arrogante, não é? - Ele estava quase sorrindo, vendo a ironia na situação. Era impressionante como, de algum jeito, eles eram tão parecidos. - "Você do futuro". "Você do presente". O passado é tão misterioso quanto o futuro. Você já arruinou a sua vida antes por não me ouvir. Tá preparado pra fazer isso de novo? - Ele estreitou os olhos, lançando um olhar direto em Cinco. - Preparado para mais... duas ou três horas ao lado dela? Três horas, comparadas com uma vida inteira...

Cinco o interrompeu, sem paciência.

- Eu estou cansado de dar esperanças a ela. - Ele disse com um tom de frustração, algo que nunca havia confessado antes. Era a primeira vez que se abria assim, e talvez fosse porque, no fundo, todos iriam morrer logo mesmo. Ele soltou uma risada nervosa, amarga. - Não sei o que fazer com isso.

Reginald não perdeu o ritmo, como se já esperasse essa resposta.

- Então me escute e... dê o que prometeu.

Cinco olhou para ele, ainda relutante. Estava em um impasse, mas parecia refletir sobre as palavras de Reginald. O velho estava, de algum jeito, certo. O que custava ao menos ouvir o plano dele? Se fosse realmente tão absurdo quanto parecia, então ele teria todo o direito de recusar depois.

Depois de um silêncio carregado, Cinco suspirou, como se a decisão tivesse saído mais por obrigação do que por vontade própria.

- Tá bom, eu vou na droga da sua reunião. - Ele reclamou, como se carregar esse fardo fosse pior do que qualquer outra coisa. Mas, no fundo, havia uma ponta de esperança misturada com desconfiança.

- Excelente! - Reginald exclamou, levantando-se do chão como se tivesse acabado de conquistar o maior feito de sua vida. Mas antes que ele pudesse se virar e voltar para o hotel, Cinco estreitou os olhos, decidido a não deixar tudo ser tão fácil assim.

- Se... você me disser o que aconteceu com você na Suíte do Búfalo ontem à noite - Cinco disse, com um tom desafiador. Reginald parou de repente, se congelando por um instante, antes de tentar disfarçar a tensão. Ele franziu o cenho, tentando manter a pose, mas sabia que não poderia enganar Cinco tão facilmente.

- Com ninguém. Eu estava sozinho. - Reginald mentiu, e Cinco soubera imediatamente que não havia uma palavra de verdade naquela frase. - Embora duvide que você estivesse em condição de lembrar, considerando que estava ocupando seu tempo com a Celly. - Ele disse, o tom ácido. Cinco travou o maxilar, mais desconfiado do que nunca. Que conversa estranha poderia Reginald estar escondendo? - Temos que ir. Não vai querer se atrasar para a reunião. - Reginald sorriu, mas Cinco o observou com desconfiança. - Eu sairia daqui se fosse você.

- Tá me ameaçando? - Cinco disse, semicerando os olhos, com o coração acelerado.

Reginald, como sempre, parecia ter o controle da situação. Um instante depois, a plataforma onde Cinco estava sentado se desintegrou, flutuando para o Kugel. Se não fosse pelo teleporte de Cinco, ele teria sido arrastado junto com o pedaço da estrada que sumiu. Reginald apenas deu de ombros, com um ar de quem sabia exatamente o que estava fazendo.

- Vamos - Reginald disse, começando a sair enquanto Cinco ainda o observava, claramente desconfiado. "Como diabos ele sabia que isso ia cair?" Cinco pensou, irritado. Era impressionante como Reginald parecia sempre ter um sexto sentido, como se previsse até os mínimos detalhes.

Cinco sabia que Reginald tinha algo planejado, provavelmente com alguém, mas quando Celly o puxou para o elevador, ele foi impedido de ouvir o que estava sendo discutido. Reginald nunca era confiável.

Deixando a garrafa para trás, Cinco seguiu com passos calmos, atravessando a estrada e chegando ao hotel logo depois de Reginald. O velho parecia muito mais animado com a reunião do que o próprio Cinco. Quando entrou, avistou todos os irmãos já reunidos na sala, conversando animadamente. Era um milagre que todos tivessem concordado em ouvir aquela conversa absurda.

- Cinco! Meu herói! - Klaus exclamou, sorrindo e levantando-se para saudá-lo. Os outros irmãos começaram a zoá-lo, lembrando-se do karaokê da noite anterior, redescobrindo o talento oculto do irmão.

- Olha ele aí!

- Arrasou na música ontem à noite, Cinco!

- Você me fez chorar, eu sou muito molenga!

- Tá bom, chega. - Cinco resmungou, já sabendo que aquele tom de voz indicava que a acidez e o sarcasmo viriam a seguir. - À luz do dia, todos vocês são deploráveis, com exceção da Celly. - Ele disse ao avistar a garota sentada, com as pernas cruzadas, batendo com a mão no assento vazio ao seu lado, convidando-o para se sentar ali.

Alguns irmãos riram da cena, outros fizeram beicinho, fingindo ofensa pelo "deploráveis" de Cinco. O clima, no entanto, estava longe de ser leve. Cinco se atirou ao lado de Celly, sentando-se ao lado dela com um ar desafiador. Ali, reunidos, estavam todos: Lila e Diego juntos, Luther e Sloane; Celeste da Sparrow, Benjamin... e, de algum modo, todos estavam prestando atenção no plano mirabolante que Reginald estava prestes a expor.

- O dia de vocês está prestes a piorar - Reginald anunciou, com a voz carregada de uma seriedade sombria que contrastava com a sensação de resignação no ar. - Os noruegueses tinham sete adormecidos. Os Blackfoot, sete estrelas. Quando eu era criança, ouvi falar de uma lenda dos sete sinos. Todas essas histórias, no fundo, são iguais. - Ele continuou, e os olhares de Cinco e Celly se encontraram, ambos atentos, mas com um toque de ceticismo. Celly tinha a sensação de que ele estava prestes a contar uma história de criança. - A vila está ameaçada por uma enchente, pelo fogo, pela noite que nunca termina. Um xamã leva os discípulos para uma caverna sagrada. Ele conta que, se puderem tocar os sete sinos mágicos, a vila será salva e tudo voltará a ser como era antes.

- Reggie? - Lila interrompeu, erguendo a mão. Reginald parou de falar, lançando um olhar em direção a ela.

- Hum?

- A gente pode parar com os contos dos irmãos Grimm e começar a falar sobre o que isso tem a ver com a gente? - Lila fez um gesto impaciente, como se não houvesse mais tempo para histórias fantasiosas. Celly, da Sparrow, ergueu uma sobrancelha, desconfiada. Ela já tinha ouvido esse tipo de história várias vezes antes e podia até adivinhar as palavras de Reginald.

- Existe uma verdade nesses mitos - Reginald respondeu, de maneira sincera. Lila soltou um suspiro cínico, claramente sem acreditar. - Nenhum de vocês pode negar o que está acontecendo ao nosso redor. Toda a existência será destruída no final do dia. Mas alguém, ou algo, que tem manipulado o espaço e o tempo, deixou uma maneira de reverter tudo, caso o universo enfrente a aniquilação total. - Ele falou, e Cinco sentiu uma ponta de algo que beirava a esperança.

Mesmo que aquilo fosse uma loucura, um pequeno impulso o fazia querer acreditar. Salvar o mundo. Salvar Celeste. Porque ela era o seu mundo.

- Existe um portal no universo. Eu construí este hotel ao redor dele. E do outro lado, está a resposta.

- Um... portal? - Celeste perguntou, seu tom de voz mais irônico e incrédulo do que pretendia. - Aqui no hotel?

Aquilo explicava, ao menos, por que o hotel estava sendo o último a ser destruído pelo apocalipse.

- Sim. - Reginald respondeu com total indiferença, sem se importar com a ironia no tom dela.

- Mas é só isso? Entrar e tocar nos sinos? - Celly perguntou, ainda confusa, enquanto os outros tentavam processar a teoria. Tudo parecia uma história absurda, cheia de falhas, criada para alimentar o medo ou a esperança.

- Não. - Reginald disse, com firmeza, como se estivesse lidando com algo bem mais complexo do que parecia.

- Você quer que a gente faça o quê? Dê um pulo lá, toque uns sinos e resolva essa zona? - Luther zombou, levantando uma sobrancelha e lançando um olhar para Sloane. "Nem pensar", ele resmungou mentalmente.

- Fora o sarcasmo, você está quase certo. - Reginald respondeu, dando de ombros. - Menos pelo guardião. E, respondendo à pergunta de Celly, ele é muito mais perigoso do que vocês imaginam.

- Que tipo de guardião? - Viktor perguntou, levantando uma sobrancelha, claramente interessado. Ele se endireitou na cadeira.

- O tipo de guardião que faz isso - Diego disse, mostrando a mão. Alguns irmãos olhavam com medo, enquanto ele mostrava os dois dedos que perdera na mão esquerda, após ter entrado na estranha porta da Suíte do Búfalo. Agora, ele finalmente entendia por que aquele lugar sempre o tinha incomodado. - Ele tinha uma espada.

- É uma força a ser temida - Reginald explicou, sem um pingo de emoção na voz.

- Viu? Eu sabia que era isso! - Luther resmungou, com os lábios crispados, incrédulo. - Foi aí que eu desisti!

- Foi aí que você desistiu? Eu desisti na parte da caverna sagrada - Lila falou, com sarcasmo, franzindo o cenho. Celeste da Sparrow teria rido, se não tivesse sido interrompida pelo olhar de repreensão de seu pai.

- Quer mesmo que arrisquemos nossas vidas? - Celeste, da Umbrella, perguntou, a voz carregada de ceticismo e apreensão.

Para ela, tudo aquilo parecia uma loucura, mas não era nada inesperado. Afinal, esse era o Reginald que ela conhecia, né? Mesmo sem tê-los criado, ele ainda era o pai deles. Se é que merecia esse título.

Reginald era o tipo de pessoa que não havia se importado quando Cinco se afastou. Ele era o tipo de pessoa que não dava a mínima se ela estava sofrendo pela perda do melhor amigo, e que só se importava com o desempenho dela na academia. Reginald era aquele que não suportava alegria, besteiras ou conversas à mesa. Ele foi o responsável por mandar Luther, o único filho que restara, para a lua, sem propósito algum.

Então, seria surpresa que ele quisesse que as crianças se arriscassem novamente? Por ele? O que ele tinha de tão importante como objetivo, que fazia com que estivesse disposto a sacrificar tudo para encontrar o que quer que fosse do outro lado?

- Arriscaram até agora, qual seria a diferença? - Reginald perguntou, dando de ombros, como se fosse algo trivial.

Antes que Celeste, da Umbrella, lançasse um comentário ácido o suficiente para começar uma discussão com o pai, Viktor, sempre curioso, fez uma pergunta que ninguém esperava.

- Por que os construtores dessa "porta dos fundos" precisam de um guardião?

- Pra protegê-los de pessoas que queiram usá-los para fins malignos - Sloane explicou com entusiasmo, quase como se já soubesse o que viria a seguir. Ela e seus irmãos haviam ouvido aquela história tantas vezes que poderiam repeti-la de cor.

- Então, se formos sem maldade, conseguimos tocar os sinos numa boa? - Celly perguntou, despejando uma boa dose de sarcasmo. - Essa história tá cheia de furos no roteiro-

- O papai vai precisar da gente pra derrotar a coisa que tá protegendo os sinos - Allison interrompeu, tentando acalmar a situação. Celeste soltou um suspiro exasperado, como se aquilo fosse uma grande maluquice.

- Tá mesmo acreditando nesse negócio? - Cinco perguntou, erguendo uma sobrancelha, olhando para Allison com desconfiança.

- Por que um guardião e sinos são mais malucos do que maletas que viajam no tempo e assassinos com máscaras de desenho animado? - Allison retrucou com ironia, colocando Cinco em silêncio. "Ela tem um ponto..." ele pensou, surpreso.

- Na verdade, agora ela te pegou - Luther disse, dando de ombros com aquela típica alfinetada alegre de irmão.

Nos momentos seguintes, Ben se levantou e foi para o lado de Reginald, como se aquilo nunca tivesse sido uma dúvida para ele. Cinco não pôde deixar de desconfiar.

- Eu topo.

Cinco não pode evitar o pensamento de que Ben poderia ter estado na Suíte do Búfalo, mas suas suspeitas só aumentaram quando Diego também se levantou.

- Eu também - Diego disse, sem hesitar. Lila, que estava deitada no colo dele, resmungou um "Ai!" quando ele a deixou sem apoio. - Mas alguns de nós precisam ficar aqui. Tipo a Lila.

- Ou você pode ficar, e eu vou - Lila rebateu com ironia, se levantando do sofá. Lila não era do tipo que deixava todo o trabalho para os outros e a tratavam como se fosse incapaz de fazer algo.

- Não. Isso é muito maior que todos nós. Ninguém pode ficar pra trás - Allison respondeu, com seriedade. Ela parecia querer garantir que o plano fosse perfeito, sem nenhum erro. Mesmo que Celly, da Umbrella, não tivesse ouvido a conversa estranha na Suíte do Búfalo naquela noite, ela sentiu uma sensação instintiva, algo que a fazia acreditar que Allison estava escondendo algo.

- Vocês, meus filhos, são tudo o que há entre nós e o Oblivion. Estamos prontos? - Reginald perguntou, tenso. Ele sabia que aquele era o plano da vida dele.

- A gente devia votar - Viktor disse, dando de ombros com aquela indiferença que fazia tudo parecer simples, mas ninguém estava realmente preparado para decidir algo tão pesado assim, de última hora.

A decisão envolvia dois caminhos: ceder mais uma vez a Reginald, confiar nele e arriscar a vida em um hotel-labirinto, ou simplesmente descansar e seguir o plano que Cinco havia sugerido antes, com toda a objeção consciente de um bom senso.

- Concordo - Celeste falou, balançando a cabeça afirmativamente. Era raro ela se alinhar com algo tão pragmático, mas tudo o que fosse contra a pressa de Reginald a fazia sentir que estava do lado certo. - Arriscar nossas vidas porque você acha que é a melhor opção não é justo. E quem sabe que tipo de guardião está nos esperando lá do outro lado? - Ela deu de ombros, mantendo a expressão séria.

- Isso não é uma democracia - Ben rebateu, com a voz ríspida, mais impaciente do que o habitual.

- Claro que é! Nossas vidas estão em jogo aqui - Celeste replicou, com os olhos desafiadores.

- Eu tô com eles. Vamos votar - Cinco falou, também aderindo à ideia, sua voz grave, mas com um toque de alívio por finalmente ter algo em que se agarrar.

- O mundo está acabando e vocês querem contar votos? - Reginald perguntou, incrédulo. O cenho franzido e a expressão irritada mostravam que ele já esperava esse tipo de resistência. Ele sabia onde isso ia parar: cada um puxando para seu próprio lado, fazendo joguinhos de influência...

- Tá pedindo pra gente arriscar nossas vidas, então é justo que a gente tenha tempo para discutir, não? - Luther interveio, tentando trazer uma dose de calma ao ambiente, ainda que sua voz carregasse um toque de desconfiança. Ele deu de ombros, com a expressão inalterada. Sloane, ao lado, concordou com a cabeça.

Reginald soltou um suspiro exasperado, a decepção estampada em seu rosto. Ele queria resolver aquilo rapidamente, mas não podia forçar a mão. Ele deu uns tapinhas nas costas de Ben, quase como se fosse uma despedida, e saiu, os passos rápidos e irritados ecoando pelo salão, criando uma distância que parecia também afastar o clima tenso que tomava conta do local.

- Por que a gente não se encontra aqui em uma hora? - Luther perguntou, tentando aliviar o peso do silêncio que havia se instalado no grupo.

- Tá. - Celeste assentiu, quebrando o silêncio.

- Eu concordo - Cinco completou, mais calmo.

- Depois a gente se encontra - disse Sloane, a decisão tomada, mas ainda com o peso da dúvida pairando sobre todos eles.

「· · • • • ⛈︎ • • • · ·」

Quando Celeste e Cinco subiram de volta para a suíte para refletir sobre a votação, o silêncio entre eles era pesado, quase ensurdecedor. Os outros irmãos tinham se dispersado pelo hotel, e, após trinta e dois minutos de tensão, Celeste e Cinco já estavam chegando a um consenso... mas, na verdade, estavam bem divididos em suas opiniões.

Para Cinco, a ideia de ver Celeste atravessando aquela porta perigosa era algo que ele simplesmente não conseguiria aceitar em nenhum universo possível. No entanto, uma parte dele, apesar de tudo, estava começando a questionar sua objeção. Afinal, agora ela era sua noiva, e, de alguma forma, ele precisava protegê-la, dar-lhe uma vida. Se houvesse qualquer chance de salvar o que fosse possível, ele faria, ele realmente faria.

Mas para Celeste, a objeção consciente que Cinco tinha imposto sempre a irritou. Ela havia aceitado, sim, para não vê-lo triste, mas agora a situação era outra. Algo dentro dela estava chamando. Ela sentia que havia respostas lá, do outro lado. Havia confusão, claro. Era como se seu sexto sentido estivesse em frangalhos, gritando contraditórios: "Entre, há respostas" e "Não entre, é perigoso!". E, no meio disso, ainda havia as visões. Aquela que ela tivera poucos dias atrás, naquela suíte, logo após a discussão sobre Harlan. Ela tinha quase certeza de que era uma visão sobre o Oblivion. Então, por que não entrar?

Agora, ali estava ela, deitada, olhando para o teto imaculadamente branco, as mãos entrelaçadas sobre a barriga, como se estivesse tentando ordenar os pensamentos. Parada. Calma, mas com um nó na garganta. Tensa, mais do que imaginava, sem saber qual decisão tomar.

Cinco estava a poucos passos de decidir o que faria. Ele estava olhando o próprio reflexo no espelho do banheiro, com a porta aberta, os dedos batendo levemente na pia de mármore branco. Então, ele soltou um suspiro profundo.

- Você fica - disse ele, dando de ombros, a voz séria.

Celeste foi arrancada de seus pensamentos, quase sem acreditar no que ouvira.

- Como é? - perguntou, incrédula.

- Isso mesmo que você ouviu. - Cinco saiu do banheiro, parando ao lado da cama, olhando-a com uma seriedade que a pegou de surpresa. Ele não estava brincando.

- Não vou ficar, Cinco. Isso não cabe a você. - Ela falou com firmeza, sem olhar para ele, como se estivesse tomando uma decisão, ainda que o silêncio pesasse.

- Como não cabe a mim, querida? - Ele se aproximou, franzindo o cenho, confuso. Quem sabe ela não havia se expressado corretamente. Deu um passo à frente, mais surpreso do que queria admitir. - Somos noivos agora. Não estou pedindo para você ficar só por um simples gesto de carinho. É por amor. Porque eu não vou suportar se algo acontecer com você e...

- Sabia que não temos tempo? - Ela o interrompeu, finalmente saindo da posição em que estava. Sentou-se na cama e o olhou com aquela calma que beirava o irritante. Cinco soltou um suspiro, sentindo o peso da situação. - Daqui a vinte e sete minutos, a reunião vai acontecer, e depois teremos mais uma hora e meia de vida. Se vocês entrarem... não vão resolver tudo em tão pouco tempo. Eu vou morrer aqui fora, Cinco! E eu não... - A voz dela vacilou, e Cinco sentiu o peito apertar. - Eu não tô pronta pra acabar.

Naquele momento, algo se quebrou dentro dele. Ele percebeu que não estava apenas falando da vida dela. Ele sentiu que ela estava falando de algo mais profundo, algo que os envolvia, que os conectava. Algo que ele não sabia como salvar.

- Mas eu posso consertar tudo lá dentro e-

- Comigo morta aqui fora? - Ela interrompeu, a irritação começando a transparecer. - Seja no figurativo ou não, eu vou estar morta ou morrendo de ansiedade. - A seriedade na voz dela era inegável, e Cinco sabia exatamente como ela ficava quando estava decidida. Ela se levantou da cama rapidamente, caminhando em direção ao banheiro com a frustração evidente. - Não vou me separar de você.

Cinco soltou um suspiro exasperado, passando as mãos pelo rosto. Antes que ela passasse por ele, ele segurou a mão dela, com força, mantendo-a ali. Ela resmungou, lançando-lhe um olhar.

- Ele disse "Não leve-a". - Cinco falou com a voz carregada, e Celeste sabia exatamente a quem ele se referia: à versão mais velha de Cinco. Ele a encarou, procurando algo nos olhos dela, algum sinal de que ela ficaria. - Não consigo imaginar nada mais importante que você para que eu... tivesse me avisado na hora de morrer.

O coração de Celeste deu um salto. "Ah, ele sabe ser romântico", pensou, mordendo o lábio inferior, relutante. Soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.

- Eu nunca quis ter só uns dias com você. - A voz dela era baixa e intensa, a cabeça balançando negativamente de forma quase inconsciente. As palavras eram pesadas demais para ela expressar. - Agora é a chance que eu tenho de fazer algo por nós. E eu vou fazer. Com seu consentimento ou não, querido.

Cinco soltou um suspiro resignado. Não iria adiantar tentar mudar a opinião dela, ele sabia disso muito bem. Ela era teimosa, e isso era uma certeza.

- Tudo bem. - Ele disse, soltando a mão dela, dando de ombros, mas com um olhar que mostrava o quanto a decisão a frustrava. Não estava feliz, mas, se não pudesse convencê-la, só havia uma escolha: ir contra o desejo dela na reunião. Se fosse para ela ir, ele também não iria. Faria o impossível para mantê-la fora do Oblivion. Colocou as mãos nos bolsos e soltou outro suspiro. - Você que sabe.

Ele queria que ela tivesse escolha, queria que ela fosse livre, claro. Mas não podia deixar que ela entrasse naquele lugar.

- Vamos ver o Luther, por favor? - Ele perguntou, mudando de assunto abruptamente. A mudança o fez perceber que Celeste arqueara uma sobrancelha e cruzara os braços, claramente desconfiada.

- O quê? - Ela perguntou, a voz carregada de desconfiança. - Por quê?

- Porque... queria ver meu irmão.

- Ah é? Ver o Luther-

Antes que ela pudesse rir daquilo, os dois reapareceram no corredor do andar superior. Cinco estava impaciente, mas havia algo em seu comportamento que não passava despercebido: ele estava, de fato, preocupado. Não queria que ela entrasse no Oblivion. Não importava o que acontecesse.

- Ei! - Ela resmungou, irritada. Não havia pedido para ir junto.

- Shh. - Ele pediu, com uma tranquilidade que parecia tentar suavizar o clima. Afinal, estavam prestes a encarar uma possibilidade de morte em algumas horas. Colocou a mão na nuca dela, conduzindo-a suavemente pelo corredor. - Sem fiasco.

Celeste franziu o cenho, um tanto surpresa com a atitude dele. "Que isso, hein?" pensou.

- Vamos só ouvir a opinião do Luther e depois descemos para a votação. - Ele disse, já caminhando pelo corredor, puxando-a para acompanhá-lo. Celeste deu um suspiro impaciente, dando umas pequenas batidinhas com os pés. Então, fez uma careta. Para ser honesta, não estava nem aí para a opinião dos outros. O que ele pensava não mudaria nada.

- Tá, tá. Que seja.

Cinco bateu na porta com leveza, quase sem pressa. Do outro lado, ouviu-se um resmungo, seguido da voz de Luther, dizendo "pode entrar". Celeste girou a maçaneta e foi a primeira a entrar no quarto espaçoso, que exalava um leve cheiro de canela.

Luther estava sentado na cama, que ocupava o centro do cômodo. Quando ele ergueu a cabeça para olhá-los, parecia surpreso, mas nada que não fosse esperado.

- Oi - Cinco disse, direto, sem mais nem menos. Celeste apenas balançou a cabeça, não se dando ao trabalho de cumprimentar. Para ela, não havia uma introdução ou despedida com os irmãos. Era o que era.

- Oi. - Luther respondeu, dando de ombros, mas logo emendou a pergunta de sempre. - Quanto tempo ainda temos?

- Umas duas horas - Cinco respondeu, com um tom despreocupado. Celeste, por sua vez, seguiu para a prateleira e começou a mexer distraidamente nos globos de neve empilhados, como se nada ali fosse realmente importante. - Pode ser mais, pode ser menos.

- Cadê a Sloane? - Celeste perguntou, erguendo uma sobrancelha, parando de mexer nos globos e mirando Luther, esperando uma resposta.

- Atacando a adega, para a nossa festa do fim do mundo.

- Então acho que já sabem no que vão votar. - Cinco disse, mais como uma constatação do que uma pergunta. Ele não via sentido em entrar no Oblivion, e sabia que Luther e Sloane estavam alinhados com isso. Caminhou até a grande janela, parando ali por um momento, antes de voltar despreocupadamente para o centro do quarto. Um sorriso pequeno e discreto escapou dele.

Cinco, porém, não conseguia se colocar no lugar deles. "Como viver mais duas horas é o suficiente quando se pode ter uma vida inteira?", ele se perguntava internamente. E na verdade, ele só não aceitava o Oblivion por causa da sua interação consigo mesmo na Comissão.

- Vai ser bem-vindo lá - Luther comentou, referindo-se à reunião. Cinco, na verdade, havia proposto a ideia de não tentar salvar o mundo desta vez. Não faria sentido se juntar à votação.

- Eu ainda tô... relutante com a minha decisão - Cinco disse, com um tom calmo, quase como se estivesse escolhendo cuidadosamente suas palavras. Celeste largou o globo de neve na prateleira e o olhou com o cenho franzido. Cinco, percebendo o olhar dela, fingiu que não o notou.

- Ele quer ficar porque não quer que eu vá. - Celeste explicou para Luther, quase revirando os olhos de tanta irritação. Era impressionante como Cinco conseguia ser adorável e irritante ao mesmo tempo, em um espaço de tempo tão curto.

- Eu vi uma coisa ontem à noite que eu não devia ter visto. - Cinco se corrigiu. Luther, claramente perdido, parecia uma criança no meio de uma discussão entre pais. Olhava de um para o outro, sem saber quem apoiar ou o que fazer.

- O Diego e a Lila? - Luther chutou, erguendo uma sobrancelha, quase convencido da resposta. - É, eles se agarram na escada às vezes...

- Quanta elegância. - Celeste debochou, soltando uma risada de escárnio. Luther deu de ombros, sem se importar. Celeste se afastou do canto onde estava, sem muito o que fazer, e então se aproximou de Cinco, colocando uma mão em seu ombro, apoiando-se nele.

- Nem me fale. - Cinco concordou, revirando os olhos só de pensar no que vira. - Eu vi o papai. - Ele corrigiu Luther. - Ele estava no quarto dele com alguém. Estava fazendo algum tipo de acordo. E antes que você me pergunte, eu não sei qual era o acordo, nem quem era a pessoa. - A voz de Cinco ficou sombria e misteriosa. - Tô tentando decifrar isso ainda.

- Não sabia sobre isso. - Celeste falou, erguendo uma sobrancelha e fitando-o nos olhos. Cinco crispou os lábios, um pouco incomodado.

- Foi na hora do elevador. Você me puxou. - Cinco explicou, como se tentasse esclarecer a situação. Celeste soltou um suspiro, sentindo-se culpada. "Ótimo, estraguei a chance de resolver o mistério", pensou. Mas Cinco não parecia culpá-la nem um pouco.

- Não era nem eu nem a Sloane. - Luther afirmou, com um sorriso no rosto. Celeste franziu o cenho, desconfiada. "Que isso, meu Deus?". - Nós estávamos... ocupados com outras coisas ontem à noite.

- É, entendi, Luther. Obrigado. - Cinco debochou. - Todo mundo estava transando ontem à noite.

- Espera aí, vocês também? - Luther perguntou, surpreso. Ele ficou pensando, esperava um "Todo mundo, menos nós", mas não haviam dito isso. Então agora, esperava uma resposta típica de "Claro que não, seu idiota!". Mas, para surpresa dele, Celeste parecia mais envergonhada do que o normal. E isso era praticamente impossível de se ver.

- Isso importa? - Ela retrucou, com firmeza, tentando mudar de assunto.

- Ai, meu Deus. - Luther falou, calmamente, um sorriso irônico no rosto. Cinco soltou um suspiro exasperado, passando as mãos pelo rosto. - Vocês perderam a virgindade- - Ele riu nervosamente, enquanto Celeste engasgava com nada.

- Se concentre, por favor. - Cinco pediu, revirando os olhos e travando o maxilar, claramente irritado. - Está deixando minha noiva desconfortável.

- Noiva? - Luther perguntou, erguendo uma sobrancelha, claramente surpreso. - O casamento de ontem foi... meu...?

- É óbvio que foi seu, Luther. - Celeste respondeu, meio irritada, com uma expressão de incredulidade. "Tão esperto para algumas coisas, tão burro para outras", pensou, com ironia. - Mas... Cinco pediu. Depois da festa.

- Ah... - Luther ficou boquiaberto, e o casal pôde ver claramente seu rosto se tingir de um vermelho feliz.

Antes que ele pudesse parabenizá-los, Cinco, rápido como sempre, cortou o momento. Ele percebeu para onde a conversa estava indo e puxou o foco de volta.

- Aquela história sobre os sinos. Tem alguma coisa que o papai não está contando. Pensa nisso. - Seu tom era desconfiado, os olhos se estreitando.

Luther piscou algumas vezes antes de finalmente se situar.

- Quando foi que o coroa foi sincero com a gente?

- Ah, eu não sei. - Luther deu de ombros, forçando a memória. - Ele era bem grosseiro nas avaliações de desempenho.

- É? Ele sempre nos deu cinco estrelas. - Cinco retrucou, franzindo a testa.

Celeste segurou uma risada.

- Sério?

- Olha, eu sou velho o suficiente pra confiar nos meus instintos, e eles estão me dizendo que isso é uma armadilha. - Cinco declarou, com firmeza.

Celeste percebeu na hora o que ele estava fazendo: tentando fazer Luther desistir da ideia de entrar no Oblivion e, de quebra, trazê-lo para o plano deles. Seu olhar se estreitou. Ela não gostou daquilo nem um pouco.

- Pensa no assunto. - Cinco finalizou, antes de pegar a mão dela. - Vamos, amor?

- Pra já.

「· · • • • ⛈︎ • • • · ·」

Alguns longos minutos se passaram após a conversa com Luther. Cinco puxou Celeste até a suíte do Búfalo para inspecionar o lugar. Vasculharam cada canto, procurando marcas de pegadas, sinais de outro hóspede ou qualquer pista que provasse que Reginald não estava sozinho na noite anterior. Mas não havia nada. Nada além de um silêncio frustrante.

Cinco sentiu a irritação crescendo. Estaria enlouquecendo?

Ele tinha certeza absoluta do que vira. Estava completamente sóbrio na noite passada, então não havia erro... certo? Mas e se estivesse perdendo a cabeça? Não seria a primeira vez que via coisas que não existiam. Depois que saiu do Apocalipse, lembrava-se vividamente da vez em que, por um instante, achou que ainda estava nele. Dentro da van roubada. Na primeira linha do tempo. Com Celly ao seu lado.

Ele respirou fundo. Agora não era hora para devaneios ou para marcar uma consulta com um psiquiatra. Também não tinha tempo para interrogar cada membro da família sobre seu álibi.

Quando a hora da votação finalmente chegou, Klaus, Ben e Celeste foram os últimos a aparecer. Celly estava sentada na escadaria, enquanto Cinco se encostava contra uma das pilastras fluorescentes. Ela já tinha sua decisão tomada. E estava certa disso. Sem hesitação.

E ele?

É claro que queria viver uma vida ao lado dela. Mas as coisas nunca eram tão simples.

O clima de suspense se instalou quando Allison quebrou o silêncio.

- Acho que todo mundo sabe em que opção eu vou votar - começou, a voz surpreendentemente doce, considerando o rancor que guardava da família inteira. - Nós perdemos muita coisa. Todos perdemos pessoas. Mas essas mortes têm que significar alguma coisa.

A tensão era palpável. Todos aguardavam, ansiosos, pelo rumo que a votação tomaria. Celeste observava Allison com atenção. Algo nela parecia... certeiro demais.

- E é por isso que eu voto em ir com o papai.

No topo da escadaria, Lila se levantou, descendo os degraus com um meio sorriso. Ao passar por Diego, lançou-lhe um olhar rápido antes de se posicionar ao lado de Allison.

- Eu tô com ela - anunciou, sem hesitar. - Vamos salvar a droga do universo! - completou, animada.

Celeste, de onde estava, percebeu a troca de olhares entre Diego e Lila. Havia algo ali. Um segredo. Ela era esperta, treinada. Não tomaria essa decisão levianamente.

- Tá bom. Já que ela disse sim, eu voto não. - Diego deu de ombros, como se aquilo fosse uma brincadeira.

Lila riu, irônica.

"Que união", pensou Celeste, a da Sparrow.

- Achou isso legal? - provocou, claramente provocante.

Diego estava armado, o que sugeria que, inicialmente, ele pretendia aceitar a proposta. Mas, no último instante, algo fez com que mudasse de ideia.

- Você não tá falando sério - Lila retrucou, a frustração evidente em sua voz.

- É o voto dele, Lila - interveio Allison, como se aquilo não importasse. Ela ainda estava confiante. Ainda tinha cartas na manga. - Klaus?

- Eu vou com o papai - respondeu, sorrindo, como se nunca tivesse havido dúvida.

Reginald virou-se para Ben, como se só buscasse uma confirmação. Benjamin não hesitou, apenas assentiu.

- Tudo bem, são quatro a um - Allison declarou, soltando um suspiro. Suas mãos tremiam levemente. Ela sentia a vitória se aproximando. - Viktor.

Viktor hesitou.

- Olha, eu quero acreditar, tá bom? - começou, visivelmente desconfortável. Ele se sentia culpado. Não queria se opor a Allison, não era nada pessoal. Mas ultimamente as coisas estavam tão tensas entre eles... Ele sabia que qualquer "não" soaria como uma bomba prestes a explodir. - Eu quero muito. Mas eu não consigo parar de achar que a gente não sabe no que tá se metendo.

- Não, mas já sabemos o que vai ser se não formos - rebateu Allison, firme. Para ela, ficar ali e morrer sem ao menos tentar estava fora de cogitação. - Nós precisamos fazer isso juntos, Viktor. Em família.

Viktor a encarou, sentindo um nó apertar seu estômago.

- Você não pode ficar usando a palavra "família" à toa - pediu, desgostoso. Sabia bem o jogo que ela estava jogando. E odiava isso. - Isso não basta. Eu voto em ficarmos.

O rosto de Allison endureceu.

Ela relutou por um instante, os punhos se fechando com força ao lado do corpo. A raiva queimava dentro dela como um incêndio prestes a sair de controle.

E, naquele momento, Viktor soube que havia se tornado, mais uma vez, uma de suas maiores decepções.

- Luther. - A voz dela já carregava impaciência.

Ele suspirou antes de responder.

- Eu e a Sloane conversamos e... não dá. - Allison sentiu o controle da situação escapar por entre os dedos. - Desculpem. Olha, queremos aproveitar o tempo que ainda temos juntos e não... - ele resmungou, como se a ideia fosse a coisa mais sem graça do mundo. Sloane, ao lado dele, apenas assentiu. - Ficar lutando contra um cara com uma espada e tocando sinos por aí.

- Bom, empatou. - Viktor anunciou, dando de ombros. - Quatro querem, quatro não. Celly?

Celly não precisou pensar. A resposta era óbvia, quase instintiva. Nunca hesitara antes e não hesitaria agora. Se arriscaria, se fosse preciso, para ter uma vida com Cinco. E, sinceramente, não se importava se ele ia gostar disso ou não.

- Eu vou. - Ela declarou, firme.

Cinco soltou um suspiro carregado. Ele odiava quando ela era tão teimosa.

- O quê? - Sua voz saiu decepcionada. Depois de tudo o que dissera, ainda não era o suficiente para convencê-la a ficar? - Você pode morrer lá dentro!

- E daí? - Ela rebateu, dando de ombros. - Se eu ficar, vou morrer aqui fora sem nem tentar.

Cinco passou a mão no rosto, sentindo os dedos trêmulos.

- Bom, nesse caso, eu tenho ainda mais certeza de que vou ficar. - Ele afirmou, mais para si mesmo do que para ela. Odiava parecer um casal caótico como Lila e Diego, mas se fosse preciso, faria Celly desistir. - Não vou deixar você morrer lá. Eu vi o futuro, e ele me disse para ficar fora disso. Mesmo escapando do Oblivion, ele não tinha motivos para me dizer "tente". Pelo contrário, ele disse para eu não salvar o mundo. E eu sinto que se formos, algo ruim vai acontecer com você. Então... não posso aceitar isso. "Não leve-a", foi o que ele disse. E eu tenho a forte impressão de que, na hora de morrer, eu estava falando sobre você.

Celly respirou fundo, lutando contra a irritação que crescia dentro dela. Por que ele simplesmente não tenta?! Sabia que ele queria protegê-la, mas, sendo cruel ou não, ela sobreviveu quase vinte e um anos sem ele. E sobreviveria agora.

- Falta o último voto. Celeste? - Allison perguntou à garota da Sparrow, que estava escorada no corrimão da escadaria, pensativa.

Celeste apenas balançou a cabeça, negando.

Allison piscou uma, duas vezes. Uma derrota amarga. No início, tinha tudo sob controle, mas a votação havia virado drasticamente contra ela.

"Não vale a pena", Celeste gesticulou em Libras, antes de lançar um olhar significativo para Cinco. "Eu vi a versão mais velha dele dizendo para desistirmos."

Allison sentiu o sangue ferver. Cerrou os punhos, incrédula, fora de si.

- Vocês são patéticos. - A palavra saiu envenenada, carregada de puro desgosto.

Ela girou nos calcanhares e saiu do salão, os passos rápidos, o peso da derrota sobre os ombros. A tensão no ambiente ficou quase sufocante. Todos sabiam o quanto ela queria aquilo.

Ben quebrou o silêncio:

- Por que não podemos ir só nós cinco? - Perguntou a Reginald, ainda se agarrando a qualquer possibilidade.

Celly soltou um suspiro longo. No fim das contas, não teria escolha.

- Com certeza seria um fracasso. Tem que ser sete. Sete sinos. - A voz de Reginald carregava uma amargura densa. Parecia tão decepcionado quanto Allison, mas lidava com isso de forma muito mais contida.

Ele respirou fundo antes de se virar para encarar seus filhos.

- Crianças, não posso dizer que estou feliz com isso - começou, dirigindo-se ao grupo reunido. Celly trocou um olhar com Cinco, sentindo a decepção pesar no peito. Queria que ele lutasse por ela. - Mas agora vejo que a culpa é toda minha. Falhei com vocês quando eram jovens e falhei com vocês agora. E, ao fazer isso, condenei todo o universo.

O silêncio se instalou, sufocante.

- Se alguém precisar de mim, estarei no pátio... esperando pelo fim - finalizou, a voz carregada de melancolia antes de se retirar.

- Idiotas - murmurou Ben, saindo logo em seguida. O gosto amargo da derrota pairava no ar, embora, do outro lado da moeda, alguns parecessem quase aliviados.

- Aquelas desculpas foram reais? - Viktor perguntou, cético, arqueando uma sobrancelha.

- Ele nunca pediu desculpa por nada na vida - Luther apontou, dando de ombros. Não confiava totalmente nas palavras do pai. Mas quem sabe? Talvez a proximidade da morte estivesse tornando Reginald um pouco mais humano.

- Eu tô sentindo pena dele. - Diego crispou os lábios, a voz carregada de hesitação.

- Não esquenta. Vai passar. - Cinco declarou sem muita emoção, afastando-se da coluna onde estava escorado.

Seus olhos rapidamente encontraram Celly. Ele sabia o quanto ela queria aquilo. Sabia que, para ela, desistir era quase pior do que morrer tentando. Mas, ao menos, ela estaria segura.

- E o que a gente faz agora? - Sloane perguntou, enquanto Klaus se afastava, decidido a procurar o pai.

- Esperamos pelo fim. - Cinco deu de ombros. Não havia muito mais a ser feito.

- Poderíamos estar lutando contra ele agora. - Celly rebateu, amarga.

Sem mais palavras, levantou-se e saiu. Não trocou um último olhar com Cinco nem com os que haviam votado para ficar. Apenas foi, os passos firmes e decididos rumo à própria suíte. Odiava aquela sensação de impotência.

- Até mais. - Cinco suspirou, observando-a se afastar. - Foi bem interessante.

E então, seguiu atrás dela. Sabia que ela provavelmente não queria falar com ele. Sabia que, agora, morreriam brigados. Mas também sabia que Celly era teimosa demais para se proteger sozinha. Se fosse para partir, ao menos partiria sabendo que garantiu a segurança dela. Que não precisaria vê-la morrer na sua frente outra vez. Isso, de certa forma, era um consolo.

Enquanto isso, Luther voltava para seu quarto após cerca de vinte minutos. Ao passar pela suíte do Búfalo, viu, pela fresta da porta, Reginald sentado em uma poltrona. O mais velho estava pensativo. Temendo o inevitável fim.

Luther e Sloane haviam passado aqueles minutos rindo e se divertindo. Mas, em vez de voltar para a esposa, ele sentiu um impulso inesperado. Talvez fosse idiotice. Mas talvez fosse simplesmente... empatia.

Resmungou um "Ai, droga", odiando ver o pai tão melancólico, e entrou no quarto sem cerimônia.

- Oi, pai.

Luther segurava uma garrafa de champanhe. Quando Reginald o encarou, seus olhos foram direto para a bebida.

- Krug, 1968. Excelente safra. - Comentou, apontando para a garrafa, um raro vestígio de camaradagem surgindo entre os dois.

- É. - Luther concordou, sem saber exatamente o que dizer. - Um último brinde com a Sloane antes de...

- Hum. - Reginald resmungou, desviando o olhar para os próprios pés. Havia tensão em cada traço de seu rosto.

Luther hesitou.

- A máquina de gelo do nosso andar tava quebrada, então eu... - Ele apontou para a saída, já ensaiando uma desculpa para sair dali. Mas não foi. Algo o impediu.

Por mais que odiasse admitir, era esse o seu jeito. Sempre tentando fazer o que achava certo.

Ele respirou fundo antes de perguntar:

- Você tá bem?

- Esse foi o fracasso da minha vida. - Reginald declarou, sem rodeios. Deu de ombros, como se estivesse apenas constatando um fato. E, de certa forma, estava. Ele havia estudado o terreno, a Terra, adotado crianças poderosas, construído um hotel ao redor da entrada... Tudo. E, no fim, nada daquilo havia funcionado. - Estou aqui, observando séculos desperdiçados, porque um outro eu foi ruim com os filhos.

Luther suspirou, já prevendo onde aquele drama iria parar. Deixou a garrafa de champanhe e os cubos de gelo no chão, hesitando por um momento antes de se aproximar do pai. Seus passos vacilaram levemente.

- Escuta, pai, não é tão simples, tá bom? - Ele franziu o cenho, tentando conter a frustração que crescia dentro de si. - Você tem ideia de como é difícil dizer "não" pra você? Mas eu precisei.

- Luther, o universo está se destruindo-

- É, eu sei, eu sei! - O loiro explodiu, jogando as mãos para o alto enquanto andava pelo centro do quarto. Sentia que, se havia um momento para despejar toda a amargura guardada contra o pai, era agora. Afinal, todos estavam prestes a morrer. - Mas sempre tem alguma coisa, sabe? Dediquei toda a minha vida a você. Tudo o que você me pediu pra fazer, eu fiz. Mas não vou mais fazer.

- E nem devia. - As palavras de Reginald soaram quase... gentis. Se não estivesse realmente arrependido, então ele sabia atuar muito bem. Seus olhos carregavam um peso que Luther nunca tinha visto antes. Ou talvez só nunca tivesse prestado atenção. - Você é um homem notável, Luther. E, apesar de tudo o que eu fiz você passar, espero que possa me perdoar.

Luther ficou imóvel. Seu coração acelerou.

- Você pode? - Reginald se aproximou um pouco mais, e a voz ganhou um tom mais grave, quase melancólico. - Você pode me perdoar, filho?

A palavra "filho" atingiu Luther como um soco no peito. Ele sempre quis ser notado, reconhecido. E agora... agora seu pai estava ali, pedindo perdão.

Ele hesitou. Algo nos olhos de Reginald parecia errado. Uma fagulha de mentira, talvez. Mas... por quê?

Ainda assim, Luther queria perdoá-lo. Precisava disso. Queria morrer em paz com ele.

- Posso. - Ele assentiu, os punhos cerrados ao lado do corpo, tentando ignorar o desconforto que se formava em seu estômago. - Posso, é claro.

Então, sem aviso, Reginald o abraçou.

Um abraço.

Simples para alguns, mas para Luther...

Seus batimentos aceleraram. Nunca havia sentido aquilo antes. O calor, o conforto, a sensação de pertencimento. Era isso o que significava ter o amor de um pai? Porque, se era, então era incrível.

- Obrigado.

Luther fechou os olhos por um momento, permitindo-se sentir aquele instante. Era como estar em casa. Como preencher um vazio que ele nem sabia que existia.

- Obrigado. - Reginald repetiu, a voz baixa.

Mas havia algo errado.

Se o rosto do velho não estivesse afundado na curva do pescoço de Luther, talvez ele tivesse percebido. Percebido o tom vazio. A frieza camuflada nas palavras.

- Eu só gostaria que a sua realização pessoal tivesse acontecido num momento melhor pro universo.

- O quê? - Luther riu, sem entender. Ainda envolvido no abraço, ele apertou o pai um pouco mais forte. - Eu não entendi.

Foi então que tudo mudou.

Reginald nunca foi de toque físico. Nunca foi de palavras sentimentais. E agora, tudo aquilo fazia sentido.

O jogo de manipulação que ele sabia jogar tão bem...

Luther sentiu uma dor estranha no peito. Seus olhos se arregalaram. Quando olhou para baixo, viu.

Reginald não era humano.

Uma lâmina longa e curva emergia de dentro dele. E, antes que pudesse processar completamente... Ele percebeu.

Seu pai estava o assassinando.

Luther não conseguia ver o rosto do pai. Apenas sentia uma decepção esmagadora. A adrenalina pulsava em seu corpo, mantendo-o consciente, mas a realidade era inegável: seu peito estava aberto, o sangue jorrava, e o ar parecia cada vez mais distante, mesmo que ainda houvesse oxigênio ao redor.

- Pai...

- Existe um velho ditado, Luther: o melhor jeito de unir uma família é com um casamento... ou com um enterro. Tentamos um. Agora é hora de tentar o outro. - Reginald declarou, com uma calma assustadora.

E então, sem hesitação, a lâmina alienígena - que fazia parte dele como se fosse um prolongamento de seu próprio corpo - deslizou para fora do peito de Luther. A dor foi indescritível. Ele sentiu sua pele sendo arrastada, cada fibra se rasgando de dentro para fora. Seus músculos enrijeceram em uma tentativa desesperada de se manter de pé. Ele olhou nos olhos do pai.

E então, suas pernas cederam.

Caiu de joelhos.

- Sloane... - murmurou, a voz vacilante. Lutava contra a morte com tudo o que tinha, mas a adrenalina só conseguiria segurá-lo por mais alguns instantes.

- Eu sei, eu sei. - Reginald suspirou, quase entediado. - Você acabou de encontrar o amor. Que pena, não é? Mas não se preocupe... eu vou cuidar muito bem dela.

- Você... - Luther tentou reagir, mas a frase morreu em sua garganta.

Antes que pudesse juntar forças para uma última ameaça, Reginald o atingiu novamente. Um golpe final.

O sangue de Luther esguichou para todos os lados. O carpete, o tapete branco, tudo foi manchado com o resultado daquela traição cruel. E ninguém nunca saberia. Ninguém nunca descobriria que ele morreu pelas mãos do próprio pai. Um momento que deveria ser significativo, talvez até redentor, foi reduzido a uma mentira brutal.

E Reginald?

Ele sequer hesitou.

Quando os olhos de Luther se apagaram, ele simplesmente saiu dali. Não havia razão para permanecer na cena do crime.

Enquanto isso, Cinco e Celly discutiam - ou melhor, Celly discutia, enquanto Cinco comia uma tigela de cereal com a paciência de quem já previra aquele desfecho.

Ela gesticulava, andando um pouco à frente dele, sua frustração evidente. Já Cinco mastigava distraidamente, parecendo alheio ao drama que se desenrolava à sua frente.

- ...e você deveria ter votado comigo! - ela esbravejou, irritada. A contradição entre o peso das palavras e a tranquilidade dos passos dos dois tornava a cena quase cômica.

Cinco continuou mastigando.

- Poderíamos ter tido uma vida juntos, mas não... você prefere uns seis minutos ao meu lado a uma vida inteira comigo.

Cinco revirou os olhos, incrédulo.

- Celly... meu Deus. - Ele resmungou, a boca cheia de cereal. - Tá ouvindo o que você tá falando?

Ela soltou uma risada seca e parou abruptamente, virando-se para encará-lo.

- Querendo ou não, é assim que eu penso.

- Mas não foi por isso que eu votei para ficarmos. - Ele suspirou, os ombros baixando em cansaço.

- Ah, sim. Você votou para ficarmos porque é um medroso. - Ela retrucou, voltando a andar.

Cinco arqueou a sobrancelha.

- Meu eu de cem anos não falaria algo que o meu eu do presente interpretaria errado. E você sabe disso. - Ele deu de ombros. - Eu só queria nos poupar de mais sofrimento.

- Que querido. - Ela ironizou, cruzando os braços. - Vamos morrer de mãos dadas então, daqui a cinco minutinhos...

- Do jeito que você tinha concordado antes. - Ele rebateu, franzindo o cenho.

- Eu nunca aceitei aquilo de verdade. - Ela admitiu, sincera.

Cinco parou de andar. Sentiu um leve desconforto se espalhar por seu peito. Sabia que, lá no fundo, ela nunca gostou daquela decisão, mas dizia a si mesmo que estava fazendo aquilo por ela. Para não lhe dar falsas esperanças.

- Não fez diferença alguma no fim das contas. - Celly bufou, exasperada. - Eu perdi mesmo.

Ela desviou o olhar, os ombros caindo.

- Não vamos entrar naquele buraco do Oblivion, e em cinco minutos estaremos mortos. Passei vinte anos sem você, Cinco. Vinte anos sem a pessoa com quem eu decidi casar. Aí você volta, passa vinte dias comigo e acha que tá tudo certo.

Cinco ficou em silêncio por um momento. O cereal, de repente, já não parecia tão bom.

- Não acho que está ótim-

- O que vocês estão fazendo? - Viktor surgiu no corredor, interrompendo a conversa e se aproximando dos dois.

Celly e Cinco pararam de andar no mesmo instante, trocando um olhar cúmplice. A cena era quase cômica - como se tivessem sido pegos no flagra.

- Comendo cereal. - Cinco respondeu casualmente, como se fosse óbvio.

- Só você tá comendo. Me tira fora dessa. - Celly rebateu, exasperada.

Cinco ergueu as sobrancelhas, pensativo. "Difícil ela".

- Estamos refazendo nossos passos. - Ele esclareceu, corrigindo sua resposta anterior.

Viktor franziu o cenho, sem entender.

- Por quê?

- O velhote tá escondendo alguma coisa. - Cinco respondeu, mastigando mais um pouco do cereal.

Celly, aparentemente alheia à conversa, ouvia tudo de canto de olho.

- É... parece que tem muita gente escondendo coisas. - Viktor murmurou, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta, sem perceber o tom misterioso de suas próprias palavras.

Cinco estreitou os olhos, se voltando para ele com mais atenção.

- Como assim?

- A Allison me pediu desculpas.

Celly arqueou as sobrancelhas, soltando um riso sarcástico.

- Que bom que pediu pra alguém, né? - ironizou. - É uma evolução e tanto.

- Por que isso seria suspeito? - Cinco perguntou, confuso.

- Ontem à noite, ela tava pronta pra acabar comigo no casamento. E hoje de manhã era tudo "família", "papai", "amor". Eu sei lá. - Viktor deu de ombros, claramente desconfiado.

Celly virou-se para ele num estalo, como se tivesse acabado de ver um fantasma.

- Deve ter acontecido alguma coisa... mas eu não sei o quê. - Viktor concluiu.

De repente, algo fez click na cabeça de Cinco. Ele encaixou as peças.

E para sua surpresa, sem nem ter ouvido o diálogo inteiro, Celly chegou à mesma conclusão no mesmo instante.

Os dois se olharam.

O choque foi tão grande que Cinco simplesmente... largou a tigela de cereal.

O impacto no chão foi dramático. O leite espirrou para todos os lados, manchando o carpete limpo.

E então, em perfeita sincronia, os dois exclamaram:

- É a Allison!

O tom de animação decepcionada estava estampado no rosto deles.

- Como não pensamos nela antes?! - Cinco reclamou.

- O quê?! - Viktor piscou, perdido. Afinal, ele não sabia nada sobre o que havia acontecido na Suíte do Búfalo ou sobre as suspeitas que os dois estavam investigando.

Mas antes que Cinco pudesse explicar ou Celly saísse correndo para caçar Allison, um grito cortou o ar.

- NÃÃÃO!

Uma voz feminina.

Os três se entreolharam num reflexo. E então, sem hesitar, dispararam pelo corredor. O som vinha de um lugar bem específico.

A Suíte do Búfalo.

Ao atravessar a porta, a cena que os aguardava os fez congelar. Sloane estava ajoelhada no chão, com o corpo de Luther em seu colo. Ele estava imóvel.

Diego e Lila olhavam a cena, aterrorizados. Viktor foi o primeiro a avançar para dentro do quarto. Mas ninguém sabia o que fazer.

Celeste ficou boquiaberta, horrorizada. Tentava perguntar o que tinha acontecido, mas as palavras simplesmente não saíam. Seu olhar fixou no corte profundo que atravessava o peito de Luther.

Ao contrário dela, Cinco conseguia falar. Ainda que sua expressão estivesse sombria, e claramente nada naquilo o deixasse satisfeito.

- O que aconteceu? - Ele perguntou, o cenho franzido. Tudo era caótico demais para formular frases melhores.

- Ele... ele saiu pra buscar gelo. E não voltou mais... - Sloane soluçava entre as palavras, a voz embargada. - Eu... Eu não sei.

- Deve ter sido ele. O Guardião. - Lila arriscou, a voz carregada de raiva e nojo.

"Mas aqui? O Oblivion está fechado." Celeste, a Sparrow, respondeu em Libras.

- Não importa. Seja lá quem fez isso, tinha uma lâmina longa e curvada. - Diego falou, o tom sério e firme.

Celly soltou um suspiro, inquieta. "Não há outra pessoa que faça isso além do Guardião... mas por que eu sinto que não tem nada a ver com o Oblivion?", pensou. Era como se um sexto sentido quase divino quisesse derramar-se sobre ela.

- Como pode ter certeza? - Viktor questionou, desconfiado. Naquele momento, qualquer um ali poderia ser suspeito.

- Eu não sei muita coisa, mas de faca eu entendo.

Antes que pudessem continuar, passos se aproximaram.

Com todo o burburinho na suíte - soluços, berros e discussões - Reginald entrou apressado, seu ar cínico intacto.

- Crianças, o que está havendo?

Ele caminhou em direção ao quarto, mas assim que seus olhos pousaram no corpo de Luther, ensanguentado no chão, ele hesitou.

Parou na porta.

Seu olhar se fixou na poça de sangue que manchava o carpete.

- Meu Deus... Luther.

- Ele estaria vivo se tivéssemos atacado primeiro. - Ben comentou, amargo. E se sua suspeita estivesse certa, talvez Luther ainda tivesse uma chance.

O silêncio tomou conta da suíte. Mas só por alguns segundos. Porque então... o Kugelblitz começou a engolir o hotel.

A esfera flamejante surgiu pelas portas, expandindo-se com voracidade a cada segundo. As paredes tremiam, poeira de concreto caía sobre suas cabeças, e o chão oscilava como se um terremoto estivesse começando. Viktor chegou a perder o equilíbrio.

Ben foi o primeiro a reagir. Disparou para fora do quarto, tentando ver o que acontecia no corredor.

Celly, que estava parada perto da entrada, girou nos calcanhares e olhou na mesma direção.

Se fosse qualquer outra situação... aquilo até teria uma visão bonita.

- GENTE! - Ben gritou. Mas ninguém prestava atenção. Todos estavam ocupados demais discutindo, tentando achar um culpado.

- AÍ, GENTE!

- O Kugelblitz tá chegando! - Celly, a da Umbrella, berrou, impaciente.

O alerta finalmente quebrou a tensão no quarto.

- O que a gente faz com o Luther?! - Sloane gritou, desesperada. Não podia simplesmente deixá-lo ali. Ele merecia algo melhor... algo digno.

- Não temos tempo! - Ben gritou de volta. - O Kugelblitz tá aqui do lado!

- TODOS PARA A PASSAGEM! - Reginald ordenou, sua voz carregada com algo que quase soava como... esperança. Era agora ou nunca.

- A gente ia ficar aqui! - Viktor retrucou, indignado. Haviam feito uma votação! Tinham decidido não ir!

- Eles mataram o Luther! - Diego rosnou, e agora aquilo era a justificativa perfeita para seguir em frente e vingar o irmão.

- Vamos, crianças!

- Precisamos ir agora! - Allison disse, puxando Sloane pelo braço. Mas Sloane resistia, agarrada ao corpo de Luther.

- Não! NÃO! - Ela chorava, aterrorizada.

Ela não queria deixá-lo.

Ela queria ficar com ele até o fim.

Celly entrou na passagem sem hesitar, determinada a vingar a morte do irmão. Cinco, por outro lado, ainda vacilava, claramente desconfortável com toda aquela situação.

- Crianças! Rápido! - Reginald apressava, ansioso para fechar a porta. Faltavam apenas alguns segundos antes que a esfera flamejante consumisse tudo ao redor.

- Temos que ir! - Allison puxou Sloane, praticamente a empurrando para dentro da porta mágica.

- Vamos logo! O que tá esperando?! - Klaus gritou para Cinco, incrédulo com a indecisão do garoto.

Foi só quando Cinco olhou para Celly, já dentro da passagem, esperando que ele seguisse, que percebeu que não tinha escolha.

- Isso não acabou! - Ele gritou antes de entrar no estreito corredor, contra sua própria vontade.

"Tudo bem. Perder eu não estarei perdendo", pensou. Afinal, se entrassem e saíssem vitoriosos, ele e Celly teriam uma vida juntos. "Se ela sair viva", corrigiu-se mentalmente, amargo.

- Entra no túnel! - Klaus empurrou Cinco, irritado com a lentidão dele.

Mas quando fez menção de entrar também, Reginald o impediu.

- Espera!

Klaus franziu o cenho.

- O que você tá fazendo?!

Reginald olhou para ele, impassível.

- Você fez um bom trabalho me trazendo de volta pra família. Mas você não vale esse esforço.

E então, sem qualquer hesitação, puxou Klaus com força para fora do corredor.

- Desculpe, Klaus.

- NÃO! PAI!

Mas Klaus nem teve tempo de reagir.

A porta se fechou diante dele, trancando-o do lado de fora. Condenando-o a morrer no Kugelblitz.

E no fundo, era exatamente o que Celeste havia avisado: "Ele vai te descartar como lixo quando não for mais útil para os planos dele."

A traição foi um golpe cruel. Klaus se levantou às pressas, socando a porta, tentando abri-la, gritando em frustração. Ele havia confiado em Reginald... e foi jogado fora como se não significasse nada. E então, veio o desespero.

A esfera flamejante se aproximava, devorando tudo no caminho. Ele sentiu a vida passando diante de seus olhos, cada erro, cada momento, cada piada idiota.

Num último impulso, sem alternativa, Klaus correu para os chifres da cabeça de búfalo na parede.

Virou-se de costas no último instante.

E tirou a própria vida.

Enquanto isso, do outro lado da porta, Reginald Hargreeves prosseguia com seu plano. Tudo aquilo tinha um único objetivo: trazer Celeste e Abigail de volta.

Uma vida marcada por arrependimentos e obsessões. Mas só quando o tempo passou ele percebeu o quanto estava apegado à filha adotiva.

Tão desesperado para tê-las de volta, que nem percebeu...

... que Celeste Hale poderia estar lá dentro.

MAIS UM!! ESTAMOS SUPER HIPER MEGA NA RETA FINAL GENTE!
Provavelmente será só mais uma postagem e depois vamos entrar em hiatus. Espero que tenham gostado, votem e comentem bastante!

E SIM, ISSO É UMA POSTAGEM EXTRA! MUITO OBRIGADA PELOS 8K DE LEITURAS E PELOS 800+ VOTOS 🥹 vocês já estão tem noção do QUANTO isso é gratificante pra mim! 💖

revisão concluída ☑️💚

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